«Eu parecia o Bruno Fernandes, mas arriscava-me mais na área»
Tostão, Brasil. Foto: IMAGO

«Eu parecia o Bruno Fernandes, mas arriscava-me mais na área»

INTERNACIONAL09.01.202412:00

Lenda nos relvados do Brasil, colunista de futebol mais lido do país e ainda médico de formação, Tostão, de 76 anos, fala por telefone com A BOLA, a partir da Belo Horizonte natal, da seleção portuguesa, de CR7, de Abel, de JJ e de muito mais

- Um dos temas recorrentes nas suas crónicas no jornal Folha de S. Paulo é a relação entre o planeado pelos treinadores e o improvisado pelos jogadores. Os jogadores ainda são mais importantes do que os treinadores?

- Do que eu discordo é da hipervalorização nas análises do papel do treinador, uma hipervalorização do que foi ensaiado, porque muitas vezes é o acaso que faz o sucesso. Os treinadores são muito importantes, sem estratégia e sem ensaio nenhuma equipa funciona, mas no campo, no jogo, muita coisa que acontece não é planeada, muita coisa depende do improviso do jogador. E improvisos lúcidos, na hora certa, mudam tudo. O futebol é uma soma de muitos fatores.

- Nelson Rodrigues falava no Sobrenatural de Almeida, aquele fantasma que pairava nos jogos do Fluminense, o acaso, o azar, o inexplicável. A imprensa atual esquece-o?

- Sim, o sonho de alguns treinadores é programar tudo, tudo - e a imprensa vai atrás. Mas os melhores treinadores são aqueles que unem o pragmatismo e a ortodoxia à criatividade e ao improviso.

- Os treinadores portugueses, nomeadamente Jorge Jesus e Abel Ferreira, mas também outros, como Luís Castro, com muito sucesso parcial, Pedro Caixinha ou António Oliveira, acrescentam algo ao futebol brasileiro?

- Acrescentam muito. O Abel sofreu alguma resistência por parecer demasiado pragmático, demasiado rígido, demasiado naquele estilo do José Mourinho, mas revelou-se com o tempo muito criativo, muda o jogo, muda o estilo, tem atenção a todos os detalhes, é um treinador de elevadíssima qualidade. Como o Jesus foi tão bem sucedido no Flamengo, como aquela equipa foi a mais encantadora do futebol brasileiro em largos anos, ele quase virou mito, não sei se foi um sucesso esporádico, o auge, ou se ele é assim sempre. Entretanto, eles, como os outros portugueses todos, são cientificamente muito bem preparados e isso é um contributo enorme, não é tudo, há o lado instintivo, mas os portugueses sublinharam que quem não tiver esse preparo não pode ser um treinador excecional.

- Tema recorrente nos seus textos é a ausência de médios que assumam o jogo e atuem de área a área no Brasil. Paquetá, Bruno Guimarães e outros podem ser a resposta?

- A partir, digamos, do Falcão e do Cerezo, que eram médios defensivos de muita visão e qualidade técnica, passou a distinguir-se no Brasil o médio volante, muito defensivo, do meia, aquele médio criativo só preocupado em atacar - foi um pecado enorme. A culpa é também do público que só aplaude o atacante driblador. Os custos sentem-se até hoje. Por exemplo, o Brasil foi eliminado pela Croácia no último Mundial porque os croatas jogaram com quatro médios muito habilidosos que envolveram o Brasil e tomaram conta do jogo. Depois, a seleção não vem privilegiando o controle, acha que se deve fazer tudo muito rápido, mas veja o Manchester City, veja o Real Madrid, como cadenciam o jogo...

- Mas há matéria prima.

- O Casemiro é muito bom, é ótimo, mas só até ao meio-campo, raramente entra na área, além dos nomes que citou há ainda Douglas Luiz, Joelinton, João Gomes, André, mas não sei se algum deles é excepcional, daqueles que tomam conta do meio-campo, como um Modric, um Rodri, um De Bruyne, um Bernardo Silva, um Bruno Fernandes.

- Falou aí em dois portugueses. Portugal tem uma boa Seleção mas pode sonhar com um Mundial? Mundial não é, se excetuarmos o Uruguai do passado, uma briga de cachorro grande, como se diz no Brasil? Só para Argentina, Alemanha, França, Itália, a seleção canarinho? A Portugal, como à Holanda ou à Croácia, países pequeninos e pouco populosos, não está apenas reservado um papel de ator secundário?

- Talvez… mas Portugal está chegando perto, além do Bruno Fernandes e do Bernardo Silva, tem tantos, tantos jogadores bons, qualidade não falta, um dia pode acontecer, mas o que vi, no Mundial-2022, foi que havia pouco jogo coletivo, faltou encontrar uma estrutura para desenvolver e potenciar os talentos.

-A maioria dos leitores já não viu o Tostão jogar. Com quem, dos dias de hoje, era parecido?

- No Cruzeiro, eu era médio ofensivo, tabelava, entrava na área, fazia golos e, sobretudo, assistia. No Mundial de 70, joguei a 9 porque o Pelé jogava na minha posição, aí eu não teria hipóteses [risos]. Seria parecido com o Bruno Fernandes, jogador de visão e de passe, mas eu entrava um bocadinho mais na área, seria parecido também com o Griezmann, talvez.

«Zagallo foi um revolucionário que fez do Brasil prosa e poesia»

- No Mundial-70, o então selecionador brasileiro, Mário Zagallo, que nos deixou na passada sexta-feira aos 92 anos, conseguiu unir estratégia e improviso naquela seleção campeã mundial, com os resultados e o brilho que se reconhece...

- O Zagallo foi um revolucionário no futebol brasileiro da época. Até então, o nosso futebol era solto e só de improviso. E ele acrescentou estratégia, conhecimento científico. Um conhecido poeta italiano [Pier Paolo Pasolini], a propósito da final do Mundial de 1970, disse «a Itália é prosa, o Brasil é poesia», mas na verdade o Mário Zagallo uniu no Brasil a prosa e a poesia.

- Conseguiu juntar os melhores jogadores da época no onze titular mesmo jogando todos nas mesmas posições nos clubes, por exemplo.

- Sim. Eu jogava a 10 e passei a jogar a 9. Antes de chegarmos ao México, já depois de ter testado os melhores camisas 9 da época, o Dario [do Atlético Mineiro] e o Roberto [do Botafogo], disse-me que queria que eu jogasse na posição. Eu entendi: ele queria que eu fosse uma espécie de médio armador na posição de centroavante, um facilitador para o Pelé e o Jairzinho que eram atacantes muito agressivos e goleadores. Não só eu mudei: o Rivellino, que também jogava na posição do Pelé, foi para o meio-campo; do lado esquerdo, o Piazza, um médio, desceu para a defesa, para termos mais qualidade de passe, tudo estratégias do Zagallo.

«Pelé era quase a soma de Messi com Cristiano»

Tostão é um admirador de Messi e Cristiano Ronaldo, focos de incontáveis elogios nos seus textos. Porém, como todos os que jogaram com Pelé, acha o compatriota falecido em 2022 acima de todos os demais. Incomparável? «Messi e Cristiano são comparáveis ao Pelé, são ambos fabulosos, aproximam-se dele, sem dúvida, assim como o Maradona e ainda outros», começa por dizer. «O que faz a diferença é que o Pelé era completo: o Messi é um génio mas não chuta tão bem com a direita, faz poucos golos de cabeça, não é tão forte fisicamente; o CR7 é um 9 perfeito mas não é tão criativo vindo de trás, o Pelé era tudo isso.» E completa: «Ele era talvez a soma dos dois, do meio-campo até à baliza ele era impossível, se o jogo estivesse complicado ele pegava na bola e driblava todos, à Messi, ou então ia para a área e enfrentava fisicamente os defesas e impunha-se na técnica, como o CR7.»

«É cedo para considerar Endrick um fenómeno»

Lionel Messi faz 37 anos em 2024, Cristiano Ronaldo faz 39. Um joga nos Estados Unidos, o outro na Arábia Saudita. É tempo de falar no futuro. Quem é ou pode vir a ser o novo craque mundial? No Brasil - e não só - há uma febre em torno de Endrick, o prodígio do Palmeiras em trânsito para o Santiago Bernabéu. «Mas ainda acho cedo catalogá-lo como fenómeno», adverte Tostão. «Pode vir a ser, sem dúvida, tem ótima técnica, uma velocidade espetacular mas ainda não lhe vi a criatividade de um Messi, a magia de um Ronaldinho Gaúcho». «Ao Vini Jr, mais velho, já vi muita qualidade, mas também acho que está no limite, é um jogador excecional mas não ao ponto de chegar a Messi e CR7, penso que o Mbappé é, hoje, aquele que herda o título de ambos de melhor do mundo».

Tags: