Endrick, o próximo rock star do futebol brasileiro
Endrick na seleção do Brasil.
Foto: IMAGO

Endrick, o próximo rock star do futebol brasileiro

INTERNACIONAL26.11.202309:00

No campo, reforço do Real Madrid já é o goleador do Palmeiras em 2023; fora dele, tem carreira gerida pelo astro Jay Z; Depois de Vini Jr, Neymar ou Ronaldo, eis um novo fenómeno

Na primeira parte, o Botafogo vencia por 3-0 ao som de «é campeão, é campeão» das bancadas do Estádio Nilton Santos. Na segunda, Endrick marcou dois golos e liderou, apesar dos meros 17 anos e três meses, a virada para 4-3 do Palmeiras, agora considerado o principal candidato ao título do Brasileirão. «Naquela noite, ele passou de menino a adulto, percebeu que podia fazer as mesmas coisas nos profissionais que sempre fez na formação», resumiu Paulo Vinícius Coelho, colunista do portal UOL.

E o Brasil e o mundo passaram também a vê-lo com outros olhos: Endrick Felipe Moreira de Sousa deixou de ser apresentado apenas como o miúdo promissor do Palmeiras e passou a ser referido como o craque que já assinou pelo Real Madrid, aonde chegará em julho de 2024, quando completa 18 anos, em troca de 60 milhões de euros. Hoje é figura nuclear do Verdão, melhor marcador da equipa no Brasileirão, com nove golos, e já está na seleção brasileira. 

«É um jogador que tem potencial para ser um dos grandes talentos do futebol, não sabemos se vai se confirmar, não queremos causar uma pressão demasiada, mas é um prémio e é uma visão do futuro do que este garoto pode ser», disse Fernando Diniz, ao convocá-lo para o conjunto canarinho. «Um menino nascido em 2006 produzir o que ele produz chama a atenção e neste momento vive o seu melhor momento, jogando com grandes clubes do Brasil consegue sempre sobressair.»

Endrick é o quarto jogador mais jovem de sempre a ser convocado - o mais novo, porém, desde o longínquo ano de 1966, quando Edu, ponta do Santos, se tornou o segundo prodígio a chegar mais depressa à seleção, a seguir a Pelé, claro, chamado aos 16 anos e 257 dias, em 1957. Ainda antes de Endrick está Coutinho, também glória santista daqueles tempos, convocado em 1960.    

O melhor momento de Endrick, cuja técnica e potência física impressionam, coincide com a mudança de posição no Palmeiras de Abel Ferreira. Antes, quando Dudu jogava, o português montava a equipa num 4-3-3 em que sobrava ao teenager apenas o lugar de ponta de lança, ou melhor, de suplente do ponta de lança Rony. Com a lesão de Dudu e a quebra de forma de Rony, o alviverde passou a jogar com três centrais e dois atacantes, Breno Lopes mais centralizado e Endrick livre para correr, criar e marcar.

«Endrick a jogar para os lados é aquilo de que eu gosto, tentámos usá-lo como ponta de lança mas não funcionou, se eu o deixo ficar no meio, o potencial dele, as arrancadas, perdem-se, nesta nova posição estamos a perceber que ele pode ser mais agressivo no jogo», afirmou o treinador, ainda nas vésperas do vendaval do craque frente ao Botafogo. Noutra ocasião, considerou-o «uma aposta ganha do clube, as coisas foram todas feitas no tempo certo, na hora certa».

Mas o caminho não foi fácil. Estrela de vídeos de Youtube filmados pelo pai, Douglas, logo aos quatro anos, não ficou no São Paulo, aos 10, porque o clube se recusou a oferecer um emprego que permitisse ao progenitor trocar a Brasília natal por São Paulo. No ano seguinte, o Palmeiras ofereceu a Douglas o cargo de empregado de limpeza da academia e a Endrick a possibilidade de comandar o ataque das sucessivas equipas juvenis. Após 165 golos em 169 jogos em todas as categorias, estava pronto para subir à equipa principal. 

No dia em que subiu, 5 de outubro de 2022, Douglas, ele próprio um anónimo ex-jogador, foi filmado a chorar nas bancadas do Allianz Parque no jogo ganho pelo Palmeiras ao Coritiba por 4-0. Ele conta que um dia, Endrick lhe pediu comida. Douglas abriu o frigorífico e não havia nada, procurou no armário e, mais uma vez, nada. O filho descansou o pai, disse que um dia seria jogador e que jamais a família passaria fome. O craque quer assegurar que o irmão mais novo jamais passe pelas dificuldades que ele passou.      

Depois da estreia, porém, Endrick teve altos e baixos, por não acertar a posição exata onde jogar e por culpa da pressão exercida pelos media locais e internacionais. Em plena seca de golos, a meio de um jogo de Paulistão, com o Bragantino, chegou a chorar no banco após ser substituído. Um passado distante, apesar de ter sido em fevereiro deste ano, tendo em conta que hoje já soma até duas internacionalizações, nas derrotas recentes do Brasil com Colômbia, fora, e Argentina, no Maracanã.

O PRODUTO

E, fora do campo, segue o caminho de outros fenómenos do jogo, como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Neymar ou o futuro colega Vinícius Júnior. Endrick e Vini Jr, aliás, já têm a carreira gerida pela Roc Nation, empresa de entretenimento norte-americana de Jay-Z, que em julho deste ano anunciou a fusão com a TFM Agency. O projeto comandado pelo rapper é líder no mercado de entretenimento e atende, por exemplo, Alicia Keys. No futebol, agencia De Bruyne, Lukaku, Dimarco, Paquetá ou Martinelli.

Thiago Freitas, COO no Brasil da empresa, que tem mais de 20 anos de experiência, conta a A BOLA os motivos do interesse em Endrick. «O Brasil é um dos principais formadores de talentos do mundo e qualquer expansão de negócios relacionada ao futebol precisa do mercado brasileiro como prioridade», diz o empresário. «Reunir essa expertise, que já é comum no desporto norte-americano, é uma das premissas que nos faz acreditar em novas tendências da indústria, a construção da imagem como um todo, sem esquecer da parte técnica.»

Entretanto, a Wolff Sports & Marketing, que desde 2022 se tornou agência exclusiva para a gestão de contratos publicitários e comerciais de Endrick – quando o atacante ainda tinha 15 anos tornou-se embaixador da OdontoCompany, maior rede de clínicas odontológicas do mundo –, busca a presença do atleta em eventos, campanhas de comunicação e ações personalizadas. Em agosto do mesmo ano, ele tornou-se embaixador do «Rei do Pitaco», marca do maior fantasy game da América Latina.

Desde então, a ideia é usar o alcance nas redes sociais para defini-lo como um produto valorizado. «Ele desde sempre demonstrou maturidade para entender os passos para alcançar sucesso também fora dos relvados, no que diz respeito aos campos dos negócios e das redes sociais», diz a A BOLA Fábio Wolff, diretor da empresa. «E é muito raro acompanhar profissionais da idade dele com essa preocupação, ele sabe que as plataformas digitais possuem alcance global, que atinge fãs e parceiros comerciais», continua.

«Queremos uma relação com no máximo oito empresas que associem o nome do Endrick com a construção de histórias reais e que não seja apenas uma troca financeira», continua Wolff. «As pessoas gostam de ver aquilo que acontece fora das quatro linhas, basta verificar as visualizações de vídeos dos clubes do que é publicado nos balneários». Endrick, o garoto pobre que sonhou e se tornou craque - e produto - pode até em breve gerar um documentário.