O Vitória foi vencedor da edição 2025/2026 da Taça da Liga com todo o merecimento. Foi um título verdadeiramente conquistado — Foto: MIGUEL NUNES
O Vitória foi vencedor da edição 2025/2026 da Taça da Liga com todo o merecimento. Foi um título verdadeiramente conquistado — Foto: MIGUEL NUNES

O novo normal

O Vitória foi vencedor da edição 2025/2026 da Taça da Liga com todo o merecimento. Foi um título verdadeiramente conquistado. 'Sentido de pertença' é uma coluna de opinião quinzenal da responsabilidade de André Coelho Lima, jurista, empresário e associado do Vitória de Guimarães

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A primeira palavra após o final da Taça da Liga vai para Luís Azevedo, adepto do SC Braga que perdeu a vida após o jogo. Um facto horrível, que ensombra o espetáculo e a todos nos entristece. Os meus sentimentos à sua família bem como ao SC Braga, estrutura e adeptos, por esta perda que a todos nos choca e a todos nos toca.

Queria aproveitar ainda para deixar um elogio a dois atletas do SC Braga pela grandeza que demonstraram como desportistas e como homens. Ricardo Horta que, na flash interview, apesar de visivelmente consternado, não hesitou em dar os «parabéns ao Vitória por todo o trajeto» e Rodrigo Zalazar que, na guarda de honra feita pelos jogadores do Vitória, cumprimentou de forma bastante afável e sentida muitos dos vencedores. Atitudes como estas enobrecem o futebol o honram tanto vencedores como vencidos.

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E agora vamos ao jogo. Mais de dois e ano e meio depois de ter sido convidado para esta coluna no prestigiado jornal A BOLA, lá chegaria o dia em que poderia escrever após a conquista de um troféu para o meu Vitória. Esse dia chegou finalmente! O Vitória foi vencedor da edição 2025/2026 da Taça da Liga com todo o merecimento.

Se há vitória à qual se pode colar o epíteto de conquistadores que orgulhosamente ostentamos, é esta. Foi um título verdadeiramente conquistado. A ferros, sem facilidades, sem ajudas e, como cantava o grande Phil Collins, against all odds… (boa sugestão musical para acompanhar este texto…).

O Vitória venceu o FC Porto no Estádio do Dragão por 3-1, sem apelo nem agravo. O Vitória derrubou o Sporting com uns claros 2-1 num jogo em que, apesar de o Sporting ter estado sempre a vencer e ter tido as melhores oportunidades, o Vitória se apresentou sempre com domínio territorial e vocação ofensiva, acreditou sempre, tendo sido um justo vencedor. E agora venceu o SC Braga após este ter vulgarizado o Benfica numa vitória por 3-1 mas que poderia ter tido números mais expressivos. Ganhámos sem espinhas. Ganhámos todos estes jogos com remontadas.

Ganhámos derrotando os principais clubes nacionais. Ganhámos porque fomos humildes, ganhámos porque tivemos uma força e uma vontade vencedora superior aos adversários que fomos defrontando. Ganhámos porque tivemos uma deslocação massiva e tocante deste povo vimaranense, que, malgrado as dificuldades do seu dia a dia, nunca abandona o seu clube e o apoia do primeiro ao último minuto. Ganhámos porque soubemos fazer das fraquezas forças e superar emblemas com obrigações e investimentos muito superiores ao nosso. E mesmo assim ganhámos! Against all odds.

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Há algo mais que esta final da Taça da Liga merece que seja dito e que seria dito independentemente de quem a vencesse. Esta final devia abrir os olhos do futebol português — e sobretudo da comunicação social — para esta nova realidade que está à frente dos nossos olhos.

Dois clubes históricos do futebol português, dois clubes com massas adeptas imensas e fiéis, dois clubes que têm representado Portugal dignamente nos patamares europeus, dois clubes que são de uma região que rivaliza com as regiões de Lisboa e Porto em número de clubes na Liga principal, dois clubes que têm crescido significativamente mas, como ficam a mais de 10 minutos das redações, não são olhados com o olhar que deviam, com o valor que efetivamente têm e sobretudo com o potencial que representam, não para si próprios mas para o futebol português. Dois clubes que, não integrando a galeria dos chamados três grandes e distando mais de 250 quilómetros de Leiria, encheram o Estádio Dr. Magalhães Pessoa.

O que se passa em Guimarães e em Braga há muito devia ser um exemplo para o futebol português. Um exemplo de comunidades que se envolvem em torno dos seus símbolos ao invés de se deixarem enfeitiçar por quem ganha mais vezes. Um exemplo de que devemos ter sentido de pertença com os clubes das nossas terras, porque são nossos, são das nossas comunidades, são do nosso povo, são o nosso legado, representam as nossas idiossincrasias, a nossa pronúncia, a nossa economia, os nossos empresários e os nossos trabalhadores, projetam aquilo que somos, porque são produto daquilo que somos. Muito melhor estaria o futebol português se os históricos Académica, V. Setúbal, Farense, Boavista ou Belenenses regressassem a estes patamares e pudessem fazer crescer as suas comunidades de apoiantes. Aspiro desde há muito pelo que dia em que o futebol português se transforme nesse futebol moderno e geograficamente representativo.

Há que reconhecer que o Vitória é, desde sempre, o primeiro emblema a fazer este percurso de autonomia, de orgulho próprio, de força genuína vinda das suas gentes, de verdadeiro clube-cidade. Nós queremos que outros nos sigam os passos. Esta final foi um exemplo disso mesmo. Como cantava o Phil Collins, na canção que atrás referi: «Take a good look at me now… there’s just an empty space.»

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Em 10 finais disputadas pelo Vitória, esta foi a primeira da história contra o SC Braga. Dois rivais eternos, com rivalidades eclesiásticas e geopolíticas muito antes de serem desportivas. Foi especial termos podido ganhá-la, apesar da enorme diferença entre os dois emblemas.

O SC Braga tem um orçamento que supera o do Vitória em €20 M (cerca de €50 M para cerca de €30 M). A folha salarial do SC Braga é de €16,5 M, enquanto a do Vitória é de €6,17 M (quase três vezes superior). Tal como aqui escrevi no meu texto anterior, devemos «analisar isto numa perspetiva de competência. É objetivamente muito mais incompetente quem, com meios incomensuravelmente superiores, consegue resultados não significativamente superiores. E na inversa, mais competente quem com menos, faz mais».

E essa competência vai a crédito da nossa gestão e do presidente António Miguel Cardoso. Tão criticado por comprar o passe de Beni Mukendi por €3 M que é hoje, claramente, o melhor jogador do Vitória. Igualmente criticado por operar mudanças no scouting e esta época temos um Ndoye vindo do improvável campeonato da Letónia, um Mitrovic descoberto no desconhecido campeonato sérvio e ainda um ex-júnior do PSG, Oumar Camara. Teimou em revolucionar a equipa contra quase todas as vozes e vemos agora os resultados práticos disso mesmo, não propriamente com a vitória na Taça da Liga, mas — o que vale muito mais do que isso — com o facto de a termos vencido com três jogadores da equipa B, dois deles da nossa formação: Noah Saviolo, Gonçalo Nogueira e Diogo Sousa.

Temos sabido fazer omeletes sem ovos e isso tem de ir a crédito de quem o merece. E nós só temos de ser gratos pelo trabalho que se está a fazer no nosso clube. Este domingo, entre tantos abraços de verdadeira comunhão que troquei com amigos e desconhecidos, num deles o meu colega Diogo Teixeira após nos abraçarmos disse: «Isto tem de ser o novo normal.» Parei com aquela frase e o seu alcance. Decidi logo o título do meu artigo. Confirmado depois pelas declarações do presidente do clube. É essa a perspetiva: ambição, crescimento, progressão. Sempre com humildade. Sempre sem tirar os pés do chão. Sempre conscientes das nossas diferenças, mas com ambição, raio!

A mesma que demonstraram os nossos rapazes e que os fez trazer o 3.º título da nossa História ao nos conquistarem uma Taça da Liga (2026) que, juntando à Supertaça (1988) e à Taça de Portugal (2013) fazem do Vitória o único clube português, além dos três, a deter essas três competições nacionais. Só nos falta o campeonato… O que me recorda a imagem de um adepto que devia ter os seus 70 anos, entrevistado às 03h00, à chuva, a festejar a conquista do seu clube e que declarou à câmara da Sport TV que o único pedido que tinha na vida era que pudéssemos ser campeões antes dele morrer.

Emotivo como sou, confesso não conseguir conter as lágrimas sempre que ouço isto. Porque penso nos tantos que nos ensinaram a ser vitorianos e morreram sem poder partilhar destes momentos. Penso nos tantos que irão morrer com esta esperança e sem a poder concretizar. Penso se eu próprio não irei morrer sem o poder presenciar. Mas penso sobretudo que todos vamos sempre acreditar e que nunca, nada, aconteça o que acontecer, nos fará deixar de ter um amor incomensurável e uma esperança infinda neste clube, que faz parte de nós e é uma parte tão importante da nossa vida.

Obrigado, Vitória!