Esta, afinal, é só a 'outra' Taça
Tenho por hábito começar as minhas crónicas neste espaço com uma história e a de hoje não será exceção. Acontece que, desta vez, a história que vou contar é sobejamente conhecida por todos aqueles que gostam e acompanham o futebol português.
Ora, era uma vez, corria o ano de 2009, um jogo de futebol que, na verdade, era a final de uma competição recentemente criada. Nessa final jogavam duas equipas da mesma cidade. Uma das equipas vestia de verde e a outra de encarnado. O árbitro era um tipo alto e moreno chamado Lucílio. E até aqui tudo normal, verdade? O jogo decorria como é suposto um jogo decorrer e a equipa que vestia de verde ganhava por uma bola a zero com golo de Bruno Pereirinha. Até que, num segundo, tudo mudou.
Corria o minuto setenta e cinco quando o árbitro Lucílio assinalou uma grande penalidade a favor da equipa encarnada. O motivo? Uma suposta mão na bola de Pedro Silva. Acontece que a bola nunca bateu na mão do jogador, mas no peito. Ainda assim, a caixa de Pandora estava aberta. O jogador de verde foi expulso e a equipa vermelha empatou o jogo com a grande penalidade convertida por Reyes.
Quando o cronómetro chegou aos noventa minutos, o resultado ainda era o empate, injusto que doía, a uma bola. E no desempate por grandes penalidades, Derlei e Hélder Postiga, dos verdes, desperdiçaram. Dito isto, a Taça foi vencida pela equipa encarnada.
Nesse dia, um pouco por todo o país, os adeptos do clube que jogava de verde indignaram-se. O árbitro veio depois assumir o erro, mas, evidentemente, já não havia remédio possível. E em muitas casas jurou-se solenemente nunca mais dar importância nenhuma àquela taça que muitos baptizaram com o nome do árbitro. Taça da Liga? Para eles era Taça Lucílio Baptista. E tanto essa designação como o desprezo subjacente sobreviveram até aos dias de hoje.
E agora é a parte em que a história acaba e a minha confissão entra porque, mesmo que não seja bonito dizê-lo, eu sou uma das que acham a Taça da Liga uma competição menor, independentemente das modificações de formato que lhe façam. E pouco me interessa que haja uma final four ou que a descentralizem para Marte. Aquele penálti injustamente marcado aos setenta e cinco minutos ainda hoje me dói. «Credo, Carmen, isso é tudo rancor?» – perguntar-me-ão. «É, sim!» – responderei. Porque eu sou das que acham que os árbitros, tal como todos, têm o direito de errar e recuso-me terminantemente a ver cabalas em tudo. Mas ainda assim, mesmo acreditando que não houve intenção de prejudicar o Sporting, o amargo de boca que senti naquele dia nunca mais ninguém me tirou.
A Taça da Liga é aquela que, em abono da verdade, só interessa a quem a ganha. E não, não estou a escrever isto por o Sporting nem ter chegado à final este ano — aliás, tinha-me dado muito jeito que passássemos porque só Deus sabe o que me custou fazer com que o miúdo do meio parasse de chorar depois da eliminação (estes sportinguistas mais jovens, como já tive oportunidade de escrever nestas páginas, estão bastante mal habituados). Escrevo-o por ser verdade. Porque ser eliminado da Taça da Liga dói muito pouco ou quase nada. Se isto é o cérebro sportinguista a lidar com o trauma? Pode ser. Se calhar alguém que perceba de psicologia é capaz de dizer que esta é uma ferida por sarar. Mas o meu ponto é que, seja lá por que razão for, esta, para a maioria dos adeptos, pelo menos sportinguistas, é mesmo só a outra taça.
E tendo dito isto tudo, deixem-me referir que este ano, pelo menos, esta competição teve o mérito de nos oferecer uma final sem nenhum dos três grandes. E isso foi bonito de se ver. Porque esta coisa de o futebol em Portugal orbitar só em redor de Sporting, Porto e Benfica não faz bem a ninguém. Uma final entre Sporting de Braga e Vitória de Guimarães reforça a ideia de que, de facto, há espaço para outros clubes sonharem e vencerem e é uma montra para jogadores que, habitualmente, não têm o mesmo palco de quem joga nos três grandes. Além disso, só vivendo fora da Via Láctea alguém pode alegar desconhecer a rivalidade regional entre estes dois clubes, que não é mais do que a própria rivalidade entre as duas cidades.
Independentemente do que eu penso da Taça da Liga, este ano a final, feita verdadeiro arraial minhoto, foi bonita. E seja o que for que aconteça com esta competição daqui para a frente, este mérito já ninguém lhe tira. Se apaga tudo o resto? Nem por isso. Mas sempre já é qualquer coisa.
E porque escrevo sobre taças, deixem-me dar um salto ao país aqui ao lado — que, no meu caso, não é de nuestros hermanos, mas de mis abuelos —, que teve também neste fim-de-semana a final da sua supertaça. E que boa final foi. Apesar de o resultado não me ter agradado, a verdade é que foi um jogo com a dose de emoção que o futebol deve ter. Aquilo com que não me conformo é com o facto de esta competição ser jogada na Arábia Saudita e já dei conta disso mesmo no espaço Na bancada desta coluna na semana passada.
E sim, eu sei que contratos de 120 milhões de euros não são coisa que se possa desvalorizar e que a promoção do futebol espanhol fora da Europa é importante. Mas, lamento, o que a Arábia Saudita procura fazer com este acordo com a Real Federação Espanhola de Futebol é pura e simplesmente uma lavagem da sua imagem internacional, mascarando abusos internos.
Sejamos honestos, a Arábia Saudita não é exactamente conhecida por respeitar, por exemplo, os direitos das mulheres e das minorias, verdade? Aliás, só a partir de novembro de 2025 é que as mulheres puderam começar a entrar nos estádios sem restrições quanto à roupa ou à área onde se sentam.
Enfim, o Barcelona venceu o jogo. Mas os adeptos espanhóis, mais uma vez, perderam. Porque viram uma competição que é sua ser transferida para outro continente por dinheiro. E quando o dinheiro se sobrepõe aos valores que devem reger o desporto, não pode haver quem ganhe.