Porque está Roger Schmidt no ponto de mira?
Quando poderia pensar-se que por ter vencido, no ano de estreia, o Campeonato Nacional, Roger Schmidt ia ter uma margem de manobra mais alargada para as suas decisões, eis que de repente o treinador do Benfica é colocado, por tudo e por nada, com e sem razão, no olho do furacão, numa condição que ameaça a estabilidade do Benfica.
É estranho, do ponto de vista estrutural, porque Schmidt já deu, em Portugal, sobejas provas de competência; já do ponto de vista conjuntural, tal como qualquer outro, não está blindado contra as críticas.
No Bessa, escrevi-o e mantenho a mesma opinião, a entrada de Morato não foi a mais feliz, dentro da necessidade de reequilibrar a equipa após a expulsão de Musa. Haveria, penso eu, melhores opções. Mas, ao contrário dos treinadores, que conhecem o resultado prático das suas decisões, as teses dos comentadores ficam sempre por provar, para o bem e para o mal. E essa é a grande diferença entre quem tem a responsabilidade das decisões e quem teoriza - uns de forma mais sustentada, outros mais ao sabor da corrente.
Regressando ao Bessa, e embora pensando que Morato não foi a melhor solução, a verdade é que mesmo a jogar dez contra onze, o Benfica, já no registo de três centrais, fez uma bola embater no travessão da baliza axadrezada e chegou a uma vantagem que manteve até Vlachodimos ter uma hesitação que acabou em penálti e no 2-2. Curiosamente, a derrota encarnada surgiu quando ambas as equipas estavam reduzidas a dez unidades, pelo simples facto da anarquia ter tomado conta do Benfica, tão preocupado em ir à procura dos três pontos que se esquecer de manter uma organização defensiva mínima.
Ora, terá sido por ter ficado associado ao segundo golo do Boavista que Odysseas Vlachodimos, depois de ser titular durante cinco épocas, foi substituído no jogo com o Estrela da Amadora? Claro que não. Ainda está por nascer o guarda-redes que nunca errou e isso é algo com que quem anda no futebol sabe conviver. Vlachodimos perdeu o lugar porque Schmidt quer mais do guarda-redes do Benfica, quer alguém que seja forte no jogo aéreo e ao mesmo tempo jogue tão bem com os pés que possa ser o primeiro ponto de apoio do ataque encarnado. Voltando ao exemplo anterior, a insatisfação de Roger Schmidt com Vlachodimos será estrutural, enquanto o golo no Bessa foi meramente conjuntural.
A pergunta que fica no ar, e que provavelmente nunca terá resposta, é esta: será que se Anatoly Trubin, investimento importante do Benfica, não estivesse no plantel, Vlachodimos perdia o lugar para Samuel Soares? Ou estaremos apenas numa fase de transição que culminará com a titularidade, em breve, do internacional ucraniano?
Para já, gostava de registar o cerco que está a ser montado a Roger Schmidt, que entre alguns defeitos e muitas virtudes, é o mesmo que era em 2022/23. E questiono-me, até, se não andará no ar algum chauvinismo e muito despeito, que foi sendo silenciado na última época, porque os resultados do Benfica eram os que sabemos?
Ao Benfica fará bem que feche o mercado para que possa perceber com quem conta. E uma coisa é certa: não há equipas fortes com balneários fracos, onde, dentro da competição interna própria, não remem todos na mesma direção. Competirá à estrutura – a começar pelo presidente, que conhece da poda como ninguém - saber ler os sinais, e ao treinador não permitir que seja quem for o coloque em xeque.