Falar menos, jogar mais

Falar menos, jogar mais

OPINIÃO14.12.202309:35

O futebol acaba por ser complexo a várias dimensões, com estados de espírito que vão de um extremo ao outro

Quer queiramos quer não, o futebol português, um mar cheio de talentos, está a perder qualidade por diversas razões, incluindo as inúmeras paragens do jogo. Se analisarmos o tempo útil, na maior parte dos nossos desafios, só pouco mais de meia parte é que deve ser o tempo de circulação da bola. Analisando os faladores e faladoras de futebol, que acabam sempre por ter a quota parte do fanatismo, preferem a virtude do protagonismo, que se esfuma rapidamente, em vez de analisar as eventuais razões bem profundas que vão desprestigiando a qualidade do jogo. Das simulações, às entradas exageradamente violentas e cirúrgicas, à falta de coesão dos intervenientes no jogo, são diversas as urgências que temos de superar.

O futebol é um jogo aparentemente simples, o que revela a sua complexidade real, contudo, apresenta muitas vezes uma leitura simplista, clubística e que causa um inferno de discussões sem nexo, apenas para durar umas horitas, desvanecendo como uma nuvem. A apropriação dos adeptos leva-os a sentirem-se como decisores imparáveis, numa amálgama de opiniões divergentes e, quase de imediato, venha o próximo!

Todos são importantes, porém os jogadores são os fazedores de vitórias, de jogadas impressionantes, de dribles, golos, arrancadas em velocidade e defesas de outro mundo. Os treinadores são aqueles que juntam as peças para criarem um puzzle indestrutível. E isso implica grande reflexão, análise, estudo e liderança confiante, sabendo que além dos jogadores há as outras equipas e colaboradores que trabalham para o mesmo objetivo: vencer em cada jogo.

Deixando de lado os comentários dos habituais génios do palpite, normalmente ao serviço de clubes, o importante é que o mister faça o seu trabalho com as equipas e apoios ao dispor. Por outro lado, na fase em que ainda estamos, será mais importante a comunicação no dia e nas vésperas de jogos, porquanto, para funcionar como equipa, é preciso que cada um saiba pormenorizadamente o que tem de fazer no relvado. A grande qualidade do futebol é que os resultados são sempre aceites (mesmo que possam ter existido razões para um outro resultado).

Não se pretende um jogo de silêncio, mas antes de vida, de alegria, tristeza e apoio sistemático, partilhando emoções, evitando lançar provocações aos árbitros, aos jogadores e treinadores, assim como aos adeptos rivais e até conflitos entre os sócios do mesmo clube. «O futebol é a inteligência em movimento», afirmou o prémio Nobel da Literatura Albert Camus, considerado pelos amigos como bom guarda-redes e que manteve a sua paixão pelo futebol e, por isso mesmo, tem em si as condições para potenciar emoções muito fortes.

O futebol nacional tem sementes de grande qualidade e, ao longo dos tempos, foram vários os grandes ídolos, com dimensão internacional, que com a televisão e as tecnologias se transformam num acontecimento global. Os ídolos deixam de ter pátria e passam a ser de todo o planeta. Vem isto a propósito dos treinadores se preocuparem bastante com o que dizem nas conferências e entrevistas, porquanto o mais importante é observar o que os jogadores fazem e como interpretam as indicações do líder. Por outro lado, exagerar na informação pode ser o caminho para a derrota. Cada um tem de controlar o seu espaço, a sua intervenção com eficácia e criar avenidas para libertar talento e procurar conseguir o golo. Aparentemente simples, o futebol acaba por ser complexo a várias dimensões, com estados de espírito que vão de um extremo ao outro.

A simplicidade do jogo, como se pode observar nos grandes jogadores mundiais, só está ao alcance de quem sabe o que tem de fazer e de que modo agir. Ligar os jogadores de uma equipa, como um todo, é tarefa muito complexa, mas indispensável, de modo que cada um consiga cumprir o plano que o treinador concebeu, mas sempre com ajustes necessários. Reduzir o futebol ao jogo na relva é desconhecer o trabalho duro e sistemático para conseguir melhores desempenhos. E já nem falamos das exigências emocionais que, não raras vezes, impedem o desenvolvimento de muitos jogadores.

Jogar bem, entusiasmar os adeptos, construir o inesperado, mesmo com as melhores e maiores informações do treinador, depende sempre do talento individual, num segundo de inspiração e, nessa área, estamos também a precisar de mais esforço e de menos violência. Se todos são profissionais, não pode haver espaço para lesionar, por descuido ou mau caráter, um colega de profissão.

Na nossa Liga, a competição tem vindo a desenvolver-se com maior equilíbrio, maior instabilidade na classificação pela luta dos clubes e, o mais importante, importa reduzir bastante os erros da arbitragem: mostrem que são capazes de arbitrar muito bem, como quando os árbitros portugueses vão apitar à Arábia Saudita. Qual a razão para serem diferentes em Portugal? Essa resposta poderá contribuir para a mudança que bem necessitamos.

Liga Portugal

O Benfica empatou na Luz (1-1), com o Farense a marcar primeiro, passando uma fase de protesto da massa associativa, após três empates seguidos, o que levou o treinador encarnado a afirmar: «Se o problema sou eu, é fácil, eu saio (…) Se não respeitam, fiquem em casa.» Isto revela polémica na gestão do plantel.

O SC Braga foi a Vizela vencer por 3-1 com naturalidade. Seguindo as palavras de Sérgio Conceição, «ir ao limite é o mínimo», os azuis e brancos regressaram ao futebol que os caracteriza, vencendo por 3-1 o Casa Pia que nunca desistiu de tentar marcar; Pepe foi o autor do terceiro golo. O V. Guimarães venceu o Sporting, num jogo com sucessivas alterações do marcador, com um resultado final de 3-2.

O Portimonense empatou com o Famalicão (1-1). O Estrela da Amadora venceu por 3-1 o Boavista e Petit, a fazer um grande trabalho em função das realidades financeiras, dirigiu o último jogo dos axadrezados: uma injustiça. O Arouca e o Rio Ave empataram a dois . O Estoril, confiante, goleou o Chaves que não marcou um golo (4-0). Num jogo muito disputado, Gil Vicente e Moreirense empataram a um. Nesta jornada, foram obtidos 31 golos e só uma equipa não conseguiu marcar.

Jornada europeia

As equipas nacionais envolvidas em competições da UEFA vão ser obrigadas a cumprir um microciclo com elevada densidade competitiva e numa fase decisiva. Para se manter na Champions, os azuis e brancos jogaram com intensidade e venceram com mérito o Shakhtar por 5-3, no Dragão, golos de Galeno (2), Taremi, Pepe e Francisco Conceição.

O Benfica, depois daquele jogo em que vencia por 3-0 e se deixou empatar com o Inter, conseguiu segurar a oportunidade para continuar nas competições europeias, vencendo por 3-1 o Salzburgo, na Áustria, passando para a Liga Europa. O SC Braga, na última e difícil oportunidade para continuar nas competições europeias, conseguiu apurar-se para o play-off de acesso aos oitavos de final da Liga Europa.

O Sporting defronta hoje o Sturm Graz, na Liga Europa, já com o segundo lugar no grupo assegurado.

Universo FC Porto

O FC Porto tem várias competições para tentar vencer: Liga, Taça de Portugal e Champions. Todos devem refletir para reforçar a dinâmica, potenciar as capacidades e sair dos jogos com a convicção de que deram o máximo possível. O clube tem de se focar em si, transformar-se num todo coerente e consistente, independentemente dos adversários.

E os jogadores e treinadores de outros clubes, que estão a lutar para o título, não são prioridade porque só o pensamento na vitória é o desafio a vencer. Não há campeonatos fáceis e, por isso, importa não desperdiçar pontos para manter acesa e possível a entrega para vencer os títulos em disputa. Unir e colocar o foco em todos os jogos é exigido por todo o universo azul e branco.

Regressando às vitórias, cresce a obrigação de impedir que volte a acontecer, dando todo o possível para tornar a equipa um exemplo de coesão e determinação

Remate final 

Sérgio Conceição completou esta semana os 500 jogos oficiais como treinador de equipas portuguesas. 

Abel Ferreira é o primeiro treinador estrangeiro campeão duas vezes seguidas com o Palmeiras, no Brasil. 

Ronaldo, o caçador de recordes, alcançou esta semana os 1200 golos na sua carreira imparável.