Editorial: Uma questão de honra
O treinador Roger Schmidt. Foto: Maciej Rogowski/Imago.

Editorial: Uma questão de honra

OPINIÃO29.11.202309:34

Para o Benfica, mais do que o resultado, é agora essencial mostrar o caráter de que é feito

Tem o Benfica tido jogadores com alma suficiente para carregar com a equipa às costas e compensar a irregularidade das exibições, fracas na Europa, apenas razoáveis na maioria dos jogos nacionais. O que lhe tem valido é o espírito, a determinação, a mentalidade e o foco, sobretudo de jogadores como Otamendi, António Silva, João Neves (sobretudo João Neves) e até, mais recentemente, Florentino. 

No futebol ao mais alto nível, a vontade e a determinação com que se compete não é, evidentemente, tudo, nem chega para superar a maioria das dificuldades. Mas torna-se essencial sempre que a equipa não consegue jogar bem. Apesar das palavras de Roger Schmidt, considerando, por exemplo, que o Benfica esteve bem frente ao Famalicão (quando, na verdade, esteve bem pior do que quer fazer crer o treinador alemão), está a equipa da Luz a revelar demasiada dificuldade em se ligar e consolidar, e a acusar, mais do que poderia esperar-se, a perda de jogadores como Grimaldo ou Gonçalo Ramos, as forçadas, e prolongadas, ausências por lesão de jogadores como Alexsander Bah, Kokçu ou David Neres, ou, ainda, os problemas de clara inadaptação de Jurásek ou Arthur Cabral. Muito problema, pouca solução. Já quanto a Di María, é mais ou menos o que se previa: tem sido uma fantástica solução, mas às vezes transforma-se num inegável problema. É tão visível que nem precisa de mais explicações. 

Com o comboio já em andamento, o Benfica ainda trocou de guarda-redes, com tudo o que isso implica na química e ligação de uma equipa (mesmo tendo ficado, creio, a ganhar), e tem visto o treinador hesitar demasiado na opção para ponta de lança (trocar tanto não dá confiança a ninguém). Com quatro meses de competição, esta segunda águia de Schmidt parece muito mais um projeto ainda do que uma estrutura. Do ponto de vista económico-financeiro e do prestígio, compreende-se em absoluto a mensagem do presidente encarnado. Após o falhanço da Champions, pede Rui Costa que o Benfica tenha a dignidade de lutar pela Liga Europa. 

Mas a verdade, julgo, é que do ponto de vista estritamente desportivo, creio que para este Benfica, para o atual estado competitivo da equipa, para a menor qualidade (dada a expectativa criada) do futebol que tem vindo a jogar e para a maior das ambições, que é o bicampeonato, arrisco prever que acabar por continuar na UEFA talvez seja para a águia mais um problema do que uma solução. Deixar a Europa, sublinho, tem a clara desvantagem económica. Afeta o prestígio no momento e afasta os jogadores da montra internacional. Isso é inquestionável. 

Mas permite mais fôlego a uma equipa com dificuldade em respirar e dá espaço ao foco mais importante, que é, sem dúvida, para qualquer dos candidatos ao título, o mais importante. Precisa, naturalmente, a equipa da Luz de salvar a honra do seu convento nesta edição da Champions, e volta a ter a oportunidade de melhorar a inexplicável imagem de não ter conseguido, em quatro jogos, qualquer ponto. O maior ou menor espírito com que os jogadores enfrentarão estes últimos dois combates pode, porém, marcar profundamente o resto da temporada, porque sendo o caráter da equipa muito mais importante agora do que o resultado, exigem certamente os adeptos que todos, no Benfica, o compreendam! 

PS: Foi, em grande parte, o talento individual de dois portugueses que acabou por travar a legítima aspiração do FC Porto em Barcelona, num jogo que podia, na verdade, ter caído para qualquer dos lados. Caiu para o lado da inspiração de Cancelo e Félix (o que vão agora escrever em Espanha?...). E adiou a qualificação que o FC Porto (tendo de esperar pelo último jogo) tanto merece!