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Mujica, 25 anos, já apontou 17 golos esta época pelo Arouca (Foto: Vítor Garcez/ASF)

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OPINIÃO28.02.202411:00

Podem não ser louros nem terem carapinha de ascendência do Caribe colonizado pelos neerlandeses, mas vale a pena ver o trio espanhol do Arouca

A recente morte de Andreas Brehme fez-me recordar os tempos pré-Lei Bósman e a rivalidade Milan-Inter alavancada nos anos 80 e 90 do século passado pela tensão Alemanha-Países Baixos criada nos anos 70, com óbvias reminiscências da Segunda Grande Guerra. A Serie A era, à data, o que é hoje a Premier League (o melhor campeonato do mundo), mas as suas equipas só podiam contar com três estrangeiros no plantel (incluindo comunitários), o que obrigava cada clube a um processo de seleção meticuloso – ou, em alternativa, apostar tudo num trio que falasse a mesma língua e tivesse a mesma linguagem futebolística (o que não é bem a mesma coisa).

Foi assim que Silvio Berlusconi conseguiu juntar o trio neerlandês Rijkaard-Gullit-Van Basten no Milan de Arrigo Sacchi e, pouco depois, por insistência da velha raposa Giovanni Trapattoni, os nerazzurri tivessem respondido com os germânicos Andreas Brehme, Lothar Matthaus e Jurgen Klinsmann. Ficava tudo mais simples e facilitava até o falatório da bola: os holandeses (assim se chamavam) de um lado, os alemães de outro. Os campeões da Europa em 1988 de vermelho e negro, os campeões do Mundo em 1990 (em Itália) de negro e azul. Ficou para a história este confronto entre dois eixos, também por causa desse caráter único e quase irrepetível, o de duas das melhores equipas do mundo juntarem os três melhores jogadores de um país estrangeiro de topo nos seus quadros.

É nisso que me lembro (embora salvaguardando as devidas diferenças) quando vejo, com um deleite cada vez maior, o trio espanhol do Arouca. Jason, Mujica e Cristo não são obviamente os três melhores jogadores espanhóis, mas o que estão a fazer na Serra da Freita é em certa medida especial e merecedor de muito mais que uma nota de rodapé na história deste campeonato. E a prova de que uma segunda ou terceira linhas do futebol do país vizinho podem fazer a diferença num campeonato muito competitivo na parte de baixo da tabela, mas não necessariamente bem jogado.

Certamente que cada um deles sairá de Arouca muito melhor jogador do que quando chegou e isso pode ajudar a reforçar uma tendência recente: a chegada de mais jogadores do outro lado da fronteira, sinal de que o mercado espanhol começa a ver a liga portuguesa com um potencial de acolhimento daqueles que têm problemas de afirmação no Este da Península.

Um campeonato com 29 futebolistas espanhóis é inédito (nesta época e também em 2022/2023) e representa uma grande diferença face ao que existia há cinco ou dez anos. O tempo dirá se se trata apenas de uma moda, mas é factual que a formação em Espanha está a produzir cada vez em maior quantidade com a qualidade que é reconhecida por todos, precisará de escoar produto porque a maior capacidade financeira dos seus clubes e o mercado livre tiram espaço à classe média-baixa dos futebolistas e a proximidade geográfica pode ser uma vantagem competitiva para Portugal, que precisa ser cada vez mais criativo e proativo para atrair talento.

Podem não ser louros nem terem carapinha com ascendência do Caribe colonizado pelos neerlandeses, mas vale a pena sintonizar a TV sempre que este trio espanhol começa a bailar em campo.