A «força» de Cristiano Ronaldo num gesto
Cristiano Ronaldo cumpriu ontem um jogo de suspensão por um gesto dirigido aos adeptos do Al Shabab, no final do jogo entre a equipa de Vítor Pereira e o Al Nassr, no passado fim de semana.
Tendo ouvido as bancadas a gritar por Messi, como tantas vezes ao longo dos anos, e no final de uma vitória arrancada nos últimos minutos do jogo, o avançado português fez o que já todos vimos nas imagens.
E que não devia ter feito, claro. O saboroso resultado e o entusiasmo final não desresponsabilizam Cristiano Ronaldo de continuar a ser um exemplo no futebol mundial, com todos os gestos a serem multiplicados e copiados milhares - e milhões - de vezes.
Desde que se assumiu como figura maior da Liga saudita, o português pode estar mais longe dos holofotes das grandes competições (embora se recuse a aceitá-lo), mas estará sempre sob o olhar atento dos seus fãs e dos que, teimosamente, não gostam assim tanto dele.
Só que Cristiano Ronaldo não está num país qualquer. Ao contrário do que os vídeos promocionais e as grandes campanhas com as maiores estrelas do desporto tentam mostrar, a Arábia Saudita não é a terra da liberdade, igualdade e fraternidade (que me perdoem os franceses por este roubo). E, por isso, o gesto do avançado do Al Nassr foi retratado como obsceno e imoral, dois adjetivos que servem para qualificar demasiados atos naquele país e para punir severamente quem os faz.
O jogador foi obrigado a justificar-se e, segundo os relatos da imprensa saudita (que não é livre, sublinhe-se), terá dito, em audiência do Conselho de Disciplina da Federação de Futebol da Arábia Saudita, que o gesto significava apenas «força» e «vitória» e que «estamos habituados a fazê-lo na Europa». Confesso que tenho alguma pena de não ver as reações dos intervenientes, provavelmente chocados ao imaginar um qualquer europeu a fazer este gesto constantemente, na rua, no emprego, em casa, enfim, tem a sua piada.
Mas a verdade é que esta versão deve ter resultado, pois o castigo foi de apenas um jogo e cerca de 7.500 euros. Se fosse uma mulher, podia ter sido condenada a umas chicotadas. Se fosse um jornalista, podia ter sido preso. Se fosse um pobre, podia ter sido executado.
Um exagero, claro, tendo em conta um gesto que estamos tão habituados a fazer (!), mas pretendo apenas sublinhar que é muito fácil os futebolistas recém-chegados à Arábia Saudita ou que vivem em Miami pintarem um cenário idílico deste país, quando são tratados de forma diferente.
Cristiano continua uma máquina de fazer golos e quererá sempre ganhar e bater recordes até ao fim da sua carreira. Teve só um gesto despropositado e provocador dentro de um campo de futebol e foi castigado por ele. A sua força, no entanto, não tem fronteiras e, por mais que nos tentemos habituar, ainda custa vê-la limitada às obscenidades da Arábia Saudita.
Artigos Relacionados: