Viriato Sampaio critica a gestão de António Miguel Cardoso e Rui Rodrigues e afirma ter soluções para os problemas do Vitória. O maior trunfo é o 'Stadium Finance'

Viriato Sampaio: «António Miguel Cardoso não percebeu o que é ser presidente do Vitória»

Economista vimaranense candidata-se à presidência dos conquistadores, pela Lista C, com um plano a dez anos e tem no 'Stadium Finance' o seu principal trunfo

Em entrevista a A BOLA, o candidato à presidência do Vitória de Guimarães, Viriato Sampaio, abordou, entre outros temas, a gestão «quase danosa» de António Miguel Cardoso e a «grande proposta» do Stadium Finance

- Qual foi o momento exato em que decidiu avançar e porquê?

- Avancei quando, perante uma equipa muito forte de competências profissionais muito vincadas dos meus quatro vice-presidentes, percebi que tínhamos uma equipa fantástica, que nos complementávamos, e sentimos que podíamos levar muito valor para o Vitória e ajudá-lo a encontrar o caminho certo, em vez do caminho que tem tido nos últimos anos.

A Taça da Liga foi quase um milagre.

- Como viu a gestão de António Miguel Cardoso?

- Em termos financeiros, houve um aumento do passivo. Começou com um passivo de 52 milhões, está a entregar-nos agora a administração da SAD do Vitória, provavelmente, pela estimativa que nos apresentaram, com cerca de 80 milhões de passivo, depois de ter havido vendas de jogadores de cerca de 100 milhões. Portanto, uma gestão quase a roçar o danoso em termos financeiros. Em termos desportivos, de facto, ganhámos uma Taça da Liga que foi quase um milagre. Perante os atletas que o presidente escolheu, foi com alguma dificuldade que vi o trabalho do Luís Pinto e os resultados falam por si em termos de classificação.

- Teria ficado com Luís Pinto?

- Muito provavelmente sim. Eu continuo sem perceber - e acho que a maior parte dos vitorianos também - o que é que aconteceu para, na fase final da Liga, ter dispensado um técnico que tinha acabado de ser campeão de inverno. Desmembrou a equipa B para dispensar o Luís Pinto numa fase final incompreensível. Foi uma daquelas decisões tomadas por esta administração muito em cima do joelho, sem rigor nem critério.

António Miguel Cardoso não percebe o que é ser presidente do Vitória.

- Já disse que considera que António Miguel Cardoso não teve respeito por aquilo que é ser presidente do Vitória. Porque é que disse isso?

- Porque alguém que assume um compromisso, depois de ter sido legitimado por mais de 90% dos sócios, e ao fim de um ano que se demite é de quem não percebe o que é ser presidente do Vitória. Claramente, não percebe, para, ao fim de um ano, se demitir dessas funções. É uma demissão muito pouco honrosa.

- Já tinha equacionado alguma vez candidatar-se à presidência do Vitória?

- Honestamente, não. Foi agora um conjunto de circunstâncias que me levou a pensar nisso. Repito: a equipa muito forte que tenho ajudou muito nessa decisão, foi crucial.

«A nossa é a melhor solução»

- Considera que nesta fase é preciso coragem para avançar?

- Com certeza que sim. Toda a gente que se cruza connosco na rua diz isso: 'é preciso muita coragem', 'força', 'coragem', porque o Vitória tem a situação financeira que tem e é preciso muita coragem para chegar lá e resolver. Nós temos soluções, temos planos, temos muito trabalho de casa feito e acreditamos que a nossa é a melhor solução.

- Qual é a sua grande proposta?

- Voltar a equilibrar as contas do Vitória para que essas contas equilibradas permitam ter prestações desportivas condizentes com aquilo que o clube merece.

É utópico pensar que não há passivo (...) António Miguel Cardoso vendeu muito, mas geriu muito mal o produto das vendas (...) Rui Rodrigues deve ter assinado muitos contratos que nos levaram a esta situação.

- Como se propõe a fazer isso?

- Em termos financeiros, a nossa principal proposta é o Stadium Finance, que passa por um alargamento de prazos. Não passa, que seja claro, por aumentar passivo. O passivo será mantido dentro dos mesmos valores e com tendência de redução, é isso que preconizamos. Porque o passivo é um passivo que podemos ter - e qualquer clube ou SAD ou empresa pode ter passivo -, desde que seja gerível, desde que as receitas paguem o serviço da dívida. É utópico pensar que não há passivo. Passivo pode haver sempre desde que seja comedido, contido e gerido, que é isso que nós preconizamos. Porque numa SAD a questão dos ativos é muito importante. António Miguel Cardoso estava sempre a referir-se a uma mochila de passivo, mas nunca se referia à mochila do ativo. Quando há passivo, há ativo. Na questão de uma SAD, o problema é que os ativos não podem muitas vezes ser valorizados pelo real valor deles, só quando são transacionados. Os atletas da formação estão no ativo, a maioria deles, pelo valor zero. Não é porque valem zero, é porque as regras contabilísticas são assim - e depois só nas transações é que se pode ver o real valor desses ativos. António Miguel Cardoso herdou uma mochila com passivo, mas herdou também muitos ativos dos quais se desfez imediatamente, para fazer face às despesas que tinha. O problema é que vendeu muito, mas geriu muito mal o produto das vendas e levou a que, neste momento, o passivo tenha aumentado 30%, segundo as estimativas da própria administração atual, onde um dos candidatos faz parte - [Rui Rodrigues] deve ter assinado muitos contratos que nos levaram a esta situação e agora está a candidatar-se. Nós acreditamos que a nossa solução de alargamento de prazos, redução de taxas de juro, é a solução mais viável. Não é a única. É a principal que vamos tentar pôr logo em prática assim que possível. Agora, perante as contas que vamos receber, temos que falar com a instituição financeira de renome internacional, ver o que é que pode fazer. Há uma questão que se tem levantado muito em termos de associados, que é: ‘ quais são as taxas?’. Claramente o que nós queremos é que as taxas de juro e os custos financeiros reduzam e que não sejam de 11, 12% ou mais que temos nesta atual administração. Foi isso que saiu da reunião que tivemos com a instituição financeira: redução de custos financeiros por via de taxas inferiores.

- Essas negociações estão numa fase avançada?

- As negociações foram feitas com uma reunião com essa instituição financeira. Como candidatos, não podemos ter nada oficializado, porque só quando estivermos na SAD e pudermos assinar contratos e assinar em representação do Vitória é que podemos, de facto, pôr isso em prática. A reunião preliminar foi uma reunião em que eles nos disseram: ‘os termos e as condições são estas, o que vocês precisam para garantir este financiamento é de dar as receitas que provêm do estádio’. Parte desse financiamento, 15%, é obrigatoriamente aplicado em melhorias no estádio para que o estádio possa aumentar as receitas. Nós podemos ir pelo lado das receitas ou das despesas. Se as despesas são grandes, temos de tentar não só cortar despesas, mas aumentar receita. Esta solução financeira que temos passa muito por aumentar receitas por via de melhoramento do estádio: novos camarotes, áreas comerciais, os camarotes já existentes melhorados para que se possa trazer mais gente ao estádio. São situações que estão definidas neste financiamento com esta instituição financeira. Não é nada de novo que outros clubes não tenham feito — o Barcelona, o Real Madrid, o próprio FC Porto e o Sporting já fizeram esta operação. Nós temos a abertura dessa instituição financeira. Só quando formos oficializados como administradores da SAD é que podemos iniciar o processo formal de proposta e eles nos darem a resposta formal também.

- O nome do estádio, por exemplo?

- O naming do estádio, para já, ainda não é tema. É uma fonte de receitas e, sendo uma fonte de receitas, se nós tivermos que fazer essa opção, faremos, mas não sem antes perguntar aos associados, se, face às receitas, faz sentido. Não é alteraro nome, porque, que seja muito claro, D. Afonso Henriques ficará sempre. Pode é ficar o D. Afonso Henriques associado a alguém que nos traz valor para o Vitória como um aumento de receitas, que é isso que nós temos que fazer no Vitória.

Podemos ter momentos em que ainda não somos capazes de ter uma parte desportiva tão forte.

- Quais são os riscos das suas propostas?

- O risco é como em qualquer sociedade anónima e empresa. Primeiro, há o risco desportivo, porque nós, ao fazermos estas alterações do passivo ou alargamento de prazos do passivo, podemos ter alguns momentos em que ainda não somos capazes de ter uma parte desportiva tão forte quanto isso. Mas a nossa ideia é equilibrar as contas para depois a parte desportiva ser muito mais forte, muito mais consistente, muito mais coerente e estável. O que nós preconizamos também é muita estabilidade. Os nossos planos têm sido apresentados e as nossas medidas têm sido apresentadas a dez anos, porque consideramos que só assim é que o Vitória consegue começar a competir consistentemente pelo lugar que merece. E é isso que queremos: estabilidade, planos a dez anos, fazer uma proposta de passar os mandatos de três para quatro anos, para tentarmos estabilizar o máximo possível o Vitória, para as performances desportivas serem consistentes e bastante melhores do que têm sido.

- Voltando um bocadinho atrás, considera que algumas vendas da direção de António Miguel Cardoso poderiam ter sido mais rentáveis?

- Nessa questão, como sou da área financeira, compreendo que é o mercado que dita o preço. E nós, não estando na administração, não sabemos quais foram as propostas que chegaram ao Vitória. Portanto, eu suponho que devem ter sido feitas as vendas pelas melhores propostas. Se depois houve outro tipo de interesses que levaram a fazer outro tipo de vendas, eu não vou levantar essa questão porque suponho que quem lá está defendeu os melhores interesses do Vitória. Agora, com tantas vendas, esse dinheiro que entrou foi mal gerido. É mais por aí que nós apontamos. O valor das vendas é o que o mercado dita, assumindo que foi isso que as pessoas fizeram, porque também se pode levantar essa questão…

- Para si, a venda de jogadores é um objetivo para fazer dinheiro ou o foco deve ser formar para reter e ter jogadores de qualidade no plantel?

- Vender atletas faz parte de uma sociedade anónima desportiva, todos os clubes fazem, faz parte do negócio. Tem é que ser com critério e rigor. Não pode ser vender por vender, tornar isto um entreposto de jogadores — um entra e sai de jogadores a todo o momento sem critério —, porque depois isso resulta numa má performance desportiva, porque se está mais preocupado em vender e comprar, vender e comprar. 41 atletas em quatro anos na equipa B. Poucos deram resultados, alguns jogaram zero minutos e entraram na equipa B e até hoje não se percebe porquê. Isso só leva a pensar que foi um entreposto de jogadores e má gestão.

A iniciar sessão com Google...