União Europeia avisa FIFA sobre segurança no Mundial
O Comissário Europeu Glenn Micallef deixou um duro recado ao presidente da FIFA, Gianni Infantino, afirmando que este «precisa de fazer um melhor trabalho». Numa entrevista ao POLITICO, o comissário responsável pela pasta do Desporto criticou o organismo que rege o futebol mundial, manifestando sérias preocupações com a segurança dos adeptos que se deslocarão ao Mundial 2026, que vai decorrrer nos EUA, México e Canadá.
A principal inquietação de Micallef prende-se com a escalada de tensões no Médio Oriente, envolvendo os Estados Unidos, um dos países anfitriões do torneio. O comissário revelou ter-se encontrado com Infantino em Bruxelas no mês passado, à margem de uma cimeira de futebol europeu, onde lhe pediu garantias para a segurança dos adeptos europeus. No entanto, segundo Micallef, não houve qualquer seguimento por parte da FIFA.
«Esta foi a minha primeira e única troca de impressões formal com o presidente Infantino», afirmou Micallef. «Pedi-lhe que garantisse a segurança daqueles que viajarão para o Mundial. Não houve qualquer tipo de resposta.»
Com o agravar do conflito, a UE voltou a insistir no pedido. «Após a escalada de tensões que vimos nos últimos dias, pedimos novamente garantias renovadas para todos os que viajarão para o Mundial», acrescentou. «Especialmente porque um dos anfitriões deste grande evento desportivo mundial é parte numa guerra, é legítimo que sejam dadas garantias do ponto de vista da segurança e da ordem pública.»
Recorde-se que o Mundial de 2026, pela primeira vez com 48 equipas, conta com a participação de 16 seleções europeias. O torneio tem início a 11 de junho na Cidade do México.
Além do conflito no Médio Oriente, existem outras preocupações de segurança. A presença de agentes do Immigration and Customs Enforcement (ICE) - agentes do controlo de fronteiras- no dispositivo de segurança do Mundial gera apreensão, especialmente após um incidente em Minneapolis onde agentes mataram a tiro dois cidadãos americanos. No México, a violência no estado de Jalisco, cuja capital Guadalajara acolherá quatro jogos, também é motivo de alarme.
Confrontado com estas questões, um porta-voz da FIFA assegurou que a segurança é a «máxima prioridade» do organismo e que este «confia que os esforços dos governos do Canadá, México e Estados Unidos garantirão um ambiente seguro e acolhedor para todos os envolvidos».
Questionado se sentia que a FIFA estava a falhar, Micallef foi diplomático mas incisivo: «Digamos que há espaço para mais clareza.»
Críticas à parceria com o «Board of Peace»
Outro ponto de discórdia é a parceria da FIFA com o «Board of Peace for Gaza», uma iniciativa apoiada por Donald Trump. A FIFA, com Infantino presente numa cimeira, prometeu 65 milhões de euros para infraestruturas de futebol em Gaza, o que gerou receios na Europa de que a Casa Branca esteja a tentar marginalizar as Nações Unidas.
«A FIFA tem muito que explicar sobre isto», declarou Micallef. «Falando como comissário europeu responsável pelo Desporto, preferiria estabelecer parcerias com organizações multilaterais, que respeitam a ordem internacional baseada em regras, como a UNESCO e a UNICEF, no que toca à implementação de projetos relacionados com o desporto.»
Numa avaliação geral ao desempenho de Infantino, bem como dos presidentes do Comité Olímpico Internacional, Kirsty Coventry, e do Comité Paralímpico Internacional, Andrew Parsons, Micallef foi direto: «Penso certamente que há espaço para melhorias.»
A questão da propaganda russa
Outro tema que preocupa Micallef é a crescente normalização da Rússia no desporto mundial. Após anos de bloqueio devido à invasão em grande escala da Ucrânia, atletas russos competiram recentemente com a sua bandeira e hino nos Jogos Paralímpicos em Milão, no norte de Itália. Recorde-se que a chefe do Comité Olímpico, Coventry, afirmou em Bruxelas que «esta é a essência do Olimpismo: todos os atletas, equipas e oficiais elegíveis devem poder participar sem discriminação ou interferência política».
Micallef, embora realçando a autonomia dos órgãos desportivos, insiste que o Kremlin não deve poder usar o desporto para fins de propaganda enquanto a guerra na Ucrânia continuar. «Para mim, do ponto de vista das políticas públicas e da segurança pública, a participação de países que são parte numa guerra, independentemente de quem sejam, levanta preocupações legítimas de segurança», afirmou.
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