1 Querendo ser optimista, vejo duas vantagens na derrota do FC Porto com o Vitória de Guimarães: uma, é que aconteceu no início da época, dando tempo para que a equipa corrija o que já se tinha percebido estar mal; outra, é que aconteceu cinco dias antes de fechar o mercado de transferências, dando ainda tempo à SAD portista de corrigir as gritantes lacunas do plantel. Comecemos por aqui.

Depois de várias épocas a arruinar a SAD comprando ao desbarato camiões de jogadores (uma prática que fui criticando, ano após ano), o FC Porto caiu sob a alçada disciplinar-financeira da UEFA e foi obrigado, na época passada, a um ano de total ausência de compras. Foi um alívio e uma revelação: recorrendo aos excedentários e desaproveitados, Sérgio Conceição conseguiu suprir, com motivação e inteligência, o déficite de qualidade em quantidade para os rivais e ser campeão com toda a justiça. Porém, esse êxito fez a SAD acreditar que era possível passar do 80 ao 8 e repetir o milagre mais este ano, mesmo com  a agravante de ter visto sair jogadores fundamentais como Marçano, Ricardo e Dalot e com Danilo de prolongada baixa. Sérgio Conceição avisou que não, mas Pinto da Costa respondeu-lhe de alto, recostou-se para trás na cadeira e ficou à espera de assistir às inevitáveis vitórias.

Ora, se há coisa que todos sabem é que Pinto da Costa percebe mais de futebol a dormir que todos os outros presidentes de clube acordados. Olhando para a equipa que pôs à disposição de Sérgio Conceição para esta temporada, ele não pode ignorar que esta é bem mais fraca que a anterior. Compraram-se dois ou três centrais para a fatal vaga deixada por Marcano, mas o titular é o jovem Diogo Leite, vindo da equipa B: isso quer dizer que nenhum dos comprados pegou de raiz. E Diogo Leite é uma promessa, mas, por enquanto, apenas isso, O terceiro golo do Guimarães resulta de um erro seu que Marcano jamais cometeria. Pior é a questão do lateral-direito. A renovação com Maxi Pereira e o convencimento de que tal resolvia o assunto foi, como já o escrevi, um erro grave. Maxi tem tanto de generoso como de perigoso: o segundo golo do Belenenses, na jornada anterior, ficou a dever-se  à sua baixa estatura; o primeiro e segundos do Guimarães, nesta jornada, ficaram a dever-se à sua falta de pernas: no primeiro, foi à frente e já não recuperou, no segundo, foi humilhantemente batido em velocidade no cruzamento para o golo. Toda a estratégia atacante do Vitória na segunda parte passou por explorar o seu flanco, transformado numa autêntica Avenida da Liberdade. Também comprámos dois jogadores para o lugar, mas um vegeta na equipa B e o outro já está para entrega a quem quiser.

Aos problemas graves da defesa, acrescem os do meio campo. Sem Danilo a dar consistência defensiva e equilíbrio na saída para a frente, o meio campo do FC Porto não vale nada. E Danilo não tem suplente. Em termos de médios ofensivos, criativos (ou armadores, se assim lhes quiserem chamar), apenas vejo Otávio e a espaços. Sobre Herrera - a quem ficámos a dever o golo que nos deu o campeonato, na Luz - mantenho, teimosamente, a minha opinião de sempre: também é um jogador generoso, um todo-o-terreno, mas que verdadeiramente faz um bom jogo a cada quatro. Sérgio Oliveira não vai a lado nenhum e Óliver foi o melhor negócio da vida do Atlético de Madrid e um dos piores do FC Porto. Faltam-nos três médios de valor indiscutível. Sobre este pobre panorama, vem juntar-se a estranha situação clínica: a recuperação de Danilo é interminável, diz-se sempre iminente mas nunca acontece; o central africano comprado em França lesionou-se após dois treinos; Soares, após 6 minutos de competição; e agora Brahimi e Corona, ambos de seguida e com problemas musculares, à terceira jornada. Que se passa?

Com este plantel, sem que venha alguém até sábado, mas alguém que venha para ser imediatamente titular, não vale a pena alimentar muitas ilusões: vamos ser esmagados na Champions e chegaremos a Janeiro afastados da luta pelo título. Não há milagres duas vezes seguidas, sobretudo quando da segunda vez é preciso milagre e meio.

2 Por contraste, os nossos rivais directos não param de comprar jogadores. Se a memória não me falha, onze o Sporting, catorze o Benfica. Não sei - em especial, no que se refere ao Benfica - onde estará a mina de ouro que lhes permite tais desmandos, uma vez que consta que a banca fechou as portas aos clubes e que ambos, tal como o FC Porto, vivem do círculo vicioso de recorrer a empréstimos obrigacionistas para pagarem empréstimos obrigacionistas, com juros de agiotas.

O caso do Benfica é , aliás, notável. Esta semana foi notícia em todos os jornais a transferência de Cristina Ferreira da TVI para a SIC. E não houve notícia que não destacasse o vencimento de um milhão de euros brutos por ano (meio milhão, após impostos) que ela irá receber, com a respectiva chuva de comentários indignados nas redes sociais. Porém, pela mesma altura, e sem destaque noticioso e indignação popular alguma, o Benfica fechou contratos com três jogadores, com o vencimento anual de três milhões líquidos por ano (ou seja, seis vezes mais): Jonas, que sofre de dores crónicas nas costas, Ramires, cuja forma actual é desconhecida, e Rúben Dias, a última invenção de Jorge Mendes e, por acaso, responsável pelo penalty desnecessário que deu o empate ao Sporting na Luz. Goste-se ou não do que ela faz, Cristiana Ferreira trabalha cinco horas por dia em directo, fora as horas de preparação, e tem muito mais audiência do que os jogadores do Benfica. Estes, trabalham uma a duas horas por dia e mais uma hora e meia ao fim-de-semana, se jogarem, e o seu único talento é saberem dar chutos numa bola. O povo acha escandaloso o que ela ganha, mas não acha escandaloso que eles ganhem seis vezes mais do que ela. O povo lá sabe.

3 Jogou muito mal o FC Porto contra o Guimarães, como já havia jogado contra o Belenenses e como Sérgio Conceição assinalou, sem estar com desculpas nem meias-desculpas. Que até as houve. De facto, independentemente dos méritos do Vitória e de Luís Castro - essencialmente, acreditar numa reviravolta que não acontecia no Porto há 74 anos e explorar aquele desastrado flanco direito portista - o Vitória teve uma sorte dos deuses. Fez três, rigorosamente três remates à baliza e todos indefensáveis  (Casillas não fez uma única defesa!). E só nos últimos cinco minutos, o seu guarda-redes defendeu três golos feitos, em remates à queima-roupa. Viu dois avançados determinantes do FC Porto, Brahimi e Corona, lesionaram-se quase de seguida e, embora se possa queixar de um penalty por assinalar a seu favor e de um off-side no segundo golo do Porto - que, ao contrário do que vi escrito, me pareceu tudo menos claro (Jardel marcou assim metade dos seus golos em Portugal) - também iniciou a recuperação fruto de um penalty de compensação, que não existiu. Teria sido bem melhor para o Porto que tivesse sido marcado o primeiro penalty e anulado o segundo golo, o que obrigaria a equipe a jogar de forma completamente diferente da displicência exibida na segunda parte.

4 Como seria de esperar, o Benfica dominou o Sporting em largo período do jogo, sobretudo na meia hora final, e só não ganhou porque o guarda-redes francês do Sporting, Salin, fez uma exibição do outro mundo. Há muito que me perguntava porque razão nenhum dos grandes ia buscar este keeper, pelo menos para seu nº 2. O Sporting foi buscá-lo este ano para nº 3, tendo gasto dinheiro a comprar dois estrangeiros para serem nº 1 e nº 2. Mas foi graças a Salin que ganhou três pontos em Moreira de Cónegos e um ponto na Luz. E só não ganhou três porque o seu elo mais fraco , aliás fraquíssimo (Jefferson, o Máxi Pereira de Alvalade), abriu o corredor por onde o Benfica chegou à igualdade. 

Curiosa, mas mais do que previsível, a forma como os treinadores usaram a diferença do número de jogos entre ambas as equipas em benefício próprio. Rui Vitória lamentando-se do excesso de jogos que não lhe permitiu preparar devidamente o dérbi nem dar o descanso necessário aos seus jogadores; José Peseiro, explicando que o Benfica, com mais jogos disputados, está mais rotinado e preparado que o Sporting. Tão previsíveis que eles são !