Um novo Atlético que (re)nasceu da forma mais pura possível
Na realidade, quando tudo começou, eram dois grupos de amigos e não um. Sem qualquer relação e de gerações diferentes. Entre barbearias e cafés de Cabeceiras de Basto, ambos descobriram que tinham um desejo em comum: reerguer o Atlético Cabeceirense. Juntaram-se, conversaram, reuniram consensos, construíram um projeto e agora cumprem o desígnio.
A A BOLA ouviu os jovens que voltaram a levar alegria às tardes de domingo da vila minhota, com pouco mais de 16 mil habitantes. «Isto surgiu de uma forma muito orgânica», começa por dizer o presidente do clube, Nélson Martins.
Importa, todavia, antes de mais, situar o Atlético Cabeceirense: fundado a 1 de junho de 1946. Chegou a militar na III divisão e a jogar contra o FC Porto, em contexto de Taça de Portugal. No entanto, em 2013, o clube cessou a atividade, deixando um vazio profundo na região e naqueles que o acompanhavam.
«Por volta dos anos de 2010, começou a haver dificuldades financeiras e associativas, e alguma desconexão entre a comunidade cabeceirense e o clube, levando-o a um interregno de onze anos, entre 2013 e 2023/2024. Foi o período mais complicado da história do clube», recorda o diretor de comunicação, Paulo Martins Fernandes e um dos cabecilhas do novo projeto que reuniu «cerca de 20 jovens, metade homens e metade mulheres, para fazer um trabalho com muito sacrifício e voluntarismo.»
«Na teoria alguém tem de ser o presidente, mas os papéis entre nós diluem-se. Estamos todos numa causa, a trabalhar para o mesmo objetivo, que é ajudar Cabeceiras de Basto e o clube. E tem sido muito bonito», concorda o primeiro dirigente.
«Eu e o Nélson éramos praticamente desconhecidos um do outro», afirma Paulo, de 30 anos, explicando que, depois de algumas conversas informais, a primeira reunião mais séria aconteceu em 2023. «Através de amigos em comum, fomos conversando e, a partir dessa reunião, que correu muito bem, decidimos que queríamos voltar a pôr o Atlético ativo e a conseguir dignificar esta terra», acrescenta Nélson. Foi então que o tal grupo jovens assumiu as rédeas do clube.
Era tempo de pôr mãos à obra. Literalmente. Depois de se perceber que o mítico Estádio António José Queirós Gomes Pereira, a casa do Atlético Cabeceirense, não estava operacional (havia sido deixado ao abandono), a nova estrutura foi em busca de soluções. «Encontrámos o campo da Associação Cultural e Recreativa e Desportiva de São Nicolau [atualmente, sem atividade]», mas que também precisava de obras, explica Paulo. «Durante um verão, as nossas noites, tardes e fins-de-semana, era a pintar paredes, lixar bancadas, mudar portas, janelas, porque o campo estava degradado», complementa.
A seguir, veio outra tarefa: formar um plantel. «Puxámos pelo sentimento dos jogadores da casa que estavam em clubes fora. Apelámos a esse sentimento para regressarem a ajudarem a levantar o clube da terra», explica o presidente. Não foi tão difícil como subir ao escadote, mas… tem exigido sacrifícios. «100% do plantel é de cá, mas muitos moram e trabalham fora, no Porto ou até em Lisboa, e fazem o esforço de vir. Às vezes, tiram férias ou dias de folga para virem jogar ou treinar. Há esse sacrifício por parte de toda a gente, inclusive dos adeptos. Muitos moram longe e vêm para ver os jogos e depois voltam para as suas casas», sublinha o responsável pela comunicação.
«Nunca mais te deixamos cair»
A presença de tantos adeptos tem, de facto, impressionado. No pelado do São Nicolau, já chegaram a estar, esta época, cerca de 1200 adeptos para ver um jogo - números de assistência que muitos jogos da I Liga não conseguem atingir. Foi o caso do encontro do último fim-de-semana, que opôs os dois líderes da contenda (série F da III divisão da AF Braga), Cabeceirense e Antime, ambos com 47 pontos. O jogo terminou empatado (2-2), mas, como o Atlético venceu o jogo da primeira volta, passou para primeiro lugar, para gáudio da sua vasta massa adepta.
«Num domingo à tarde, em Cabeceiras de Basto, quem passar na sede do município, tem dificuldade em encontrar um grupo de quatro pessoas para jogar às cartas, porque estão todos a ver o jogo», afirma, com proa, Paulo Fernandes.
A época passada foi de teste. Mesmo assim, as coisas correram bem e a equipa alcançou um honroso 6.º lugar na mesma divisão. «Foi a primeira época em que voltámos a competir e ficámos em sexto lugar. Foi bom para um primeiro ano, de uma direção jovem, e foi também uma forma de mostrarmos ao concelho que estávamos aqui», enaltece Nélson, de 35 anos.
«Este ano o núcleo manteve-se» e o Cabeceirense está a sonhar alto, mas… longe de qualquer pressão. «Numa fase mais embrionária, não quisemos colocar um peso nem traçar um objetivo claro de subida ou sermos campeões. Era irmos ganhando jogo a jogo e a partir daí conseguir a melhor pontuação possível. No entanto, os meses foram passando e as coisas estão a correr bem. Aconteça o que acontecer daqui para a frente, o plantel já está de parabéns», garante o presidente.
Quanto ao estádio original, atualmente em obras, o duo da direção adiantou, «em primeira mão», que, para a próxima época, já deverá estar operacional para receber a equipa. Outra novidade é a criação de escalões de formação e equipa feminina, a breve trecho. «O projeto de formação é uma ambição que temos já para a próxima época, já com outras condições, com o complexo desportivo que teremos em breve», anuncia Paulo. Sobre o futebol feminino, o mesmo dirigente diz que «é um projeto no qual se tem trabalhado de forma muito afincada», para colmatar essa lacuna a nível concelhio.
Um clube com responsabilidade social
«Nós temos também muita preocupação desde o início com a parte social, inclusive criámos o Atlético Solidário, com várias iniciativas. Por exemplo, durante a depressão Kristi, fizemos recolha de bens alimentares e de primeira necessidade para enviar para Leiria», diz Paulo, antes de Nélson voltar a salientar a parte da prática desportiva, para todos e todas, além futebol.
«Queremos alargar o leque para as modalidades e tentar dar mais opções aos nossos jovens cabeceirenses para terem mais opções de escolha e poderem praticar outros tipos de desporto», refere o presidente. «Realmente, existe uma lacuna de oportunidades para as crianças e jovens do concelho de praticarem futebol», atesta Paulo.
Reconectar uma vila ao desporto
Paulo afirma que «os anos de interregno levaram a um afastamento que existiu do clube da própria comunidade. Os jogos não tinham muitos adeptos, nem sei se havia sócios ativos. Houve um grande afastamento. Isso também fez com que a nossa preocupação neste momento e neste projeto fosse exatamente essa aproximação com as pessoas, que as pessoas se sintam representadas, se sintam identificadas com o projeto. Voltar a ligar toda a gente outra vez ao clube. Há 1186 sócios atualmente».
Este tipo de projeto só faz sentido quando há adeptos e há proximidade com as pessoas e a comunidade
Contudo, não nada foi fácil descobrir os sócios que já havia, porque «a informação era muito limitada», explica o responsável pela comunicação. «Tivemos de fazer o trabalho do zero. Contactámos praticamente todas as pessoas que alguma vez se relacionaram com o Atlético, procuraram documentação, cartões de sócio ou afins, e passámos o boca a boca, para quem quisesse manter a sua quota de sócio ou a ligação associativa.»
Descobriram que o sócio número 1 era (faleceu no ano passado) uma pessoa muito querida na terra. Maria Queirós, esposa de José Queirós Gomes Pereira, «aqui conhecido como Toninho do Abílio», figura emblemática de Cabeceiras de Basto, que dá nome ao estádio. É avó do defesa esquerdo do clube, António Teixeira.