Adepto em celebração na bancada (Imago)
Adepto em celebração na bancada (Imago)

Um clube não é um onze inicial

É uma organização complexa, com decisões que produzem efeitos a médio e longo prazo — precisamente o horizonte que o adepto se recusa a ver

A canção faz perguntas como «de que adianta saber as marés, os frutos e as sementeiras»? E estas, acrescento eu, que adianta saber o onze do Benfica, ou se o Manchester United jogou em 3x4x3? Que adianta saber tudo isso e do resto «entender mal»?

Há um título de Carlos Tê que atravessa a nossa vida, desportiva ou não, como algo que ninguém questiona: «A Gente Não Lê». Não lê estatutos, não lê relatórios, não lê programas eleitorais, não lê sinais, não lê o que dizem acionistas. No futebol, vê-se a bola entrar ou não. E decide-se tudo a partir daí.

O adepto, no geral, já devia ser ‘moderno’, perceber mais de «governance» – o termo em inglês é mesmo propositado - mas ainda reduz o clube à equipa de futebol. Pior: reduz tudo ao resultado do último jogo. E ao árbitro. Falar de estratégia é aborrecido, a liderança é um tema para «outros». Importa ganhar no fim de semana. Se ganhou, está tudo bem. Se perdeu, está tudo mal. E assim se constrói uma ignorância confortável, consoante o pontapé na bola chega ao fundo das redes ou, um outro, atinge-nos as canelas: abençoado «biqueiro» que já deu argumento sonoro para o insucesso.

Vamos lá ser sérios: os clubes não falham apenas porque um avançado falha um golo ou porque o árbitro assistente erra um fora de jogo. Falham ou têm sucesso muito antes disso. Pela escolha de líderes, na definição de modelos de gestão. Muitos falham na sustentabilidade financeira, na relação entre futebol profissional e formação, na coerência entre discurso e prática. Falham, sempre, quando vivem acima das possibilidades. Falham quando confundem popularidade com competência. E nada disto entra na discussão de café, nem no voto em assembleia geral.

O adepto, no geral, fala, isto é, opina, sempre como treinador de bancada. Porque é ali que se sente confortável: no terreno, onde acha que sabe tudo. E sabe, de facto, alguma coisa. Sabe como deve jogar a equipa, muito para além do onze titular ou de quem deve entrar e sair no mercado. O adepto, no seu conceito coletivo, é quem dita o estilo, é quem afirma que o Barcelona tem de ser tiki-taka, o Milan pode ser um elegante catenaccio ou que o ManUtd tem mesmo de jogar em 4x4x2 ou 4x3x3, mas nunca em 3xqualquer coisa.

Mas esse conhecimento parcial transforma-se num erro grave quando é usado para decidir matérias estruturais. Um clube não é um onze inicial. É uma organização complexa, com decisões que produzem efeitos a médio e longo prazo — precisamente o horizonte que o adepto se recusa a ver.

Tantas e tantas vezes critica-se a falta de projeto, mas vota-se sem os ler. Reclama-se transparência, ignorando o que já está disponível. No fundo, prefere-se a indignação ao conhecimento. Dá menos trabalho e ainda se expele uns diabos interiores. Enquanto assim for, continuar-se-á a tratar sintomas e a ignorar a doença. A mudar treinadores, a queimar jogadores, a eleger salvadores da pátria. E depois, surpreendidos, os adeptos perguntam outra vez: «Como é que isto voltou a correr mal?» Talvez porque, mais uma vez, «a gente não leu».

Há casos piores ainda, quando dirigentes agem como adeptos e dirigem como se ainda estivéssemos nos anos 90.

Esta semana ter-se-á questionado, numa outra latitude, um treinador por jogar em 3x4x3…quando ele sempre disse que ia jogar em 3x4x3. Há mesmo gente que não lê...