Causa demasiado séria para tanta leviandade…

A luta contra o racismo é a mais nobre de todas as causas. Mas só será eficaz se estiver ancorada em quadros legais - ninguém é obrigado a provar a sua inocência -, sem se fundamentar em turbas ululantes que apenas querem fazer justiça (?) na praça pública.

Caso pretenda sancionar Prestianni, incumbirá à UEFA provar, para lá de qualquer dúvida, que este terá dirigido a Vinícius palavras de índole racista. Até ao presente, a controvérsia nos foros públicos tem girado em torno de conjeturas, animosidades e especulações. O episódio ocorrido entre Prestianni e Vinícius, no embate entre Benfica e Real Madrid, rapidamente se transformou em tema de ampla repercussão. Tratava-se de uma partida revestida de grande notoriedade, e um dos protagonistas — justamente aquele que se queixou — figura entre os mais notáveis futebolistas do mundo. O incidente, que trouxe à tona a delicada questão do racismo, incendiou debates em todos os quadrantes, servindo de palco a uma multiplicidade de atores: desde os zelosos guardiões do politicamente correto aos mais grosseiros, dos oportunistas aos patrioteiros, passando por aqueles que alimentam rancores antigos e aproveitaram para acertar contas, ou que, investidos de autoridade oficial, deveriam, por decoro e dever institucional, manter-se silenciosos até que o advérbio “alegadamente” fosse retirado definitivamente da equação.

 A maioria dos comentadores, ávidos dos seus fugazes quinze minutos de fama, olvidou um princípio fundamental do Direito: ninguém tem o dever de provar a sua inocência; incumbe à acusação demonstrar a culpa do acusado. Neste episódio, contudo, tudo foi permitido, como se estivéssemos entre Kafka e Mel Brooks. Repare-se, por exemplo, no escândalo hipócrita criado em torno do facto de Prestianni tapar a boca ao falar: desde que certos meios de comunicação começaram a expor conversas privadas, recorrendo a microfones sofisticados e peritos em leitura labial, tornou-se hábito — especialmente para quem suspeita estar sob a mira de câmaras indiscretas — encobrir os lábios, resguardando o que deveria permanecer íntimo. Este costume generalizou-se tanto no desporto, em todas as modalidades, como na política, independentemente da cor ideológica (vi uma imagem, que não posso reproduzir por questões de direitos, que retrata uma conversa entre Merkl e Macron, ambos de mão na boca...), e até no dirigismo desportivo, não poupando aqueles que agora se dizem ultrajados. Exemplos multiplicam-se sem esforço. O que se tem presenciado até ao momento, por conseguinte, mais se assemelha a um exercício inquisitorial do que a uma verdadeira busca pela justiça ou ao rigor analítico que o tema exigiria. Passemos, pois, a considerações de maior importância.  

O desporto, e o futebol em particular, tem vindo a desempenhar um papel de grande relevo no combate à discriminação, missão que deve prosseguir sem hesitações, pois em matérias de princípios não há margem para complacências. Quem for apanhado a infringir tais preceitos deverá ser exemplarmente sancionado, mas apenas após se apresentar prova cabal e concluído o devido processo legal — nunca antes, sob o impiedoso julgamento das turbas ululantes, que de justiça nada tem.

 No caso vertente, ninguém viu, de facto, o que saiu da boca de Prestianni para os ouvidos de Vinícius; e, ainda que haja quem afirme tê-lo escutado, restará sempre a análise minuciosa dos registos vídeo, capazes de aferir a plausibilidade física do ocorrido e, sendo o caso, que valor atribuir a um testemunho manifestamente parcial. Estas são matérias para apreciação das instâncias disciplinares e judiciais. O que não pode, por imperativos de decência, é permitir-se o proferimento de sentenças antecipadas. 

Será razoável supor que Prestianni, naquele contexto, ocultasse a boca com a camisola para insultar Vinícius? É altamente provável. No entanto, se todos os insultos podem parecer equivalentes, a verdade é que alguns se revestem, face à lei, de gravidade superior. A discriminação com base na raça ou na orientação sexual é punida com maior severidade, por exemplo, do que insultos dirigidos à mãe ou ao comportamento do cônjuge do visado. Considerando que a língua castelhana alberga, segundo o CoPilot, «centenas de insultos reconhecidos e um potencial infinito de criatividade insultuosa», como garantir o que Prestianni terá dito, exatamente, a Vinícius? 

Provem, e muito justamente, punam, porque o racismo não tem perdão; ou não prejudiquem uma causa tão nobre com elementos que só a enfraquecem.

   Relativamente a quem estava no estádio da Luz e teve gestos e verbalizações racistas, resta ao Benfica apenas um caminho: identificá-los e entregar às autoridades competentes o que apurou; e expulsar de sócio quem estiver nesse lote e tiver essa qualidade. Só dessa forma o clube honrará os seus pergaminhos e respeitará o espírito de 1949 quando, na Madeira, os responsáveis do hotel onde os encarnados estavam instalados queriam que os dois negros da equipa, Guilherme Espírito Santo e Alfredo Melão, pernoitassem no anexo dos criados e a resposta que recebeu foi, «acha que cabemos todos nesse anexo?» E a equipa ficou toda junta no corpo principal do hotel.

 A terminar, uma nota pessoal, destinada a todos aqueles que se estão a aproveitar do que sucedeu na Luz para diabolizar o futebol:  

Fui profissional de futebol durante 15 anos e nunca vi um dirigente deixar de contratar um jogador por razões de raça, nem vi qualquer treinador escolher para o onze, ou deixar no banco, alguém em função da sua cor de pele. Se há setor da sociedade onde a meritocracia é realmente aplicada é no futebol. Quando a poeira do caso Prestianni-Vinícius assentar, prometo que voltarei a este tema.  

A BATALHA DO CAMPO GRANDE 

A batalha campal que precedeu o embate de futsal entre Sporting e Benfica, na noite da última quinta-feira junto ao pavilhão João Rocha, insere-se num movimento de âmbito europeu, no qual, sob a capa de um evento desportivo, ‘gangs’ que se mascaram de adeptos de clubes marcam encontros para que, em cenário previamente combinado, possam travar batalhas. 

Ficámos a saber, através do relato de autoridades policiais, que a maioria dos detidos são figuras já bem conhecidas das forças da ordem, muitos dos quais se encontram, inclusive, sob restrições de acesso a recintos desportivos. 

De modo algum se poderá enquadrar este sucedido como expressão de violência desportiva, salvo se tal modalidade (uma espécie de ‘wrestling’ com esteróides) constar do regulamento funcional de alguma Federação. Estamos, sim, perante um caso de polícia, sem artifícios nem eufemismos, que merece ser tratado pela magistratura com o rigor e a gravidade compatíveis com a sensação de insegurança que infunde na sociedade. Não se trata de uma mera altercação entre adeptos motivada por um penálti ou uma expulsão, mas antes de uma confrontação entre delinquentes, cuja predileção é a violência erigida em passatempo. 

Poderão os clubes fazer mais do que têm feito até ao presente? 

Desde há muitos anos que respondo afirmativamente a tal questão. Impõe-se separar o trigo do joio, distinguir quem pretende celebrar com exuberância a festa desportiva daqueles que apenas buscam a dissensão. Reconheço que alguma evolução positiva tem sido empreendida nos tempos recentes, mas não posso deixar de notar que tais iniciativas se revelam manifestamente insuficientes. Basta recordar a coragem demonstrada em Barcelona e Madrid ao extinguir os Boixos Nois e os Ultra Sur, para concluir pela escassez de medidas eficazes entre nós. E, inevitavelmente, surge a questão do exemplo, que não deve jamais ser descurada: 

Se aquilo que os adeptos — e refiro-me aqui aos adeptos comuns, à esmagadora maioria, que nada partilha com os energúmenos que fomentam tumultos e comprometem a reputação e as finanças dos clubes — percebem proveniente dos seus dirigentes, é um ambiente de permanente confronto e hostilidade, como será possível devolver aos estádios o clima saudável que se testemunha, por exemplo, nos jogos da Seleção Nacional? É certo que os dirigentes são sancionados e multados, mas, francamente, tais punições têm lhes sido indiferentes. Se não forem guiados por convicções sólidas, praticando uma rivalidade que não transforme adversários em inimigos, não haverá fundamento para alimentar qualquer otimismo. 

JAMES MILNER 

O médio do Brighton, que decidiu jogar nesta época, muito provavelmente a última da sua carreira, com o número 20, para homenagear o antigo companheiro de Liverpool, Diogo Jota, tornou-se, em casa do Brentford, onde alinham dois dos maiores amigos de Jota, Henderson e Kelleher, no jogador com mais jogos disputados na Premier League, 654. Conheci Milner fora do contexto do jornalismo, e fiquei com uma excelente impressão do homem e do profissional. Parabéns, pois, a um mito do futebol inglês, MBO por decisão de Isabel II, «a lad from Leeds.»