O futebol infantil em Portugal necessita de ser apoiado, defende Carmen García
O futebol infantil em Portugal necessita de ser apoiado, defende Carmen García

O futebol infantil não pode estar dependente dos pais

Verde à Vista é o espaço de opinião de Carmen Garcia, enfermeira, sportinguista, autora do blogue 'Mãe Imperfeita'

No sábado passado, como em quase todos os sábados do último ano e meio, levantámo-nos com as galinhas. O Pedro tinha jogo de futebol e, num distrito tão grande como o de Évora, isso implica que, de quinze em quinze dias, existam quase sempre umas largas dezenas de quilómetros entre a nossa casa e o local onde os jogos se realizam. Há trinta anos, quando eu tinha a idade que ele tem hoje, não passava pela cabeça de ninguém que os pais acompanhassem os filhos em todos os jogos fora. Acontece que hoje não há sequer possibilidade de escolha. Ou os pais vão e levam os miúdos ou o campeonato não chega a arrancar por falta de comparência das equipas. Porque se há trinta anos os municípios cediam autocarros e os clubes ainda tinham duas ou três carrinhas de nove lugares para transportar miúdos, a verdade é que agora todas essas coisas são praticamente ficção.

Quem de nós, e aqui falo especificamente dos millenials desta vida, não recorda com nostalgia as viagens nas carrinhas dos clubes, com os companheiros de equipa e os treinadores, num tempo em que os telemóveis não existiam e o lanche era uma sandes de fiambre com manteiga e um Compal de pêssego? Hoje, infelizmente, a maioria dos nossos filhos nunca vai conhecer essa sensação.

Antes que perguntem, eu gosto de ir aos jogos do Pedro e sei que os miúdos, pelo menos na idade dele, ainda gostam de ter os pais por perto. Mas, e desculpem se isto melindra alguém, sinto que passámos de um extremo ao outro sem passar pelo meio onde reside a virtude. Porque se antigamente os nossos pais iam de menos, hoje estamos claramente demais. E isso nota-se no comportamento dos miúdos, na falta de maturidade geral e até na postura que assumem aquando das derrotas.

Reparem, a existência de transporte assegurado pelos clubes não teria de ser sinónimo de uma regressão de trinta anos e de ausência total dos pais, mas concedia-nos, pelo menos, a liberdade de fazer uma escolha. Escolha essa que hoje não temos. Porque neste momento, quando os nossos filhos vão para o futebol, o pagamento da mensalidade deixou de ser a nossa única obrigação. Agora também cumprimos funções de motorista praticamente todos os fins de semana. Mesmo que tenhamos outras actividades ou compromissos profissionais. Porque com os clubes, desgraçadamente, já não podemos contar: mesmo quando há boa vontade o dinheiro nunca chega.

Eu sei que, habitualmente, o espaço nestes jornais está reservado aos grandes clubes. Mas esses estão, como bem sabemos, muito longe de representar a maioria. Porque a maioria não anda a disputar os milhões da Europa ou a negociar direitos televisivos, mas a vender rifas no Natal e na Páscoa e a pedir apoios ao comércio local para poder sobreviver. E isto tudo enquanto usa um cinto tão apertado que mais parece um garrote.

E não deixa de ser profundamente irónico, quando temos uma epidemia de obesidade infantil e passamos a vida a falar da importância da actividade física nas crianças, que os apoios a clubes e colectividades sejam tão absolutamente patéticos. E sim, não resisto ao chavão e vou mesmo dizer que se gastam rios de dinheiro com coisas desnecessárias em Portugal, mas que depois somos incapazes de apoiar a sério a prática de exercício físico quando 32% das nossas crianças entre os cinco e os nove anos tem excesso de peso. E se é verdade que tivemos praticamente uma década (2008-2019) em que os valores da obesidade infantil caíram, a verdade é que essa tendência já se inverteu e estamos novamente em subida. Incoerentes? É o nosso nome do meio. Porque promovemos a importância da actividade física, falamos dos perigos do sedentarismo, dizemos aos miúdos que têm de se mexer. Mas esquecemo-nos que, cada vez mais, a prática desportiva implica que os pais tenham recursos económicos. E isto perverte totalmente o princípio da igualdade que sempre foi apanágio do desporto.

No clube onde o Pedro joga, um clube centenário da pequena cidade onde cresci e onde ainda vivo, os equipamentos de jogo ainda são fornecidos pelo clube. E se no outro dia uma amiga me dizia que achava isso muito pouco higiénico, eu confesso que o considero quase místico. Ver os miúdos todos, no final do jogo, a meter os equipamentos num saco enorme que segue depois para lavar? Que memórias boas que isto desbloqueia para quem nasceu na década de 80. Tal como não haver nomes estampados nas camisolas ou qualquer tipo de personalização. Mas, lá está, isto só foi possível porque alguns comerciantes locais, convencidos pelos dirigentes, trataram de oferecer os equipamentos.

E por falar em dirigentes… Todos temos noção que estes são, essencialmente, pais de miúdos que jogam nas equipas que eles, por falta de alternativa, acabam a dirigir, certo? É que não havendo dinheiro para pagar seja a quem for, o dirigente é o pai do ponta-de-lança, o massagista é o pai do defesa esquerdo que calha a ser bombeiro, e o tipo que faz a segurança ao jogo, quando se vai ver, é o pai do guarda-redes. Todos, obviamente, voluntários. Todos por amor à camisola, aos filhos e ao futebol. Todos a terem de assumir uma logística que não é assim tão pequena, a lidarem com as reclamações das mães wannabe dona Dolores, a gerirem a falta de condições e a tentar, com muita criatividade, arranjar dinheiro para pagar qualquer coisa aos treinadores no final do mês.

E isto é a realidade do futebol infantil praticado pela esmagadora maioria dos miúdos deste país. Miúdos que nunca pisaram uma academia, que tratam por tu balneários em contentores e que, ainda assim, jogam felizes. Mas que mereciam mais do que andar a vender rifas a um euro, cujo primeiro prémio é um borrego, para ver se o clube onde jogam se aguenta vivo mais uma época.

Quem, como eu, praticou um desporto quando era miúdo sabe bem o que ele nos deu. E sabe bem o que foi crescer a dividir o banco com os amigos, a perder sem ver a mãe e o pai na bancada e a ganhar sem promessas de recompensas. É impossível não nos lembrarmos que a viagem de regresso parecia passar sempre mais depressa do que a viagem de ida, do sabor das sandes que nos davam no final dos jogos, dos amigos que fizemos em equipas rivais e das mil e uma histórias dos mil e um jogos diferentes. E não, não estou a dizer que éramos melhores do que os nossos filhos. Mas não tenho nenhuma dúvida de que éramos mais livres.

E sabem, era esta que devia ser a nossa luta enquanto pais. Não equipamentos personalizados ou mochilas de marca, não campos de relva moderníssimos ou lanches com reforço proteico. O que devíamos pedir era estrutura, transporte, apoio real e condições mínimas que permitissem aos clubes cumprir o seu papel de formação de jovens.

Hoje, já o disse, o futebol infantil é tratado como um passatempo financiado pelos pais. E isso, quanto a mim, é falhar aos miúdos. Especialmente àqueles que não têm pais que os possam financiar. É preciso chamar à responsabilidade a política central, mas também a local. É preciso dizer que os miúdos estão aqui. E, acima de tudo, é preciso mostrar que apoiar o desporto infantil não é um capricho nem um saudosismo bacoco. É uma responsabilidade de uma sociedade inteira.

No Pódio
O meu pódio desta semana vai para o presidente do SC Braga que decidiu, e bem, não baixar os braços perante uma decisão totalmente incompreensível por parte da PSP. Não sendo já possível mudar o que aconteceu, António Salvador está a fazer o que todos os sócios e adeptos esperam de um presidente que se preze: defender a honra, os valores e a história do seu clube.
Na Bancada
A qualidade das medalhas dos Jogos Olímpicos de Inverno tem embaraçado seriamente a organização dos mesmos. Várias medalhas, inclusivamente de ouro, prata e bronze, partiram-se ou descolaram-se logo após terem sido entregues aos atletas vencedores. Esta situação já levou à abertura de uma investigação e deixa no ar várias dúvidas quanto aos mecanismos de controle de qualidade dos prémios olímpicos.