No olho do furacão
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Um caso sem boas soluções

A situação criada pelo abandono da Seleção Nacional de Cristiano Ronaldo tornou-se numa bola de neve que provocou danos, quiçá irreparáveis. Fala-se muito de circunstâncias «win-win» em que todos ganham, mas desta feita estamos perante um caso de «loose-loose», em que todos, sem exceção, acabam perdedores…

OS mais recentes desenvolvimentos do caso que envolveu Cristiano Ronaldo, Jorge Jesus e a Federação Portuguesa de Futebol (FPF), apontam para uma aparente vitória do capitão do Al-Nassr, a que corresponderá uma diminuição, nunca antes vista, da autoridade de um selecionador nacional, face à opinião pública e ao grupo de jogadores que lidera, com a bênção da FPF. E falo em aparente vitória de Cristiano Ronaldo, e não em vitória absoluta, porque há danos irreparáveis para a imagem do jogador, sem cosmética possível, indeléveis. As declarações, sobre o assunto, de Pedro Proença, no último sábado foram um tiro no pé, não pelo conteúdo, coerente com aquilo que o líder federativo já tinha dito na anterior intervenção (a da vénia a Ronaldo), mas por terem ocorrido na constância de um inquérito disciplinar ao jogador, a decorrer no Conselho de Disciplina (CD) da FPF. Em nome do respeito pela separação de poderes, qualquer que fosse a declaração de Proença, a favor ou contra, pouco importa, seria sempre fora de propósito. Como estamos perante uma situação eminentemente política, e na política, o que parece, é, a sensação que fica é de que houve uma pressão clara sobre os decisores do CD, no sentido de aligeirar a sanção a Cristiano Ronaldo. Aguardemos, pois, pela sentença, para a seguir fechar o capítulo disciplinar e abrir um outro, de natureza desportiva. E aqui surgem três ordens de questões:

1 - Se Cristiano Ronaldo estiver disponível para ser convocado para os jogos de novembro, e Jorge Jesus, chamado duas vezes de mentiroso pelo jogador, que, juntamente com o seu ‘staff’, lhe entregou um guião para ler na conferência de imprensa antes do jogo de Copenhaga, decidir incluí-lo na lista dos escolhidos para os confrontos com o País de Gales e a Dinamarca, colocar-se-á numa posição de subalternidade nunca nele vista desde que, em 1990, Mário Rui o convenceu a treinar o Amora.

2 - E quanto aos restantes jogadores, que deram o seu melhor para que Portugal vencesse duas vezes a Noruega e uma vez a Dinamarca, como irão olhar para esta situação? A memória é, muitas vezes, curta, mas estão bem presentes as declarações, extremamente elogiosas para Jorge Jesus, após o triunfo em Copenhaga, feitas pelos internacionais portugueses, já depois de Cristiano Ronaldo ter viajado para Riade, via Madrid. E Jesus foi elogiado porquê? Pela forma como colocou a equipa a jogar um futebol moderno e agressivo, onde ninguém teve de trabalhar para ninguém porque todos trabalharam para todos. Foi dito recentemente que, sob a égide de Jesus, o relacionamento de Ronaldo com os restantes jogadores era como o de Deus e os anjos. Tenho fundadas dúvidas, independentemente de ‘soundbytes’ politicamente corretos, alinhados com a narrativa oficial, que já se ouviram, de que seja assim. Oxalá esteja enganado, mas temo pela coesão do grupo e pela autoridade do selecionador.

3 - Vamos então ao terceiro pilar, a questão desportiva. Não é segredo para ninguém - disse-o, de forma a não deixar dúvidas, antes do Mundial de 2026 - que na minha opinião (haverá outras, que respeito, mas das quais discordo) Cristiano Ronaldo não tem lugar no melhor onze de Portugal, tese substancialmente fortalecida pelos três últimos jogos da turma das quinas. Também afirmei, e mantenho, que se Ronaldo aceitasse fazer parte do grupo, com um espírito de missão que passasse por ficar no banco ou na bancada e ainda assim contribuir para o conforto de uns e a integração de outros, estaríamos perante uma reta final edificante de um ícone do nosso futebol. Francamente, não me parece que assim seja, e, confesso, não gostaria de estar na camisa de onze varas onde Jorge Jesus se meteu. Se Cristiano Ronaldo jogar, é porque o selecionador capitulou; se Cristiano Ronaldo não for titular, nunca se sabe se o jato do capitão do Al-Nassr não é chamado, de emergência, a aterrar no aeroporto de Cardiff ou no aeroporto Humberto Delgado. Poder-se-á dizer que a situação criada e a forma como foi extremada impossibilitou qualquer boa solução. É verdade, sim senhor…   

ARBITRAGEM

VOLTA a estar, em cima da mesa, a criação de um Organismo Autónomo que dirija a arbritragem do futebol português a partir de 2029/30, apontando-se para fases intermédias que contemplam, já na presente temporada, a definição do modelo de governação, o financiamento e o funcionamento técnico; na próxima época a discussão e aprovação da adequação do projeto à Lei de Bases do Sistema Desportivo e ao Regime Jurídico das Federações Desportivas; para 2028/29 o início da implementação operacional; e para a temporada que terminará com o Mundial de que somos co-organizadores a entrada em pleno funcionamento do novo organismo. Todo este processo deverá decorrer sob a liderança de José Fontelas Gomes, antigo presidente da APAF e do Conselho de Arbitragem (CA) da FPF, e atual vice-presidente da Direção liderada por Pedro Proença.É aqui que se inicia a parte irónica deste processo. Fontelas Gomes, que teve uma presidência do CA arejada, procurando retirar da arbitragem o carimbo de sociedade secreta, opaca e corporativista, vai trabalhar num projeto que lançou, numa altura em que o atual CA rema em sentido diverso, adotando a lei da rolha, regredindo na transparência e adotando uma política de comunicação assente na realidade virtual, em que tudo está a correr pelo melhor, não há focos de insatisfação e os números são torturados até dizerem aquilo que pretendem que seja dito.

O Organismo Autónomo que se deseja em funções plenas a partir de 2029/30 aponta num sentido diametralmente oposto ao que está a ser seguido, adaptando a filosofia vigente em Inglaterra e na Alemanha, onde tudo se passa por cima da mesa e os árbitros são punidos - sendo dada disso notícia - sempre que interferem com a verdade desportiva. Não é possível observar o que se está a passar sem que um sorriso se forme no rosto, emergindo uma dúvida pertinente: irá Fontelas Gomes ter o respaldo suficiente para retirar a arbitragem da mão das corporações? Ou deverão ocorrer factos externos à FPF que criem essas condições? Enquanto várias investigações ocorrem em simultâneo, aguardemos pelas conclusões com a calma possível perante os retrocessos vigentes.

AF Porto

MAS também há boas notícias, daquelas que alimentam a esperança num futuro melhor. A Associação de Futebol do Porto, presidida por José Manuel Neves, inaugurou a segunda fase do Centro de Formação, em Ramalde, sendo o primeiro campo batizado com o nome de Diogo Jota. Até 2028 deverão estar em funcionamento quatro campos, uma área específica para o treino de guarda-redes, e um edifício multifunções, de apoio. Os objetivos são ambiciosos, assumindo-se tratar-se de um espaço comunitário que deve servir as seleções distritais, os árbitros e a formação dos clubes, podendo ainda vir a servir de apoio ao Mundial de 2030, que terá vários jogos no estádio do Dragão. Numa altura em que todos devemos olhar com desolação para o que está a acontecer ao campeão nacional de 2000/01, o Boavista, esta nova infraestrura é uma lufada de ar fresco, que coloca de parabéns a AF Porto e o seu presidente.

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