'Fugiu' do Benfica, passou por Chelsea e Liverpool e regressou para jogar... na distrital
Há carreiras de futebol que se escrevem numa linha reta. A de Toni Silva está longe de ser uma delas. Aos 33 anos, o internacional guineense já passou por uma longa lista de clubes e países, desde os anos no Benfica até às experiências em Inglaterra, Bulgária, Turquia, Grécia, África do Sul, Egito, Roménia, Cazaquistão, Kuwait e Malta.
Pelo caminho, vestiu camisolas de clubes como Chelsea e Liverpool, treinou ao lado de alguns dos maiores nomes do futebol mundial e viveu momentos que ainda hoje recorda com particular emoção. Agora, depois de uma carreira marcada por constantes mudanças, voltou a Portugal para representar o Sacavenense, na primeira divisão distrital de Lisboa. Mas antes de chegar a este capítulo, houve uma viagem que começou ainda muito jovem.
Toni Silva deu os primeiros passos no futebol no Real Massamá. Saiu para o Benfica, onde passou dois anos, entre os sub-15 e os sub-17, e foi nessa altura que surgiu o interesse de um tubarão. «O Chelsea enviou um olheiro para me observar em dois jogos, contra o FC Porto e Vitória de Guimarães, e ficaram interessados», recorda, em declarações a A BOLA.
O interesse rapidamente se tornou mais sério, mas o Chelsea não conseguiu chegar a acordo com o Benfica. Toni tinha contrato de formação e o clube encarnado, apesar da vontade do jogador em rumar ao emblema londrino, não queria facilitar a saída. Foi então que surgiu um plano para que o jovem viajasse para Inglaterra. «O meu empresário montou um plano, em que a minha mãe ia para Londres e eu ia com ela. Fugi do Benfica, porque tinha contrato de formação e não me queriam deixar», revela.
Toni acabou por ir para Inglaterra sem o conhecimento das águias. O Chelsea tentou mantê-lo longe dos radares encarnados e chegou a enviá-lo para treinar noutros clubes: «Uma semana mandavam-me treinar no West Ham, outra semana no Fulham, para me esconderem. Não queriam que o Benfica soubesse, porque isso podia dar problemas.»
O problema surgiu quando os blues quiseram inscrevê-lo na equipa de reservas: «Era necessário o certificado internacional e a negociação tornou-se inevitável. O Benfica pediu milhões e não chegaram a acordo.»
Sem acordo entre Chelsea e Benfica, Toni regressou a Lisboa e às águias. Ficou cerca de dois meses no clube encarnado... até surgir outra oportunidade em Inglaterra. O Liverpool, que já o tinha observado quando o jogador representava o clube de Stamford Bridge, avançou. Os clubes acabaram por fechar a transferência por 500 mil euros... num negócio que poderia ter rendido mais.
«O Benfica estava a pedir quase um milhão de euros. O Liverpool disse que pagava metade e que o resto seria pago se chegasse à equipa principal. Isso não aconteceu e acabaram por pagar só meio milhão», conta o jogador.
Assinou um contrato de três anos, passou pelos sub-18, sub-19 e reservas e chegou a treinar com a equipa principal: «Treinei três ou quatro meses com a equipa principal e jogava com os reservas. Ainda fiz jogos particulares pela equipa A, mas não me davam oportunidades. O Liverpool olhava mais para os jovens com passaporte inglês e senti-me injustiçado. Era um dos melhores jogadores da academia, sempre fui dos melhores marcadores, e vi que, na altura, estavam de olho sobretudo nos ingleses.»
«O Liverpool queria que assinasse por mais três anos. Mas não quis renovar, porque pensava que ia continuar na equipa B», lembra.
Nos reds, partilhou balneário com grandes promessas do emblema de Afield, como Raheem Sterling, Suso e Conor Coady. Sobre o inglês, Toni não tem dúvidas sobre o nível que apresentava naquela altura. «Era muito melhor que o Sterling. Ele até deu uma entrevista a dizer que, quando chegou ao Liverpool, os dirigentes lhe disseram que tinha muito que aprender comigo, sobretudo em termos de finalização.»
Gerrard, Suárez, Essien e os dias com os grandes
A passagem pelo Liverpool deixou-lhe também memórias de jogadores que marcaram uma geração. Uma das mais fortes envolve uma lenda do futebol mundial e um jogo dos reservas frente ao Blackburn. «O Steven Gerrard veio jogar connosco porque estava lesionado e precisava de minutos. Foi uma coisa que me chocou, porque ninguém estava à espera. Normalmente, tínhamos de estar no balneário duas horas antes do jogo e ele já estava lá três horas antes, à espera de toda a gente.»
Mais do que a presença em campo, ficou-lhe a imagem de um jogador que acompanhava de perto os jovens da academia. «Nós, miúdos da academia, tínhamos sempre o apoio dele.»
Mas Toni também recorda o outro lado do contacto com a equipa principal. E, nesse capítulo, coloca Luis Suárez entre os jogadores que, segundo a sua experiência, eram mais duros com os jovens. «Houve uma vez em que fui treinar com a equipa principal e começou a dar duras aos miúdos no balneário. Pegava-se com os miúdos, não nos queria lá.»
Em Londres, contudo, viveu uma realidade diferente. «O Chelsea era muito diferente. Não tinha nada a ver com o Liverpool, porque os jogadores da equipa principal apoiavam-nos e davam-nos um carinho especial. Gostei mais de estar lá», confessa.
Entre todos, há um nome que ficou particularmente marcado: Michael Essien. «Cinco estrelas. Sempre a apoiar-nos.»
E há ainda uma memória particularmente curiosa: «Fui apanha-bolas na célebre meia-final da Champions contra o Barcelona, em que houve aquele lance do Drogba e o golo do Iniesta. Foi um roubo. Até apareci na televisão. São coisas que marcam.»
«A minha trajetória não foi fácil»
Em Inglaterra, Toni passou ainda por Northampton, Barnsley e Dagenham. Foi no Barnsley que sofreu uma lesão grave no joelho, que o afastou dos relvados durante quase um ano. A saída do Liverpool, admite, deixou marcas. Não apenas desportivas.
«Era muita coisa na minha cabeça. Não tinha os meus pais ao pé de mim. Sempre cresci com a minha mãe e ela depois faleceu. Nunca tive relação com o meu pai e fiquei lá sozinho. Não tinha ninguém ao pé de mim para me apoiar. A minha trajetória não foi fácil, mas fiz a minha carreira sozinho, sem a ajuda de ninguém», recorda.
«Quando saí do Liverpool, tinha vários empresários que queriam meter-se na minha vida e usar-me para interesses pessoais. Quando estive parado, o dinheiro saía e não entrava. Tinha a conta praticamente limpa. Mas acabei por dar a volta. Aprendi com isso e agora estou onde estou», diz.
O país onde foi... «rei»
Se há um capítulo que Toni guarda de forma particularmente especial, é o período no CSKA Sofia, onde esteve duas épocas e somou nove golos, em 45 jogos. Foi na Bulgária que, segundo o próprio, jogou o melhor futebol da carreira: «Era o rei lá. Foi onde joguei melhor. Ainda hoje recebo mensagens de fãs a pedirem-me para voltar a casa ou para ir visitá-los. Foi um país que me marcou muito.»
«Vivi como se fosse o rei, como se fosse o meu país. Fazia tudo de graça, comia nos restaurantes sem pagar e tinha sempre pessoas à minha volta. Mimavam-me muito», acrescenta.
O regresso a Portugal e a experiência na Liga
Depois de uma experiência na Turquia, Toni voltou a Portugal em 2016 para representar o União da Madeira. Foram apenas alguns meses, mas suficientes para deixar marca: 14 jogos e três golos na Liga. «Era um dos jogadores que rendia mais no União. Quando cheguei, era uma equipa que estava lá em baixo e começámos a ganhar. Marquei quando vencemos o Boavista por 1-0 e fiz dois golos no dérbi contra o Nacional. Demos um salto na classificação.»
A relação com o treinador Norton de Matos, porém, acabaria por azedar. «A posição em que rendia mais era a extremo direito, mas ele começou a pôr-me a 10. Não tive tanto rendimento e fui falar com o presidente. O Norton ficou chateado, disse que não tinha que falar com o presidente, que ele é que mandava e escolhia onde os jogadores tinham que estar.»
«Entrámos em choque e deixou-me de fora do onze. Disse-lhe assim: 'Deixa-me de fora do onze, mas o União vai cair.' E desceram de divisão. Fiquei com pena do presidente e do diretor, que eram pessoas muito boas e certas, mas tinham um treinador que não sabia nada», continua.
No final da época, surgiu uma proposta do Marítimo, mas o salário não convenceu. Toni acabou por seguir para a Grécia, onde encontrou melhores condições financeiras e continuou na primeira divisão.
Uma carreira sem fronteiras
Finalizada a passagem pela Madeira, a viagem continuou. Levadiakos, Mamelodi Sundowns, Al Ittihad Alexandria, Astra Giurgiu, vários clubes do Cazaquistão, Kazma, no Kuwait, e Zabbar St. Patrick, em Malta. Em cada país, uma história.
No Egito, a experiência foi particularmente difícil. «Foi traumático. Nunca tinha visto uma equipa profissional funcionar daquela forma. Foi um país onde não consegui estar bem. Foi um ano que me chocou.»
No Cazaquistão, ficaram as viagens intermináveis e episódios que ainda hoje recorda com incredulidade. «Fazíamos viagens de autocarro de 12 e 14 horas, muitas vezes depois de jogar em campos sintéticos. Havia jogadores que apareciam nos treinos bêbados e pagavam multas de quatro e cinco mil euros por mês.»
Na Bulgária, por outro lado, nem tudo eram facilidades: «Os fãs do Levski Sofia, rival do CSKA, riscavam-me o carro todo.»
Sacavenense: voltar a casa
Depois de tantos anos e tantos países, Toni decidiu que era tempo de regressar a Portugal. Em março deste ano, chegou ao Sacavenense, onde joga e desempenha também funções de coordenador. A decisão teve uma razão essencial: a família.
«Já andei por todo o lado e aqui tenho os meus filhos por perto. É o momento de estar perto de casa e construir a minha vida aqui ao lado deles, estar presente no crescimento deles. O Sacavenense mostrou-me um projeto muito bom e estou a trabalhar com eles como coordenador, ao mesmo tempo que jogo. É um projeto de topo», considera.
Aos 33 anos, Toni ainda acredita que tem futebol nas pernas. E, curiosamente, considera que jogar atualmente na distrital lhe trouxe uma perspetiva diferente sobre o jogo. «A liga mais difícil em que já joguei na minha vida inteira é a liga distrital. É muito difícil. É muito mais fácil jogar na primeira divisão. Apanhas jogadores que não aprenderam as bases e campos horríveis, cheios de buracos, sintéticos a saltar. Isso dificulta a vida a qualquer jogador. O que faço na distrital, fazia muito mais facilmente na primeira liga.»
O extremo não esconde que a carreira de jogador está a aproximar-se da reta final. Mas isso não significa que esteja a pensar parar: «Quero jogar mais dois ou três anos e tirar o curso de treinador. Quero ser treinador e tenho a certeza de que aquilo que não fiz como jogador vou conseguir como treinador, ao mais alto nível.»
É talvez a frase que melhor resume o momento atual de Toni Silva. Depois de ter saído muito jovem de Portugal, de ter vivido o sonho inglês, conhecido o sucesso na Bulgária, atravessado períodos de solidão, lesões e dificuldades financeiras e percorrido uma parte considerável do mapa, regressou a casa.
Agora, a jogar na distrital, no Sacavenense, concilia o presente com a preparação do futuro. A carreira ainda vai continuar a ser escrita, mas já sabe o que quer deixar como legado: transformar tudo o que viveu dentro e fora dos relvados numa nova história, agora como treinador.