João Luís Maló de Abreu foi dentista e guarda-redes da Acedémica na década de 60 do século 20. Foto A BOLA
João Luís Maló de Abreu foi dentista e guarda-redes da Acedémica na década de 60 do século 20. Foto A BOLA
Adicione A BOLA às suas preferências do Google

A inflamação invisível: impacto da saúde oral no desporto de alta competição

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de Maria Manuel Ferreira, responsável Patent Medical

Atualmente, no desporto de alta competição, a margem entre o pódio e o esquecimento mede-se em centésimos de segundo ou em escassos milímetros. Para alcançar o topo, nada é deixado ao acaso: treino, nutrição, biomecânica, sono e recuperação física e mental são otimizados ao limite através de dados objetivos de desempenho. No entanto, existe um fator determinante que continua, muitas vezes, a passar despercebido nas análises de alta performance: a saúde oral e a escolha dos tratamentos médicos dentários.

A questão que se impõe é simples: será a alta competição compatível com os riscos e a inflamação associados aos tratamentos dentários convencionais?

A resposta clínica e biológica é clara. Qualquer processo inflamatório no organismo, por mais subtil que seja, representa uma carga metabólica e imunitária adicional. Num atleta de elite, um foco inflamatório constante consome recursos preciosos que deveriam estar orientados para a recuperação muscular e a disponibilidade energética.

O problema torna-se crítico na substituição de dentes ausentes através de implantes tradicionais. Vários estudos confirmam que cerca de dois terços dos pacientes com implantes de titânio desenvolvem inflamações nos tecidos — com 43% a sofrerem de mucosite e 22% de peri-implantite.

O grande perigo para o atleta reside no facto de estas condições serem frequentemente assintomáticas nas fases iniciais. A inflamação atua como um ruído de fundo invisível no organismo, desgastando a performance sem emitir um sinal de alarme óbvio.

A campeã mundial de downhill e super-G, Lizz Görgl, destacou este ponto no Congresso Paroknowledge 2026. A atleta explicou que sempre procurou otimizar o seu corpo para «evitar qualquer perda de desempenho», mas alertou: «Quando se trata dos dentes, a situação é mais complicada, porque as inflamações nem sempre são percetíveis de imediato.»

A medicina dentária evoluiu para responder às exigências do desporto de elite. A própria Lizz Görgl optou por um tratamento inovador após a perda de dois dentes, demonstrando que a escolha de um tratamento dentário não é uma mera questão estética ou mastigatória, mas sim uma decisão estratégica de gestão do rendimento desportivo.

A nova geração de implantes cerâmicos, como os Symbionic Teeth, integra-se diretamente no tecido mole, criando uma barreira natural de defesa na mucosa. Esta vedação impede a penetração da placa bacteriana — a principal causadora das infeções —, reduzindo drasticamente os índices de mucosite e eliminando praticamente os casos de peri-implantite. Reduzir as infeções orais a um valor próximo de zero tornou-se, assim, um objetivo viável e indispensável no alto rendimento.

À medida que a medicina do desporto se torna cada vez mais assente em dados rigorosos, os dispositivos médicos dentários têm de ser avaliados com o mesmo escrutínio aplicado ao material de treino ou aos protocolos de recuperação. Ignorar a saúde oral como variável de rendimento é dar uma vantagem direta ao adversário. Na era do detalhe, a verdadeira alta competição exige soluções que protejam o corpo contra qualquer perda de performance — a começar pela boca.

A iniciar sessão com Google...