«Todas as tenistas falam pelas costas e sorriem falsamente»
A 14 de fevereiro, Destanee Aiava anunciou, através de uma mensagem muito dura, que terminaria a carreira este ano, afirmando que por trás dos «supostos valores de classe e cavalheirismo» se esconde uma «cultura racista, misógina, homofóbica e hostil a quem não se encaixa no padrão». Entretanto, a atleta australiana de 25 anos, 457.ª classificada no ranking mundial WTA, concedeu várias entrevistas em que explica a decisão que tomou e as diversas situações que viveu.
Vencedora de 10 títulos ITF em singulares, Destanee Aiava anunciou a retirada precoce do ténis, através de uma mensagem muito dura, na qual comparou o desporto que praticou a um «namorado tóxico». Nas últimas semanas, explicou o que quis dizer ao usar esta metáfora para o ténis.
«A forma como tenho oscilado na relação com o ténis e lutado contra os meus próprios demónios neste desporto – querendo desistir ou continuar – senti que era semelhante à minha própria relação, onde todos têm altos e baixos com o parceiro. Senti que este era o equivalente ao que eu estava a viver, ou seja, a relação com a minha própria profissão. Era, basicamente, tóxica. Não tinha a certeza se mais alguém se identificaria com isto...», declarou Aiava, citada por clay.com.
«Dizem coisas pelas tuas costas e depois sorriem-te falsamente»
A atleta, que desceu mais de 100 posições desde meados de fevereiro, chegou à conclusão de que nunca gostou de ténis e que, por vezes, preferia fazer qualquer outra coisa a bater na bola. Além disso, Destanee criticou a forma como as mulheres que praticam este desporto se relacionam umas com as outras.
«Toda a gente compete contra os outros, especialmente as mulheres. Sinto que nós não sabemos realmente deixar isso de lado tão bem quanto os homens. Eles jogam um contra o outro, algo pode acontecer em campo, e 10 minutos depois, no balneário, estão a brincar entre si. Simplesmente, as mulheres não são assim. Parecia o liceu», sublinhou Aiava.
«Todas falam pelas costas umas das outras. É por isso que se cria um ambiente hostil, porque toda a gente diz coisas pelas tuas costas e depois dá-te um sorriso falso quando se cruzam. Sou muito atenta às energias e, na maior parte do tempo, sempre que estava naquele ambiente, a energia era simplesmente terrível», acrescentou.
Destanee está determinada a retirar-se e afirmou que nada a faria mudar de ideias, mesmo que ganhasse um título de Grand Slam.
«A minha decisão não se baseou nas reações que recebia quando perdia, no barulho exterior ou nos comentários cheios de ódio. Não foi essa a razão pela qual tomei esta decisão. Sentia que este desporto já não me preenchia. Era muito solitário. É um desporto individual. É muito dispendioso. Simplesmente, fez sentido para mim explorar outras coisas e encontrar algo que realmente amo», explicou Aiava.
«Ser mulher de cor num desporto predominantemente branco foi uma luta enorme»
Numa outra entrevista, publicada em abc.net.au, a tenista de origem samoana contou que passou por um momento em que lhe restavam menos de 40 dólares na conta bancária e expressou frustração pelo facto de não se falar tanto sobre o lado complicado do ténis.
Além disso, Aiava disse que, ao longo da sua carreira, enfrentou mensagens racistas, misóginas e homofóbicas e foi criticada pela sua aparência, desenvolvendo distúrbios alimentares. «Ser uma mulher de cor num desporto predominantemente branco foi uma luta enorme desde o início. Nunca houve um momento em que senti que pertencia a este desporto por causa da minha cor. Será sempre mais difícil para nós e essa é a realidade. Mesmo que eu não fosse mulher, ainda seria mais difícil se fosse mestiça, asiática ou de cor. Desde o abuso online até às pessoas nas bancadas que me vaiavam durante os jogos, há tantas situações que contribuíram para a minha publicação sobre a retirada».
«Em campo fui chamada de macaca e transgénero. Recebi comentários online de pessoas que me chamavam de gorda ou homem. Vendo até os jogadores de ténis gay e como são tratados, é muito importante para mim apoiá-los também, porque vejo diretamente como foram tratados no ténis. Não queria falar apenas por mim. Queria falar por todos os outros que tiveram ou têm uma experiência muito semelhante à minha», disse.