Sporting: coração do leão nas mãos de Rui Borges
Rui Borges é um otimista por natureza. Já sabemos que olha sempre para o copo meio cheio e não para o vazio. Desde que assumiu o comando técnico do Sporting, no final de dezembro de 2024, naquela que foi, segundo palavras do próprio, a melhor prenda de Natal que podia ter recebido, foram vários os obstáculos que, não conseguindo ultrapassar, contornou.
No arranque da época passada deparou-se com uma perda que muitos apontavam como impossível de substituir: Viktor Gyokeres. O avançado sueco deixou marca indelével no Sporting: 97 golos em 102 jogos de leão ao peito, conquistou dois títulos de campeão nacional, uma Taça de Portugal e duas Bolas de Prata. Saiu para a Premier League, para o gigante Arsenal, deixando um vazio no plantel leonino que, contra todas as previsões, foi colmatado com sucesso até, diga-se, inesperado.
O Sporting contratou então Luis Suárez ao Almería, após uma época em que deu cartas na segunda divisão espanhola, tendo marcado 27 golos e feito oito assistências em 41 jogos. E, agora é sabido, foi rei morto, rei posto. O avançado pegou de estaca e arrecadou a Bola de Prata, numa época super exigente para o colombiano que, face à lesão de Ioannidis, teve poucas oportunidades para descansar — somou 4367minutos em 53 jogos, marcou 38 golos e fez sete assistências.
Agora, Rui Borges prepara-se para nova missão de substituição no reino do leão: Hjulmand está na porta de saída e Morita saiu a custo zero. E naquilo que para uns pode parecer um problema, o treinador vê oportunidades.
A reconstrução do miolo obrigará não só a mudanças no figurino da equipa mas, necessariamente, no estilo de jogo, em que Rui Borges tem uma ideia ofensiva, de tração à frente - comprovado pelos 131 golos apontados na época passada -, mas também é versátil.
Com Hjulmand e Morita no meio-campo, o treinador leonino procurou implementar um jogo mais pausado, de construção através do bloco central, procurando, depois, tirar partido dos jogadores da frente e da associação entre eles para criar perigo.
O dinamarquês foi peça fulcral como elemento defensivo, com alguma capacidade de transporte, e Morita um médio mais posicional e importante em espaços curtos e na saída para o ataque, mas sem ter muita preponderância ofensiva. Ora, com a chegada de Issa Doumbia, visto como natural substituto de Hjulmand, e tendo em conta a capacidade de transporte do italiano, que o japonês não tinha, acrescendo a fisicalidade, capacidade de chegada à área e fazer golos, a equipa ganha maior versatilidade do ponto de vista ofensivo.
Issa Doumbia, médio-centro (22 anos, 1,87 m) - 38 jogos na última época (Veneza). É físico, técnico, intenso, rápido e ágil. Destaca-se por agarrar na bola e progredir no terreno através de arrancadas e conduções em velocidade, com chegada fortíssima à área adversária vindo de trás e capacidade de remate na zona frontal.
Médios mais altos e mais fortes
Neste defeso o Sporting já oficializou quatro reforços, todos médios, com características distintas, mas com dois detalhes em comum: são mais altos e fortes do que os anteriores. Logo aqui a vantagem de ganhar duelos aéreos quando o adversário opte pela bola longa no pontapé de baliza é maior, expondo menos os centrais e iniciando mais rápido a primeira fase de construção pelo jogador da posição 8 ou pelo 10 que desça no terreno.
Silas Andersen, médio defensivo (21 anos, 1,90 m), 11 jogos na época passada (Hacken). Boa saída de bola a partir de trás, com destaque para o passe longo e capacidade de progressão, sendo considerado um dos melhores médios na Suécia a quebrar linhas e projetar a equipa para o ataque. Lê bem o jogo e tem capacidade de liderança.
Pedro Lima encaixa-se que nem uma luva nessa missão e Silas Andersen é um médio moderno que alia forte presença física a elevada qualidade na primeira fase de construção de jogo.
Pedro Lima, médio centro (23 anos, 1,90 m), 29 jogos na época passada (Aves SAD). É um jogador caracterizado pela elegância, elevada qualidade técnica, de pé esquerdo, e grande facilidade em aparecer nas zonas de decisão. Fez percurso como médio defensivo, mas agora está mais formatado para jogar na posição 8 ou até como 10.
E ainda há Rodrigo Zalazar, que atua primordialmente como médio-ofensivo (10) ou médio-centro (8), mas a versatilidade permite-lhe render com facilidade descaído para a linha (como extremo direito) ou integrado em sistemas de dois ou três médios, que se destaca no desequilíbrio individual.
Rodrigo Zalazar, ala-esquerdo (26 anos, 1,75 m), 47 jogos na última época (SC Braga). Dos médios mais perigosos em Portugal, com números invulgares para a posição, face à forte presença na área e capacidade para decidir. Especialista em bolas paradas, é exímio a jogar no espaço entre a linha defensiva e o meio-campo oponente.
João Simões em recuperação
À semelhança do que aconteceu na época passada, João Simões, operado a 22 de abril, ao quinto metatarso do pé direito, deu início a longa reabilitação que ameaçava comprometer presença nas primeiras semanas de 2026/2027, o que vai obrigá-lo a uma pré-época diferente, pois o cenário de regresso à competição aponta apenas em setembro, já com a época em andamento. É outra opção para o miolo, mas vai partir em desvantagem.
Quanto a Daniel Bragança, médio de 26 anos, está apenas a um ano de terminar contrato e não recebeu proposta para a renovação, o que o coloca, de momento, com possibilidades de rumar a outras paragens.