Martínez deixa uma equipa sem identidade, imprevisível e incapaz de entusiasmar os adeptos — Foto: IMAGO
Martínez deixa uma equipa sem identidade, imprevisível e incapaz de entusiasmar os adeptos — Foto: IMAGO

Quem lidera Portugal?

Nas entrelinhas, Jorge Jesus deixou a principal mensagem da sua apresentação: todos terão de pensar primeiro no coletivo e só depois no individual. A começar pelo presidente da FPF. 'Mercado de valores' é o espaço de opinião em A BOLA de Diogo Luís, antigo jogador de futebol, economista e comentador

Depois de vários slogans motivacionais como «habituem-se, viemos para ganhar» ou «vamos fazer o que ainda não foi feito», a realidade é que a prestação da nossa Seleção no Mundial ficou muito aquém das expectativas criadas. A pergunta que todos fazem, e à qual ninguém respondeu, é simples: quem assume a responsabilidade?

Roberto Martínez: o político

Começo por Martínez. Um gentleman no trato. Educado, respeitador e que rapidamente aprendeu a língua para se integrar. O problema nunca foi o compromisso demonstrado, mas a forma como liderou uma geração de enorme qualidade. As suas palavras e os seus atos criaram quase sempre mais dúvidas do que confiança.

A flexibilidade tática de que tantas vezes falou acabou por ser uma mão cheia de nada. Nos momentos de maior dificuldade refugiou-se frequentemente em lugares-comuns. Frente à Espanha lembrou que Portugal tinha defrontado «uma das favoritas a conquistar o Mundial» e que tinha jogado «olhos nos olhos». As duas declarações transmitiam exatamente a mesma mensagem: vencer aquela Espanha seria quase uma missão impossível.

Este foi um dos maiores erros de Martínez. Nunca percebeu que Portugal tem jogadores para discutir qualquer jogo com qualquer seleção. Que nós também somos favoritos. Depois de uma fase de grupos pouco convincente, afirmou ainda que «era indiferente ficar em primeiro ou em segundo» e que «os três primeiros jogos serviram de preparação».

Mais tarde recordou que consigo Portugal tinha «os melhores números da história». Uma afirmação verdadeira, mas descontextualizada. Grande parte desses números foram construídos frente a adversários de menor qualidade e criaram uma perceção que nunca se confirmou quando o grau de dificuldade aumentou.

Após três anos e meio, o que deixa Martínez? Uma equipa sem identidade, imprevisível e incapaz de entusiasmar os adeptos. Nunca sabíamos que cara ia apresentar em cada jogo. Durante os jogos, muitas das substituições pareciam previamente definidas, independentemente do que o jogo estava a pedir. Disse que todos contavam, mas, na prática, os jogadores de maior estatuto contaram sempre muito mais do que os restantes.

Pedro Proença: a imagem

Se Martínez falhou dentro do relvado, Pedro Proença também falhou fora dele. Depois da rapidez com que apareceu a falar nos momentos de sucesso, como aconteceu após a conquista da Liga das Nações, esperava-se a mesma disponibilidade para explicar o fracasso do Mundial. Não aconteceu. Na derrota preferiu uma mensagem nas redes sociais e só falou à chegada a Lisboa.

A expectativa era que assumisse a responsabilidade juntamente com a equipa técnica e os jogadores. Quando finalmente falou, surpreendeu ao afirmar: «Todos sabem que este treinador não era a minha primeira opção.»

A declaração levanta uma questão inevitável. Depois da conquista da Liga das Nações, Pedro Proença teve oportunidade para mudar de rumo. Não o fez. Pelo contrário, reforçou publicamente a confiança em Roberto Martínez, homenageando-o e, já durante o Mundial, chegou mesmo a dizer: «Somos 28+1» — numa alusão clara a Martínez.

Denoto aqui falta de coerência. Nas conquistas do Europeu e do Mundial de sub-17 (quando tinha acabado de chegar à FPF) não teve qualquer problema em assumir as vitórias como suas, sem reconhecer o trabalho da estrutura anterior.

Na Liga, Pedro Proença destacou-se por uma comunicação forte e uma presença pública constante. Esse modelo ajudou a construir uma imagem de liderança. Na FPF, porém, a realidade é diferente. Aqui não basta criar dimensão mediática. O presidente é inevitavelmente avaliado pelos resultados das seleções e pela forma como reage quando elas falham. É precisamente nos momentos de derrota que se distingue um líder: assume a responsabilidade, explica o que falhou e aponta o caminho. Foi precisamente aí que Pedro Proença falhou. Na FPF, o protagonismo não chega. É preciso ter liderança.

Jorge Jesus: o líder

Jorge Jesus representa muito mais do que uma mudança de treinador. Representa uma nova forma de liderar. Traz autenticidade, confiança, exigência e uma capacidade rara de mobilizar quem o rodeia. A sua forma genuína de comunicar aproxima-o dos jogadores e dos adeptos e cria empatia. Não precisa de discursos preparados para transmitir convicção.

Nas primeiras palavras deixou algumas ideias fundamentais. A primeira é que o rendimento terá de estar acima do estatuto. Vamos deixar de ter um político no banco para passarmos a ter um treinador. Demonstrou também que percebe a qualidade que tem à disposição. Isso demonstra que conhece a responsabilidade do cargo e que Portugal deve olhar muito mais para si do que para os adversários.

Por fim, Jorge Jesus insistiu várias vezes numa ideia que considero decisiva: para ganhar não basta existir qualidade dentro do relvado. É preciso que, fora dele, tudo esteja alinhado. Pela experiência que tem, percebe bem os contextos onde está inserido e sabe que a união não pode existir apenas para as fotografias.

Nas entrelinhas, Jorge Jesus deixou a principal mensagem da sua apresentação: todos terão de pensar primeiro no coletivo e só depois no individual. A começar pelo presidente da FPF.

A valorizar: Olise

É um jogador incrível. Não marca tanto quanto os colegas, mas é determinante para que tudo funcione na seleção gaulesa.

A desvalorizar: Infantino

O dinheiro ou o poder não se podem sobrepor às regras no desporto. A despenalização de Balogun é um grande tiro na credibilidade do futebol mundial.

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