Jorge Jesus é um de nós. A diferença é que percebe muito de futebol — Foto: MAYCON QUIOZINI
Jorge Jesus é um de nós. A diferença é que percebe muito de futebol — Foto: MAYCON QUIOZINI

FPF e Seleção com idiomas diferentes

Se uma Federação vive de credibilidade, uma Seleção vive de paixão. E Jorge Jesus marca o regresso a essa autenticidade. ‘O Lado Direito do Mister’ é o espaço de opinião em A BOLA de Ricardo Lemos, consultor de comunicação

A maior contratação da Federação não foi apenas um treinador. Foi uma personalidade. Os 24 títulos de Jorge Jesus explicam a escolha. Explicam a competência, a exigência, a capacidade para construir equipas e para ganhar. Mas contam apenas metade da história. A outra metade não se mede em títulos, nem cabe num currículo: mede-se na capacidade de aproximar uma Seleção de um país.

Durante anos, a Federação Portuguesa de Futebol fez o caminho que tinha de fazer. Cresceu, profissionalizou-se, internacionalizou-se e construiu uma comunicação moderna, consistente e credível. Era inevitável. Quanto maior a organização, maior a necessidade de proteger a marca e controlar a mensagem. E fê-lo bem. Mas, se uma Federação vive de credibilidade, uma Seleção vive de paixão. Vive de identificação. Vive daquela capacidade quase irracional de fazer um país inteiro discutir uma convocatória ou uma substituição como se estivesse a decidir o seu próprio destino. É precisamente por isso que reduzir a escolha de Jorge Jesus à dimensão técnica é olhar apenas para metade da fotografia.

Num futebol cada vez mais formatado, onde demasiadas conferências de imprensa parecem sair do mesmo manual, Jorge Jesus continua a soar a Jorge Jesus. Pode trocar uma palavra, inventar uma expressão ou desarrumar os puristas da língua portuguesa, mas nunca trocou uma convicção. Nunca precisou de construir uma personagem — a autenticidade sempre foi a sua melhor forma de comunicar.

Jorge Jesus sempre falou à Amadora. Agora vai falar à Porto, à Chaves, à Vila Real de Santo António, à Funchal ou à Porto Santo, porque falar à Amadora nunca foi uma questão geográfica; sempre foi uma questão de autenticidade. E essa autenticidade cria uma coisa que nenhuma estratégia de comunicação consegue fabricar: identificação.

Os resultados acabarão por dizer tudo. Dizem sempre. Mas há uma coisa que Jorge Jesus já devolveu à Seleção antes de orientar um único treino: voltou a colocá-la no centro da conversa dos portugueses. E, tratando-se da Seleção Nacional, isso está longe de ser um detalhe.

Jorge Jesus é um de nós.

A diferença é que percebe muito de futebol.

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