Futebol profissional representa 0,32% do Produto Interno Bruto português. Foto Liga Portugal
Futebol profissional representa 0,32% do Produto Interno Bruto português. Foto Liga Portugal

Sobre a sustentabilidade do futebol profissional

#minuto92 é uma rubrica quinzenal da autoria de Ricardo Gonçalves Cerqueira, Jurista, gestor de empresas e sócio do FC Porto (rgc@abola.pt)

O futebol profissional em Portugal atravessa um momento de afirmação inequívoca. Durante décadas, foi sobretudo encarado como um fenómeno desportivo, apaixonante, vivido intensamente ao fim de semana e tema central de discussão entre amigos. Atualmente, sem perder de vista essa dimensão identitária e cultural, o futebol consolidou-se como uma verdadeira indústria, com peso económico significativo e impacto direto na vida do país.

Os dados mais recentes confirmam aliás essa transformação. Pela primeira vez, as receitas das ligas profissionais ultrapassaram a barreira dos mil milhões de euros, atingindo os 1.133 milhões. Este não é apenas um marco simbólico: é a constatação de que o setor adquiriu uma dimensão estrutural no contexto económico nacional. O contributo para o Produto Interno Bruto ascende a 956 milhões de euros, cerca de 0,32% da riqueza nacional, enquanto a receita fiscal gerada atinge os 288 milhões de euros — um valor que, de per si, deve impor, a quem tem responsabilidades de gestão, reações públicas menos apaixonadas, e sobretudo mais direcionadas à sustentabilidade de todo o ecossistema. A centralização dos direitos audiovisuais e a definição do mecanismo de redistribuição de receitas será, a curto prazo, o verdadeiro teste à capacidade de entendimento entre os principais stakeholders do setor.

Importa ainda sublinhar que mais de metade da receita fiscal resulta diretamente da contribuição oriunda do trabalho dos jogadores profissionais. Entre IRS e contribuições para a Segurança Social, estes representam cerca de 145 milhões de euros. No total, o Estado arrecadou 155,6 milhões em IRS, 46,9 milhões em contribuições sociais, 68,6 milhões em IVA, 3,8 milhões em IRC e 13,3 milhões em outros impostos. Estes números evidenciam não só a dimensão económica do setor, mas também o papel muito relevante no financiamento das contas públicas.

Contudo, o ecossistema não está isento de fragilidades. Uma parte substancial do crescimento das receitas resulta do mercado de transferências de jogadores, que atingiu os 636 milhões de euros — um aumento significativo face ao período homólogo. Este dado confirma a reconhecida capacidade do futebol português na vertente formativa e de exportação de talento, provavelmente uma das suas maiores vantagens competitivas, mas revela também uma dependência preocupante: o equilíbrio financeiro dos clubes continua, em larga medida, assente na transação de passes de atletas.

Os números da época 2023/2024 ajudam a compreender melhor este paradoxo. Apesar de receitas totais de 1.073 milhões de euros, os gastos ascenderam a 1.122 milhões, gerando um défice global de cerca de 98 milhões. Ainda que o contributo para o PIB (662 milhões) e os impostos gerados (268 milhões) sejam expressivos, o desequilíbrio entre receitas e despesas suscita dúvidas sobre a sustentabilidade financeira do modelo atual a médio prazo.

Por outro lado, o setor continua a afirmar-se como um importante gerador de emprego. Na época 2023/2024, foram registados 4.436 postos de trabalho, número que cresceu significativamente para 6.163 quando consideradas todas as áreas associadas ao futebol profissional. Os gastos com pessoal atingiram os 457 milhões de euros, dos quais 303 milhões correspondem a salários de jogadores, 50 milhões a treinadores e 104 milhões a outros funcionários. Estes dados reforçam a centralidade do capital humano no ecossistema do futebol profissional.

Registam-se ainda sinais encorajadores no que concerne às assistências. O aumento do número de espectadores nos estádios, com recordes de assistência e uma média de cerca de 12 mil adeptos por jogo na época 2024/2025, demonstra uma reconexão entre o público e o espetáculo. No total, 4,4 milhões de pessoas passaram pelas bancadas dos estádios portugueses — um indicador claro de vitalidade e de recuperação da atratividade do futebol praticado na I e II Ligas. Este crescimento não só impulsiona as receitas de bilheteira, como reforça o valor comercial e mediático das competições.

O futebol, em Portugal, continuará a ser entendido quase como que uma marca identitária do País. O penálti discutido até à exaustão, o fora de jogo milimétrico, a vitória sofrida ou a derrota imerecida fazem parte de um ritual coletivo que vem perpassando gerações.

O desafio que se coloca para futuro é claro: consolidar o crescimento sem comprometer a sustentabilidade. Valorizar o espetáculo, reforçar a competitividade interna e reduzir a dependência das transferências de jogadores serão passos decisivos para garantir que o futebol português não é apenas uma fábrica de talento para exportação, mas também um produto forte, atrativo e sustentável, gerador de receitas e motivo de interesse no contexto internacional.