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A navalha de Cristo e o traço de Luís Afonso: onde o Mundial ganha Barba & Cabelo
Há sítios que explicam um país melhor do que qualquer tratado de sociologia. Do café central da cidade, à sede da sociedade recreativa da aldeia, passando pela barbearia da vila, há locais onde o cheiro da bica bem tirada ou da espuma do sabão e o som do corte da tesoura se misturam com a conversa do dia. Foi assim na Rua 31 de janeiro em Aljustrel, morada da barbearia de Humberto Cristo, cenário imortalizado no traço firme e humor mordaz de Luís Afonso na tira Barba & Cabelo. Seria certamente o Mundial de futebol e a Seleção Nacional o tema debatido por estes dias naquele estabelecimento, palpites mais ou menos certeiros, críticas afiadas na precisão da navalha de Cristo.
Quando esta quarta-feira Portugal entrar em campo com o Congo, lá nos Estados Unidos, já por muitos cafés e barbearias deste retângulo à beira-mar se tentou adivinhar o resultado, se escalou onze e no dia seguinte vai haver rescaldo do golo marcado ou do penálti falhado. Por muito que nestes tempos os cozinheiros sejam «chefs estrelas rock» e as barbeiros tenham dado «uma grande volta», passando a donos de barbershops gourmet de barba aparada a régua e esquadro, como nota Luís Afonso, há coisas que não mudam e é por muitos destes icónicos estabelecimentos que se continua a viver o futebol como assunto (mais ou menos) sério.
Foi há 36 anos que nasceu o Barba e Cabelo, a mais antiga tira diária da imprensa portuguesa, estampada nas páginas de A BOLA pela primeira vez a 6 de maio de 1990. Já sobreviveu, com este, a dez Campeonatos do Mundo, resiste ao passar dos anos e desenha-se noutras plataformas. Mas o tema primordial é sempre o futebol que nestes dias se joga na América do Norte.
O seu criador não precisou de inventar um cenário de ficção para pôr o país a rir e a pensar. Bastou-lhe fechar os olhos e regressar à infância em Aljustrel, à barbearia do mestre Humberto Cristo, homem que entre tesouradas e com um sorriso sincero fechava as discussões clubísticas dos fregueses com um remate certeiro e desarmante.
«Quando me desafiaram a fazer a tira lembrei-me do barbeiro da minha terra», conta-nos o nosso camarada Luís. «Era onde ia cortar o cabelo e era onde ouvia falar de futebol. Foi totalmente inspirado nele. O Cristo dava-me sempre na cabeça», e não era com a tesoura ou o pente, era com a «grandiosidade do Benfica, do terceiro anel, aquilo tudo com a malta lá sentada», e logo para o Luís que é do Sporting por causa do ciclismo e dos… motores: «Não percebia nada de futebol, pensava que o Pelé era português e o Ajax o clube do detergente… Só gostava de carros e tudo o que fosse desporto motorizado. O meu pai é grande adepto do ciclismo e o grande ídolo era o Joaquim Agostinho, onde ele ia, íamos ver os ciclistas passar e de tanto ouvir falar no Joaquim Agostinho bateu-me no ouvido. Depois havia um motociclista campeão do mundo que era o Giacomo Agostini… Joaquim Agostinho, Giacomo Agostini… passou a Sporting.»
A barbearia do Cristo era uma segunda casa para muitos locais. Ali entravam três ou quatro para cortar o cabelo e ficavam mais uns quantos a alinhar táticas. Discutia-se o Benfica do mestre, o Sporting que o jovem Luís Afonso teimava em defender contra as provocações do barbeiro e, acima de tudo, o Mineiro, o eterno pouca sorte, como muitos carinhosamente chamam ao Aljustrelense. Mestre Cristo ouvia, deixava falar e, no fim, aplicava o corte preciso com ironia refinada.
De Éder a... José Neto
Enquanto a Seleção Nacional pisa os relvados norte-americanos, o Barba & Cabelo continua a ser o espelho de Portugal. Um Portugal que, como nota Luís Afonso, às vezes vive um «patriotismo folclórico» de «mão no peito a cantar o hino». «Ironicamente, as pessoas tornam-se patriotas no pior sentido do patriotismo. Já pagar impostos, cumprir com as obrigações sociais, está quieto…», aponta com dedo mordaz.
Para o cartoonista, o verdadeiro herói da Seleção não é o craque intocável, antes o Éder do Euro-2016 e «aquela malta toda que, digamos, não fazia parte dos cromos mais difíceis da caderneta, como o Rafa e o Eduardo, que aparecem na fotografia a correr atrás dele, nenhum craque». «Essa foto é linda. Se pudesse emoldurar uma lá em casa era essa, a dos pequeninos, dos portugueses sem voz. A barbearia do Cristo também era isso», explica.
O Mundial do outro lado do oceano promete a habitual vertigem dentro de campo mas antes que a bola role contra o Congo, o melhor enquadramento para o torneio continua a ser o desta barbearia que virou património nacional e onde certamente se delinearia um onze que provavelmente nem ira bater certo com o de Roberto Martínez. O de Luís Afonso não bate, até porque além de Éder, o nosso Luís tem agora outro herói que também é português e até já é… campeão do mundo.
«Havia uma coisa muito engraçada na barbearia do Cristo: o Mineiro é que era a conversa central. Ia muitas vezes cortar o cabelo ao sábado de manhã e o jogo era no domingo, discutia-se os lesionados, os pontos que eram sempre precisos e até lá iam jogadores, muitos que eram mineiros e jogavam no Mineiro e aí aproveitávamos para perguntar como estava o moral da equipa. E o Mineiro também já esteve na tira, a única vez em que despi a minha capa de isenção foi quando o Mineiro foi campeão nacional da III Divisão», lembra Luís Afonso antes de finalmente revelar o seu novo herói.
«Se neste momento me perguntares qual é o jogador que mais admiro… é o José Neto! Uma equipa para mim é formada por José Neto e mais dez», garante, promovendo o jovem aljustrelense do Benfica, campeão europeu e mundial de sub-17 por Portugal que na hora dos festejos levou o cachecol do Aljustrelense para a festa, para todo o mundo ver e saber de onde ele vem.
A conversa no Jardim Luís Afonso, espaço na Biblioteca Municipal de Aljustrel, ia boa e já longa, tão boa e tão longa que a Francisca Branco já esperava há uns minutos para fechar a porta para poder ir almoçar, talvez já com fome mas sempre com um sorriso e disponibilidade que agradecemos na hora de mudar de cenário. José Neto, lateral formado no Mineiro e hoje grande esperança do Benfica, foi o gancho para essa mudança.
O Campo das Minas
Subimos as avenidas 1.º de Maio, 25 de Abril e de Algares, contornámos a rotunda da Praça 17 de Dezembro, daí para a Estrada da Transtagana até ao bairro mineiro de Vale D’Oca. Eis o velhinho Campo das Minas, onde o Mineiro já não joga há mais de 20 anos, altura em que se mudou para outra das extremidades da vila, para o Municipal de Aljustrel. Hoje, naquele espaço onde desde 1949 o Mineiro tinha morada, há uma zona de lazer desportiva, com campos de ténis, pádel, futsal e basquetebol. Mas se fecharmos os olhos e apurarmos o ouvido ainda se ouve a bola a rolar no pelado onde pela primeira vez Luís Afonso viu um jogo de futebol.
O Mundial joga-se no outro lado do Atlântico mas para o nosso Luís ele tem coordenadas fixas e bem diferentes no espaço e no tempo. Tudo começou ali «naquele pelado de terra vermelha», no pó levantado do chão nos dias de calor e na lama dos dias de chuva. Mas chovesse a cântaros ou fosse uma tarde de 40 graus, aqueles domingos marcaram para sempre o cartoonista e marcam certamente o seu traço.
«Se foi aqui que vi o primeiro jogo? Os primeiros 200 ou 300», conta Luís Afonso. «Vinha aqui todos os domingos e às vezes não só para ver os seniores, também as camadas jovens, que jogavam de manhã», recorda, contando com orgulho que vinha ia os jogos com o pai, para a bancada, onde tinha assento como sócio que se fez sozinho: «Não fui daquelas criancinhas que os pais vão filiar no clube, não sou sócio de Benfica ou Sporting, nada disso… Sou sócio do Mineiro porque me fui inscrever um dia, por livre iniciativa, e depois ainda me lembro de chegar aqui ao Campo das Minas e exibir aquela carteirinha do cartão com orgulho.»
Na lembrança estão os jogos memoráveis na III Divisão Série F, «com o Olhanense eram sempre especiais» e o vizinho Desportivo de Beja alvo da antipatia mineira. «Como se diz hoje, beneficiava sempre do chamado colinho», brinca entre sorrisos.
Em dias de jogo grande, a multidão empurrava o Mineiro, uns da bancada, outros do peão e outros até encarrapitados nas sulipas de madeira, velhas travessas em que assentavam os carris dos caminhos de ferro então recicladas para fazerem de muro do campo. E era nesses jogos que brilhava Jones, o avançado que chegou a Aljustrel em 1973/1974 para nunca mais de lá sair até hoje, talvez o mais alentejano de todos os cabo-verdianos e que fazia as delícias do Luís e que, ao contrário de CR7, «marcava cinco golos em dez livres». «A média do Cristiano Ronaldo está abaixo de um, por isso o Jones na altura era superior», assegura.
O Mineiro continua hoje a ser o motivo pelo qual abre o jornal todas as segundas: para ver o resultado e classificação e quem sabe um dia voltar a fazer tira sobre o clube da terra que o viu crescer. Antes porém, Luís Afonso não se importava de fazer uma sobre Portugal… campeão do Mundo. «Se for contra equipa forte, teria de ser uma final assim». Afinal, Luís Afonso tem essa queda por equipas mais pequenas. E se fosse com um herói improvável como Éder em 2016, melhor ainda. Que assim seja já e outra vez no futuro talvez com… José Neto a marcar o golo da vitória.
Orgulho tem dois cabelinhos apenas: o mestre pelos olhos da neta
Rita Vilhena, de 27 anos, nasceu e cresceu com o Barba e Cabelo e foi ainda muito miúda que percebeu que aquele boneco de humor mordaz era, na verdade, o seu avô: o mestre barbeiro Humberto Cristo. «Identificava-o claramente. O cabelo, a falta dele... tem ali só dois tracinhos na lateral, tal como o meu avô», recorda com um sorriso.
Antes de crescer e o digital acelerar o mundo, o quotidiano de Rita dividia-se entre os jornais desportivos comprados pelo pai e as visitas diárias à barbearia, que se transformou no cenário mais icónico da imprensa nacional. Ali testemunhou as eternas picardias futebolísticas entre o avô Cristo e clientela, ele benfiquista dos sete costados, ao contrário do outro avô, sportinguista e menos dado a futebóis mas presença habitual, e ambos unidos pelo Mineiro.
Quando mestre Cristo partiu, em 2018, Aljustrel parou num funeral que comoveu a vila: «Era miúda mas não me lembro de ter alguma vez visto algo assim.» Também Luís Afonso recorda: «No dia em que o Cristo morreu fiz uma tira e substituí os bonecos pelas fotos dele a cortar-me o cabelo duma reportagem que A BOLA fizera aqui em Aljustrel. Esse diálogo é comigo e com ele a falarmos da forma como brincávamos com o futebol e como as coisas agora estão tão amargas.»
Se hoje a mítica barbearia estivesse de portas abertas para debater o Mundial, o veredito seria garantido: «Havia de certeza corte e costura sobre o selecionador e as escolhas dos jogadores. O meu avô veria os jogos a ralhar com a televisão, a dizer faz assim e assado, como se eles o ouvissem.»
À conversa com as amigas, Rita prepara-se para as madrugadas de futebol transatlântico e recorda a loucura da rua em 2016. Se Portugal voltar a ser feliz, a promessa está feita: «Celebraremos com grande festa.» E nas páginas do jornal, mestre Cristo continuará a fazer o corte perfeito.
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