Sete jogos em agosto podiam ter acabado com um desgosto (crónica)
Por muito que Marco Silva se tenha esforçado em rodar a equipa, a verdade é que a fatura dos seis jogos ‘excedentes’ que o Benfica fez para aceder à Liga Europa, tinha, forçosamente, de chegar.
Contra um Estoril-Praia que fez profissão de fé no 5x4x1 em frente a Robles, os encarnados não conseguiram ser asfixiantes como noutras alturas, circularam a bola com maior lentidão e previsibilidade, e o tempo foi-se escoando com o guarda-redes espanhol dos canarinhos a ter uma primeira metade quase toda de descanso. Sem hipótese de defesa, quer no golo de Pavlidis, quer na bola que Sudakov à barra, Robles esteve de férias até aos 45+2 e a seguir, em dois minutos fez três defesas de bolas-golo, uma de Pavlidis, outra de Rafa e outra de Barreiro.
O Benfica, que tinha assinado uma primeira parte sonolenta, foi para o intervalo a dever-se uma vantagem mais dilatada, contra um Estoril que se limitava a manter as linhas baixas e juntas, povoar a zona central, e defender, defender, defender…Mas houve alguma modificação tática no conjunto encarnado dos jogos anteriores para este? Nenhuma. Apenas se alterou a dinâmica, e este ‘apenas’ teve muito que se lhe dissesse. Com algumas unidades abaixo do que habitualmente rendem, especialmente Barreiro, que se deixou antecipar a meio-campo demasiadas vezes e Rafa, que não esteve nas suas noites, e outras, como Sudakov, na alternância bom-mau do costume, o Benfica controlou sem entusiasmar até ao toque a rebate já nos minutos de compensação.
Quando a equipa da Luz marcou (40) pensou-se que o Estoril ia deixar o autocarro na cabina e afoitar-se um pouco mais. Não foi essa a opção de Vasco Matos, que entendeu que qualquer bola parada ou ressalto favorável à sua equipa podia dar em golo. Ao intervalo trocou Xeka, lesionado, por Holsgrove, e não perdeu com a troca porque o escocês deu mais critério e poder físico ao meio campo dos canarinhos. Quem também não perdeu com a troca foi Marco Silva quando mandou a jogo, na sequência de uma lesão de Barrenechea aos 30 minutos (o futebol pode ser muito cruel!), João Palhinha. O internacional português entrou bem, apoderou-se de um raio de ação bastante vasto e tivesse ele um Leandro Barreiro mais inspirado no duplo-pivot e o andamento do Benfica seria outro.
'Monsieur' Lenglet
Estavam os benfiquistas a dizer mal da vida, porque a sua equipa não regressara do descanso com a mesma pedalada alucinante da fase derradeira da primeira metade, quando Clément Lenglet, em pezinhos de lã, subiu no terreno e a 29 metros do risco de golo arrancou um petardo a 108 Km/h (a tecnologia é fantástica) que tornou infrutífera a estirada de Joel Robles.
Com 2-0, parecia evidente que o Estoril tinha de trocar o autocarro por um veículo ligeiro. Nada. Tudo na mesma, e quando, aos 71 minutos, mandou a jogo Peixinho, Fabrício e Pedro Carvalho, foi Tsoungui a baixar para central, porque o 2-0 para o Benfica podia ser reversível, o 3-0 já não.
Aliás, Vasco Matos sabia bem como empatara, ao serviço do Santa Clara, na Luz, no jogo que abriu o caminho para o despedimento de Bruno Lage, dias depois, após uma derrota com o Qarabag. Do outro lado, porque nem com Schjelderup a criatividade vinha à tona, a melhoria não era grande, mas suficiente para ir tornando Robles na figura do Estoril, evitando que o marcador se avolumasse (que grande defesa a remate de Dahl, 77, com a Luz a gritar golo!).
Marco Silva, aos 80 minutos, lançou Lukebakio para espevitar as alas, Durán para dar mais luta na área e Gonçalo Moreira para ter bola, na expetativa de um avanço no campo do Estoril, então já sem nada a perder. Porém, na primeira jogada de perigo dos forasteiros, Begraoui fez de Pavlidis (golos semelhantes) e encurtou distâncias.
Estavam jogados 82 minutos e viram-se entrar no relvado da Luz todos os fantasmas de desaires passados nos minutos finais, que bem caro custaram aos encarnados. As bancadas gelaram e um nervoso miudinho apoderou-se de mais de 60 mil almas benfiquistas, temerosas não daquilo que o Estoril estava a fazer (não criou qualquer oportunidade), mas daquilo que podia acontecer. Vasco Matos, tal com há um ano, em que Otamendi teve um erro garrafal e o Santa Clara chegou a desoras ao empate, tentou que lhe saísse novamente o Euromilhões sem fazer qualquer aposta, e manteve os caminhos da baliza de Robles fechados, à espera de que a ansiedade encarnada lhe permitisse chegar ao ponto desejado. Porém, com um raio não cai duas vezes no mesmo sítio, o Benfica acabou, justamente, com os três pontos.
Principal ilação que Marco Silva deve tirar? Há jogadores que precisam de uma cura de repouso, depois de um mês de agosto com sete jogos oficiais, uma violência que já está a passar fatura. Boa notícia da noite para o técnico encarnado? João Palhinha, em estilo veni, vidi, vici, pegou na batuta e, pela sua forma de atuar, que tanto dá para ser terceiro central como um seis que tem um alcance XL, irá permitir outras aventuras a quem jogar sob sua proteção. Uma nota para Sudakov: está melhor, mas não suficientemente melhor para ser o playmaker do Benfica à velocidade que Marco Silva quer que a sua equipa jogue. Vamos ver o que nos diz o fim do mercado e as opções de que o ex-treinador do Fulham passará a ter. Porque com a equipa a dar naturais sinais de pouca frescura, ou o plantel tem profundidade e qualidade, ou opções difíceis terão de ser feitas mais lá para a frente…