Fim da linha na Vuelta para Pogaçar
Fim da linha na Vuelta para Pogaçar

O peso da alma

Os valores do desporto, que continuam a emergir cada vez com menor frequência, persistem como faróis de esperança, e histórias que cruzam Pogacar, Mas, Ocaña, Merckx e Agostinho assim o provam. Os 21 gramas da alma devem valer mais do que os uns e os zeros da programação…

A queda feia, com consequências graves — abandono da Vuelta e cirurgia ao ombro — de Tadej Pogacar, um dos melhores desportistas de todos os tempos, lembrou-nos da imprudência que subjaz a dar seja o que for por adquirido. Há demasiadas pedras na estrada da vida, como a que fez cair o «ET» esloveno em Espanha, prontas a derrubar as expectativas mais legítimas e os sonhos que parecem ao alcance da mão. Pogacar, como grande campeão que é, irá recuperar e ouso até dizer que, para lá de querer ser o primeiro ciclista a vencer, legitimamente, o Tour por seis vezes, o triunfo na Vuelta passou a fazer parte das metas que tem para cumprir na vida.

No final da etapa, o novo líder, o espanhol Enric Mas, em respeito a Pogacar, recusou vestir a camisola vermelha, remetendo-nos para o já longínquo ano de 1971 quando Luis Ocaña, o espanhol de Mont-de-Marsan, que tinha Joaquim Agostinho como lugar-tenente, caiu num Tour em que era primeiro com sete minutos de vantagem sobre o campeoníssimo Merckx, no Col de Manté, desistindo da Grande Boucle. No dia seguinte, o «Canibal» belga recusou-se a vestir a camisola amarela, marcando, pelo respeito, a história da Volta a França. Dois anos volvidos, Luis Ocaña ganhou o Tour e, nas telas que Carlos Miranda pintava nas páginas de A BOLA durante as três semanas da maior prova ciclista do mundo, uma delas foi pincelada com as lágrimas de felicidade de Agostinho pelo triunfo do seu companheiro e amigo. Passaram-se onze anos; um cão, numa estrada algarvia, atravessou-se à frente de «Tino», e este não viria a resistir ao traumatismo que sofreu na cabeça, falecendo cerca de uma semana depois.

Luis Ocaña marcou presença no funeral, em Brejenjas, uma aldeia perto de Santa Cruz, em Torres Vedras. Porém, o espanhol chegou atrasado e, sem outro meio de locomoção para se dirigir ao cemitério, foi a casa de Agostinho e Ana Maria, pegou numa bicicleta e pedalou até à última morada do amigo, numa das mais belas histórias de fraternidade que o desporto nos deu. Vale a pena, creio, recordar, tendo o infortúnio de Tadej Pogacar como ponto de partida, a analogia entre as situações de líderes apeados por rasteiras do destino, transformadas, a seguir, em atos de respeito e amizade, que representam o que de melhor a vivência no desporto tem para nos dar, e que, ao mesmo tempo, oferecem momentos de inspiração à generalidade das pessoas.

Parece-me evidente que atravessamos uma crise de valores (ou se quisermos, uma nova forma de enquadrar valores que, a meu ver, não podem ter leituras distintas…) e que só nos fará bem recordar momentos significativos, que, como se viu com Enric Mas, fizeram escola. Quando vimos, nos Jogos de Tóquio, robôs que encestavam de meio-campo, ou, mais recentemente, outros que corriam mais rápido que Usain Bolt (uma metáfora, dizem, sobre o futuro próximo), são histórias como estas que ligam Pogačar, Mas, Ocaña, Merckx e Agostinho, profundamente humanas, que nos dão esperança de que o amanhã seja mais do que zeros e uns, e que um outro número, o 21, habitualmente atribuído, em gramas, ao peso da alma, prevaleça.

CARTAS

ÁS

Fernando Pimenta

Recente campeão do Mundo em K1000, em Poznan, já com 37 anos, e uma carreira que o torna no atleta mais medalhado de sempre na história da modalidade, o limiano que representa o Benfica é um dos maiores vultos da história do Desporto nacional. Portugal deve estar-lhe grato.

ÁS

Neemias Queta

Para alguém da minha geração, derrotar a Espanha, num jogo ‘a doer’, de basquetebol, não podia passar de ficção científica. Porém, há novos ventos que sopram na modalidade, e um efeito Queta, que se espera que venha a ser multiplicador, que permitiram este salto quântico, que se saúda. 

ÁS

Flávio Gonçalves

Rodrigo mora em Roma, Pote está sem endereço certo, Leão e Trincão fizeram ‘downgrades’ desportivos na carreira, o que podia preocupar os adeptos portugueses. Porém, quando surgem talentos puros como Flávio Gonçalves, o horizonte de esperança renova-se. Abençoada formação.

CAPA

Primeros testes de fogo superados, mas…

Gonçalo Ramos a fazer manchete na Gazzetta dello Sport, onde podem ser lidos elogios à forma como Ruben Amorim ‘mexeu’ no AC Milan na vitória caseira frente ao Veneza, com os ‘rossoneri’ a fazer o pleno na Serie A, são boas notícias. Porém, a procissão ainda está a sair do adro e a imprensa italiana não é propriamente conhecida pela coerência ou contenção: ou se é ótimo, ou péssimo, sem meio termo.

FOTOLEGENDA

FIORENTINA

Quem não percebe a relação interpessoal, passa muito ao lado de compreender a dinâmica de um balneário; e quem não atribui importância à força coletiva que aí é criada, não faz a mínima ideia da razão por que há equipas que funcionam e outras, não. No abraço entre Rui Costa e Gabriel Batistuta durante a celebração do centenário da Fiorentina ficou plasmada a razão do sucesso daquela dupla, que fez história na nação ‘viola’. O atual presidente do Benfica veio a trocar Florença por Milão; ‘Batigol’ ainda representou a Roma; mas foi na cidade dos Medici, onde se reencontraram, que a ‘química’ entre ambos detonou, e foi nas margens do Arno que foram  agora celebrados como heróis. 

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