As sapatilhas no atletismo e os fatos na natação
Qual a relação entre as supersapatilhas do atletismo que ajudaram a superar os recentes recordes na maratona e os superfatos da natação usados até 2010?
Ambos contribuíram para a revolução nos recordes mundiais nas respetivas modalidades.
A tecnologia tem permitido a evolução dos recordes mundiais sem que hoje ninguém coloque em causa a sua utilização no desporto de alto rendimento. Não vamos, em 2026, defender a utilização de varas de bambu (até 1957) e de pistas de cinza (até 1968) em vez de varas de carbono e pistas de material sintético em grandes competições internacionais no atletismo.
Todavia, muito está a mudar no desporto de elite e a tecnologia, promovida pelas marcas desportivas, encontra-se mais do que nunca no centro dessa mudança, influenciando de forma clara a superação de recordes mundiais com as federações desportivas a reagirem de forma diversa a essa inevitável evolução.
Se não, vejamos: na natação, a Federação internacional (World Aquatics, ex-FINA) proibiu esses superfatos em 2010 após uma chuva de recordes mundiais em 2008 e 2009.
No atletismo, as chamadas supersapatilhas continuam a ser utilizadas com os recordes mundiais na maratona a serem batidos por minutos e anunciados pela World Athletics (ex-IAAF) como feitos verdadeiramente do outro mundo.
Em comum: o rendimento, segundos os estudos publicados no portal PubMed, ou a revisão do desempenho por distâncias, na RunRepeat, mostram que as sapatilhas melhoram a economia de corrida em cerca de 2 a 4%. Na prática, isso traduz-se numa melhoria direta do rendimento (tempo de prova) de 1 a 3% na maratona. Esta melhoria de rendimento costuma representar uma vantagem de um a quatro minutos no tempo final para corredores de elite.
Já a utilização dos superfatos de poliuretano, segundo estudo publicado na ScienceDirect:
— Melhorou o rendimento dos nadadores entre 1,5 e 3,5%, em 2008, e até 5,5%, em 2009, representando um aumento de velocidade de cerca de 4%. Esta tecnologia reduziu a resistência na água em 24%.
— E o preço, pois as sapatilhas estão à hoje venda em Portugal por cerca de 500 euros e os fatos na época valiam esse mesmo valor.
A história dos 'superfatos'
Em 2008, novos fatos, feitos na maioria das vezes à base de poliuretano, alteraram o cenário competitivo com os nadadores a ganharem um impulso extra nunca antes experimentado. Nos Jogos Olímpicos de Pequim de 2008, foram batidos 25 recordes mundiais.
No ano seguinte, realizou-se o Mundial, em Roma. Mais recordes mundiais: desta vez foram 43. Aos poucos, no entanto, cresceu o debate em torno do quanto a tecnologia não estava a influenciar de forma errada as competições.
Numa mudança abrupta de opinião, o Congresso da FINA votou, quase unanimemente, no sentido de reverter a sua política anterior e proibir, a partir de 2010, todos os fatos que cobrem o corpo inteiro. A decisão foi tomada em Roma, a 24 de julho de 2009. A nova política estabelece que os fatos de banho masculinos podem cobrir, no máximo, a área da cintura até ao joelho, e os femininos, do ombro até ao joelho. Também foi determinado que o tecido deve ser têxtil (ou seja, tecido plano em vez de laminado).
Os polémicos fatos atingiram níveis elevados de contestação quando, em julho de 2009, o campeoníssimo Michael Phelps decidiu não competir mais até que entrasse em vigor a decisão da Federação Internacional de proibir os fatos em poliuretano.
'Supersapatilhas' por... 500 euros
Sabastian Sawe fixou o máximo na Maratona de Londres, em 2026, com umas Adidas Adizero Adios Pro Evo 3. Os especialistas são unânimes em considerar a tecnologia como um fator decisivo, mesmo considerando todos os outros aspetos legais, desde a qualidade extraordinária dos atletas, aos métodos de treino revolucionários, aos estágios em altitude, à nutrição, biomecânica e outros fatores.
As supersapatilhas que empurraram o queniano Sabastian Sawe, de 31 anos, para um impressionante tempo abaixo das duas horas na Maratona, em Londres, estão à venda em Portugal por 500 euros. Trata-se das Adidas Adizero Adios Pro Evo 3, que ajudaram o fundista a correr a mítica distância em recorde de 1.59.30 horas.
Sawe superou o recorde anterior em mais de um minuto, que pertencia desde 2023 a Kelvin Kiptum com 2.00.35 horas.
Os recordes mundiais da maratona são atualmente detidos com as Adidas Adizero Adios Pro Evo 3 já que, em femininos, a etíope Tigst Assefa fixou o recorde em 2.15.41 horas. A World Athletics reconhece recordes na categoria Women-Only (provas exclusivas para mulheres, sem lebres masculinas), sendo que o tempo mais rápido em prova mista pertence a Ruth Chepngetich (Quénia) na Maratona de Chicago, a 13/10/2024, com 2.09.57 horas.
Eis as caraterísticas principais:
— Peso Ultraleve: cada sapatilha pesa menos de 100 gramas e foi desenhada para diminuir o desperdício de energia e aumentar a impulsão.
—Tecnologia: incorporam uma combinação de espuma ultraleve (Lightstrike Pro) e placas de carbono.
O regulamento da World Athletics para sapatilhas de estrada (incluindo maratonas) exige que a sola não ultrapasse 40 milímetros de espessura e limita a utilização a apenas uma placa rígida (fibra de carbono).
O modelo utilizado em competição tem de estar disponível para compra no mercado geral há pelo menos quatro meses. Os protótipos são restritos.
Regras específicas para provas:
— Atletas de Elite. Em provas homologadas ou na disputa por prémios, os atletas só podem usar modelos que constem na lista oficial aprovada pela entidade reguladora.
— Atletas populares. Estão isentos desta fiscalização, podendo correr com sapatilhas que excedam os 40 milímetros ou contenham tecnologias protótipo.