Seleção apela para jogar o Mundial antes que o país... desapareça
A federação de futebol do Kiribati, uma pequena nação insular no Oceano Pacífico, lançou um apelo à comunidade internacional para conseguir estruturar-se e tentar a qualificação para o Campeonato do Mundo de 2030, em Portugal, Espanha e Marrocos. O país enfrenta a ameaça existencial de ser submerso pela subida do nível do mar, uma consequência direta da crise climática.
Numa corrida contra o tempo, a seleção local sonha em participar no maior torneio de futebol do mundo antes que o seu território desapareça. O Mundial 2030 é visto como a última oportunidade, uma vez que já não há tempo para tentar a qualificação para a edição de 2026.
O Kiribati é um arquipélago composto por 33 ilhas, das quais 21 são desabitadas. Localizado no meio do Pacífico, é uma das primeiras nações a celebrar o Ano Novo. No entanto, a sua beleza natural está em perigo, pois o ponto mais alto do país situa-se a apenas 81 metros acima do nível do mar. Segundo dados da ONU, as temperaturas dos mares na região estão a aumentar a um ritmo superior à média global, resultando em inundações, erosão do solo e deslocamentos forçados da população.
Para concretizar o sonho, a Federação de Futebol do Kiribati (KIFF) convidou dirigentes, treinadores e ex-jogadores de todo o mundo para ajudarem a desenvolver o desporto no país e a formar uma equipa técnica competitiva. O objetivo vai além do futebol: usar a visibilidade do desporto-rei para alertar o mundo sobre a crise climática que afeta as comunidades do Pacífico.
«Estamos a enfrentar um fantasma»
Eriati Reebo, presidente da federação, descreve a situação como dramática. «O aumento do nível do mar já está a afetar a vida quotidiana em Kiribati. Muitos campos estão localizados a apenas alguns metros do nível do mar. Estamos a enfrentar um fantasma», afirmou, acrescentando que «em Kiribati, o futebol é mais do que um desporto. É uma forma de a comunidade se manter conectada, partilhar uma causa, ter identidade».
Apesar de ser um país reconhecido pela ONU, o Kiribati não é membro da FIFA, o que o impede de disputar as eliminatórias para o Mundial. O processo de filiação é complexo e exige uma federação bem estruturada, competições internas, programas de desenvolvimento e infraestruturas adequadas, desafios significativos para uma nação com recursos limitados e geograficamente isolada.
A seleção nacional já existe, com a maioria dos jogadores a residir na capital, Tarawa, enquanto outros vivem no estrangeiro, em países como Fiji, Nova Zelândia e Austrália, para onde muitas famílias migraram. O projeto conta com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).
Objetivo é chamar a atenção
O presidente da KIFF sublinha a urgência da causa. «A ideia por trás do projeto é simples: começar uma conversa global. O objetivo é chamar a atenção para a urgência da realidade enfrentada por países como Kiribati», explicou Eriati Reebo. «O que acontece quando uma nação inteira desaparece, mas a sua população, cultura e sonhos ainda existem?», questionou.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) reconhece o potencial do futebol e de outras plataformas desportivas globais para aumentar a consciencialização sobre os riscos climáticos que afetam nações insulares vulneráveis como o Kiribati. Apesar de não existir um diálogo formal com a FIFA sobre o assunto, nem um projeto específico de futebol para o país, o PNUMA tem promovido campanhas que destacam o poder do desporto na mobilização para a ação climática.
Mirey Atallah, chefe do Departamento de Adaptação e Resiliência da Divisão de Mudanças Climáticas do PNUMA, sublinhou a importância destas plataformas. «Do ponto de vista do PNUMA, plataformas desportivas globais — incluindo o futebol — oferecem oportunidades importantes para ampliar a visibilidade dos riscos climáticos existenciais que atingem países vulneráveis como Kiribati, particularmente em relação à elevação do nível do mar, erosão costeira e degradação dos ecossistemas», comentou.
Para o Kiribati, as prioridades de adaptação à crise climática são claras e urgentes, incluindo a proteção costeira, a segurança hídrica, a garantia de meios de subsistência resilientes e a adaptação das infraestruturas aos futuros cenários climáticos. Entretanto, o processo de afiliação da federação de futebol das Ilhas Kiribati à FIFA permanece incerto. Contactada na passada sexta-feira para prestar esclarecimentos sobre o andamento do processo, a entidade máxima do futebol mundial ainda não deu qualquer resposta.