Jorge Jesus, 71 anos, é o sucessor de Roberto Martínez à frente da Seleção - Foto: Maycon Quiozini
Jorge Jesus, 71 anos, é o sucessor de Roberto Martínez à frente da Seleção - Foto: Maycon Quiozini

Do maior Mundial ao Portugal de Jorge Jesus

A Bola é redonda. O Verde é futuro é o espaço de opinião de Pedro Ângelo, CEO da NAV e sócio do Sporting Clube de Portugal

O maior Campeonato do Mundo de sempre terminou com a Espanha justamente coroada campeã e com uma primeira conclusão que não deve ser contaminada, nem pelo conservadorismo daqueles que resistem a qualquer mudança, nem pelo deslumbramento institucional de quem confunde o crescimento da competição com o progresso.

O alargamento a 48 seleções não destruiu o Mundial, não diminuiu a importância do título e não transformou a prova numa sucessão interminável de jogos sem interesse. Pelo contrário, trouxe mais países, mais geografias, mais multiculturalismo e uma representação mais próxima da dimensão verdadeiramente universal e democrática do futebol.

É também aqui que o alargamento encontra a sua melhor justificação: permitir que o Campeonato do Mundo pertença um pouco mais ao mundo, que outros povos deixem de assistir à festa pela televisão e passem a fazer parte integrante dela, que uma criança na Praia, em Willemstad ou em Tasquente possa ver a sua bandeira erguida no mesmo palco onde jogam os países que, durante décadas, monopolizaram o acesso às grandes competições. O mérito do novo formato não se deve resumir aos milhões de receita, está nessa democratização da esperança e do sonho.

Importa, porém, reconhecer que, numa fase de grupos em que 32 das 48 seleções seguiam em frente, houve encontros em que o risco de eliminação demorou demasiado tempo a tornar-se verdadeiramente presente. Houve jogos com notório desequilíbrio competitivo, deslocações longas e exigentes, jogos realizados sob temperaturas difíceis e pausas de hidratação que, em demasiadas ocasiões, serviram mais a finalidade comercial dos patrocinadores do que propriamente a preservar a integridade física dos jogadores, além de terem quebrado muitas vezes o ritmo do jogo e o ascendente de quem melhor jogava.

Ainda assim, este Mundial confirmou que é possível alargar sem desvirtuar, mas também mostrou que não há crescimento sem as inerentes consequências menos positivas. Compete agora à FIFA resistir à tentação de transformar o sucesso desta edição numa licença permanente para acrescentar equipas, jogos, fases e produtos comerciais. O futebol precisa de crescer, mas precisa igualmente de saber onde deve parar.

Portugal encerrou a sua participação no Campeonato do Mundo nos oitavos de final, com duas vitórias, dois empates e uma derrota, oito golos marcados e três sofridos. Os números são aparentemente equilibrados, mas escondem uma realidade menos confortável: cinco dos oito golos foram marcados no mesmo encontro, diante da frágil equipa do Uzbequistão, significando que Portugal marcou apenas três vezes nos restantes quatro jogos.

Ter sido eliminada pela margem mínima diante daquela que viria a ser campeã do mundo não constitui, no final da competição, uma vergonha ou uma demonstração de inferioridade estrutural. Mas chegar apenas aos oitavos de final, com a qualidade individual disponível e depois de a própria Federação ter assumido publicamente a candidatura à vitória final, representa um resultado aquém das expetativas criadas.

O fim do ciclo tornou-se, assim, compreensível e inevitável não porque tudo tivesse sido mal feito, mas por se ter consolidado a sensação de que Portugal tinha chegado ao limite daquilo que podia evoluir dentro de um modelo preconizado por Roberto Martínez, sem ter uma matriz de jogo trabalhada e consistente.

É neste contexto que surge a opção por Jorge Jesus, uma escolha reivindicada por muitos, entre os quais me incluo e que assumo sem reservas. Não somente por ser um treinador português, ou pelo currículo recheado de conquistas, fruto de uma carreira construída de baixo para cima, mas também porque representa exatamente aquilo que faltou demasiadas vezes à nossa Seleção: uma ideia de jogo própria, assumida e reconhecível, num futebol empolgante e atrativo que caracteriza as equipas por si orientadas.

Jorge Jesus não é um treinador que se limita a escolher os melhores jogadores e a esperar que o talento organize espontaneamente a equipa. É um verdadeiro líder de balneário e, sobretudo, um treinador de campo: da repetição, do posicionamento, da correção permanente, do trabalho minucioso e de uma atenção quase obsessiva com o detalhe. Pode apreciar-se mais ou menos a sua personalidade, a forma exuberante como comunica, ou a segurança quase absoluta com que defende as suas convicções, mas ninguém pode acusá-lo de chegar a uma equipa sem saber aquilo que pretende fazer dela.

Na apresentação, deixou duas mensagens essenciais. A primeira, expressa na divisa viemos para vencer, transportando para a realidade da Seleção Nacional a ambição que sempre o definiu. A segunda é, talvez até, mais importante: Portugal terá de jogar muito mais para poder ganhar e chegar à discussão das finais e dos títulos. Jorge Jesus afirmou que a equipa terá de «jogar o dobro», deixando claro que a sua ideia não será uma continuação disfarçada do modelo anterior.

É desta frontalidade e desse estilo genuíno que particularmente gosto, colocando sobre si mesmo a responsabilidade de acrescentar valor ao jogo da equipa, exponenciando os jogadores individual e coletivamente com o seu processo de treino.

Jorge Jesus é um treinador criador e de ideias novas, estando identificadas um conjunto delas atualmente praticadas e copiadas por outros treinadores. Podemos contar com uma identidade de jogo bem vincada, uma equipa mais vertical, mais intensa, muito bem trabalhada defensivamente, particularmente com as linhas compactas, os quatro defesas subidos, com um controlo da profundidade quase perfeito e a colocação dos adversários em situação de fora de jogo, menos tolerante com uma posse inofensiva, com maior entrada na área adversária e ainda uma organização ofensiva gizada não apenas para marcar golos, mas também para estar mais bem posicionada no momento da perda da bola.

Portugal não precisa que Jorge Jesus descubra novos jogadores, dispondo de um naipe alargado de jogadores talentosos, numa geração com a titularidade nos melhores clubes e campeonatos do mundo. É preciso, sim, dar sentido coletivo às individualidades, dotar a equipa de uma organização e uma identidade partilhada por todos, passando a ser uma seleção reconhecida por uma clara definição da ideia do seu jogo.

Jorge Jesus, aos 71 anos, confessou estar mais tolerante do que no passado. Talvez esteja precisamente aí a chave do seu sucesso: conservar a obsessão tática, a exigência no treino e a ousadia das suas ideias, juntando-lhes a serenidade necessária para gerir jogadores de estatuto mundial, com personalidades fortes e egos inevitáveis, num balneário onde a liderança não pode ser exercida da mesma forma com todos, ainda que as regras devam valer por igual.

PS: Cristiano Ronaldo tem o direito exclusivo de escolher o quando e como abandonará a nossa Seleção, num diálogo leal com o novo selecionador. Merece o máximo respeito, sendo como escrevi no passado o símbolo maior do nosso futebol e a bandeira em pessoa do nosso país pelo mundo fora.

O Portugal-País de Gales, no próximo dia 24 de setembro, no Estádio José Alvalade, seria o palco perfeito para se despedir, no estádio do clube que o lançou para o futebol e perante os portugueses que tanto o admiram e acarinham. E é precisamente por a Seleção ter tanto a perder com a sua saída que o adeus deve estar à altura de tudo aquilo que Portugal ganhou com Cristiano Ronaldo.

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