Rui Borges, deixe os feitos falarem por si. Nada incomoda mais quem não gosta de si — Foto: IMAGO
Rui Borges, deixe os feitos falarem por si. Nada incomoda mais quem não gosta de si — Foto: IMAGO

Se achas Lisboa grande

Abomino que se bata em Rui Borges por ser um transmontano que gosta de tascas… Se isso for critério, batam-me a mim também… Eu sou o Jorge Pessoa e Silva e esta é a crónica semanal do Livro do Desassossego

Independentemente do que tivesse acontecido no SportingBodo/Glimt, já tinha decidido que escreveria sobre Rui Borges. Provocam-me urticária algumas das críticas que lhe têm sido dirigidas. Não está em causa o legítimo direito à discordância quanto ao modelo de jogo, treino ou liderança. Está em causa a natureza de certas opiniões que, ainda que revestidas de linguagem técnica, deixam transparecer um incómodo mais profundo — quase pessoal — com aquilo que Rui Borges é. Por fazer gala de ser de Trás-os-Montes; por falar na estrelinha do avô; por o fato e gravata não lhe assentarem bem; por não utilizar palavras caras; pela voz; por gostar de comer em tascas; por beber uns copos de tinto na taberna… Críticas com um traço de elitismo incómodo, como se a competência tivesse um código estético…

A semana passada, o antigo presidente da Assembleia Geral do Sporting, Jaime Marta Soares, acusou Rui Borges de não ter estatuto para treinar o Sporting porque a equipa perdeu 3-0 na Noruega… Só se esqueceu de explicar como raio é que o Sporting ficou no sétimo lugar na fase de liga e conseguiu o apuramento direto para os oitavos da Champions; como é que, tendo chegado a Alvalade em profunda ressaca pela saída de Amorim, guiou a equipa ao título e venceu a Taça; como teve a humildade e sapiência para ouvir os jogadores, abrindo mão das suas ideias originais em nome da eficácia e do conforto da equipa; como, vencendo, mudou a identidade leonina e a tornou na melhor equipa com bola; e, agora, como explicar os 5-0 de terça-feira?

Com pedido de licença ao Alentejo, canto que «se acham Lisboa grande… Trás-os-Montes ainda é maior». Rui Borges chegou a Alvalade com o espírito de missão das segadas. Ceifando os cereais já maduros, juntando-os em gavelas, deixando-os a secar até serem malhados. Daqui até ao pão, mais um passo, num processo que exige tempo, esforço e arte. Amor. Feito em comunidade. Temperado com as sopas das segadas e outras iguarias, porque saco vazio não se aguenta em pé. E nem é difícil imaginar o Rancho Folclórico de São Tiago a juntar-se à tradição.

E gostando eu de ambas as situações, prefiro juntar-me a Rui Borges nas segadas ou malhadas em Mirandela, dividindo o pão e enchidos com a mão e bebendo de uma malga de tinto, do que uma taça de Sauvignon Blanc e um prato de vieiras numa mesa chique… Para retribuir a gentileza, levava Rui Borges a minha casa, em Terras de Bouro, comer um bacalhau com broa de milho de levar às lágrimas, bem regado com… verde.

Se o Sporting tivesse vencido 1-0 na Noruega e 1-0 em Alvalade, não teria entrado na história. Lição de vida: onde alguns viram fracasso, outros viram oportunidade de transcendência. O Sporting que saiu ontem de Alvalade ficou ainda mais forte, confiante e solidário. Daquelas noites que serão contadas de pais para filhos, com o orgulho do «eu estive lá».

A concluir, uma mensagem para Rui Borges: no final, deveria ter evitado as farpas a jornalistas e críticos. Eu sei que o Rui é filho de boa gente. E sente-se. Mas não havia resposta mais ensurdecedora do que os ecos de uma noite histórica. O resto foi ruído desnecessário. E o ruído dissipa-se mais depressa do que os feitos. Deixe os feitos falarem por si. Nada incomoda mais quem não gosta de si. Fale apenas para a grande maioria que gosta de si.