Andreas Schjelderup - Foto: IMAGO
Andreas Schjelderup - Foto: IMAGO

Schjelderup quebra o silêncio: «Senti que a minha vida tinha acabado»

Extremo norueguês fala pela primeira vez da condenação judicial, de como lidou com tudo, de quem o ajudou. E também da ascensão no Benfica e da influência de Mourinho, «uma lenda» como treinador

Andreas Schjelderup falou pela primeira vez da condenação que o atormentou durante meses, um período em que viveu entre o céu e o inferno, desde a glória no Mundial de Clubes até ao segredo que guardou da própria família.

Quase nove meses após ter sido condenado a 14 dias de pena suspensa por um tribunal de Copenhaga por partilhar vídeo com conteúdo sexual envolvendo menores, o extremo norueguês de 21 anos decidiu falar do assunto, em entrevista à TV2 da Noruega.

O momento mais negro coincidiu, paradoxalmente, com um grande momento da carreira. No dia 23 de junho de 2025, recebeu um telefonema que o abalou profundamente. «Senti que a minha vida tinha acabado», confessa, referindo-se a contacto da polícia dinamarquesa. No dia seguinte, tornou-se o herói do Benfica ao garantir a vitória sobre o Bayern no Mundial de Clubes.

Enquanto os familiares mais próximos lhe ligavam para o felicitar, Schjelderup escondia o seu tormento. «Foi absolutamente horrível», recorda. Durante meses, manteve em segredo o que se passava na sua mente. «Foi uma situação incrivelmente estranha. Não sabia o que fazer», admite o extremo, descrevendo a montanha-russa de emoções que sentiu em poucas horas.

Atualmente, sob o comando de José Mourinho, Schjelderup é uma das figuras do Benfica, tendo recebido recentemente o prémio de revelação do ano no clube. Já conquistou os adeptos

Melhor dia da vida

A transformação do norueguês tem sido notável. «É um pouco surreal como as coisas mudaram nos últimos meses», afirma sobre o sucesso que está a viver. Em janeiro, pensava que estava de saída do clube, mas uma exibição de gala contra o Real Madrid, na qual marcou dois golos numa vitória por 4-2, mudou tudo. «Se o que falámos no início foi o meu pior dia, então esse foi provavelmente o melhor dia da minha vida», revela, radiante.

Desde então, o extremo não mais olhou para trás, tornando-se a nova coqueluche da Luz. O Barcelona esteve recentemente a observá-lo. «Não sabia disso, mas é fantástico se for verdade», comentou.

Sobre o caso judicial, Schjelderup mostra-se desconfortável, mas assume a responsabilidade. «É um assunto do qual não me orgulho», diz. O erro, que descreve como uma «hemorragia cerebral», foi cometido há mais de dois anos. «Infelizmente, cometi um erro. Cumpri a minha pena e assumi total responsabilidade por isso», declarou.

Início difícil no Benfica

A adaptação ao Benfica, com poucos minutos de jogo e um sentimento de solidão. «Admito que foi um pouco duro. Quando és vendido aos 18 anos, tens grandes sonhos e pensas que as coisas vão acontecer rapidamente», explica. Um empréstimo ao seu antigo clube na Dinamarca, em setembro, ajudou a relançar a sua carreira, mas foi também nesse país, em maio do ano seguinte, que cometeu o erro que diz lamentar para o resto da vida, relacionado com uma partilha num grupo de Snapchat com amigos.

Schjelderup, jogador do Benfica, foi condenado a uma pena de prisão suspensa por ter partilhado um vídeo de 27 segundos com conteúdo sexual envolvendo menores. O jovem de 21 anos explicou que o ato foi irrefletido e que não se apercebeu da gravidade da situação no momento.

«Recebi um vídeo e reenviei-o antes de realmente perceber a gravidade do assunto», afirmou . O tribunal aceitou a sua explicação de que a partilha ocorreu por «um momento de irreflexão» e «algum tipo de humor», sem qualquer motivação sexual. Ainda assim, foi condenado.

O procurador do caso descreveu a ação como um «cartão amarelo», sublinhando que, apesar da ausência de intenção sexual, o crime é grave por envolver menores de 18 anos. Schjelderup, por sua vez, aceitou a sentença. «Aceitei-a e cumpri a minha pena», declarou, acrescentando que não quer que sintam pena dele: «Cometi um erro e tenho de ser responsável por isso».

O caso teve origem quando um filtro de inteligência artificial do Snapchat detetou e denunciou o vídeo, apesar de Schjelderup o ter apagado imediatamente. Durante quase um ano, o jogador não pensou mais no assunto, até que foi contactado pela polícia um dia antes de um jogo contra o Bayern. Aos 20 anos, foi informado de que seria alvo de uma acusação. «Fiquei em choque», confessou.

«Naquele momento, pensas que a vida acabou»

Inicialmente, Schjelderup guardou o assunto para si, nem sequer o partilhando com o pai, que sempre o acompanhou de perto na carreira. «Senti que foi um erro que eu próprio cometi e que queria corrigir sozinho», explicou. Descreveu os meses que se seguiram como um «período incrivelmente difícil», no qual sentiu que o seu «mundo desabou». «Naquele momento, pensas que a tua vida acabou», recordou.

Apenas em setembro do ano passado, poucos dias antes de o caso se tornar público, é que o jogador partilhou a situação com os seus familiares mais próximos. A notícia foi divulgada por jornalistas noruegueses, apesar de o caso estar sob sigilo na Dinamarca. Perante a ameaça da divulgação, Schjelderup decidiu antecipar-se e publicou um pedido de desculpas no Instagram.

O caso gerou enorme controvérsia na Noruega, com algumas vozes, como a da comentadora desportiva Mina Finstad Berg, a defenderem o seu afastamento da seleção nacional. Ao chegar à concentração da equipa, foi recebido por dezenas de jornalistas, mas conseguiu ser levado discretamente para o hotel, onde explicou a situação a colegas como Martin Odegaard e Erling Braut Haaland. «Não foi nada divertido. Era um dos mais novos da equipa e bastante recente», admitiu.

Apesar do momento difícil, Schjelderup expressou a sua gratidão pelo apoio recebido do Benfica, de José Mourinho, da seleção, do selecionador Stale Solbakken e, especialmente, da sua família. «O meu pai tem sido um dos meus maiores apoios e ajudou-me a encontrar a calma. Tanto ele como o resto da família têm sido muito bons para mim», concluiu.

Mourinho: «Uma lenda»

Um dos motivos é a influência de José Mourinho, que lhe exigiu um maior contributo defensivo. «Uma lenda como treinador, com quem aprendi imenso», elogiou Schjelderup. Outro fator, que o próprio admite ter subestimado, foi o impacto do processo judicial. «Provavelmente, passei por um mau bocado e, depois de tudo o que aconteceu, talvez tenha precisado de mais tempo do que pensava para deixar isso para trás», confessou.

Atualmente, o jogador sente-se num bom momento pessoal. A viver em Lisboa, recebe frequentemente a visita de amigos da Noruega, o que lhe permite recuperar alguma normalidade. «Agora posso ser um jovem-adulto outra vez. Estou num lugar muito bom fora de campo», explicou.

Para se distrair, o jovem futebolista dedica-se a passatempos com os amigos. «Normalmente é videojogos, jogos de cartas e coisas do género. Muitas competições. Hoje montámos uma mesa de pingue-pongue, por isso vamos ter como passar o tempo», concluiu.