Famalicão fez história na Pedreira ao carimbar passagem à 'final four' da Taça da Liga - Foto: Hugo Delgado/Lusa
Famalicão fez história na Pedreira ao carimbar passagem à 'final four' da Taça da Liga - Foto: Hugo Delgado/Lusa

São Gabriel antecipou-se ao Dia de Todos os Santos (crónica)

Guarda-redes foi ás de trunfo para o Famalicão garantir presença inédita na 'final four'. Agravou-se crise de resultados do SC Braga (falha um objetivo da época). No domingo há o 'round' 2, a contar para a Liga

A Pedreira foi palco de um feito histórico, com o Famalicão a garantir presença na final four da Allianz Cup pela primeira vez, afastando o SC Braga, que já conquistou a troféu por três vezes, no desempate por grandes penalidades, após um emotivo e tático empate a dois golos nos 90 minutos.

Num ambiente de enorme pressão para os bracarenses, que trazia na bagagem o peso de três derrotas consecutivas na Liga, a equipa de Franclim Carvalho tentou assumir o controlo das operações desde o apito inicial, mas foi traída pela própria ansiedade e pela astúcia do plano desenhado pelo técnico interino famalicense, Ricardo Silva.

Aos 16 minutos, explorando com precisão cirúrgica o adiantamento e a intranquilidade dos arsenalistas, os visitantes inauguraram o marcador por intermédio de Koutsias, que finalizou com frieza uma transição rápida, depois de um erro de Arrey-Mbi, que colocou a bola para trás, sem olhar, no pés de Peña que serviu. O golo abalou ainda mais a estrutura do SC Braga, que continuou a demonstrar evidentes dificuldades de ligação e uma gritante falta de criatividade no último terço do terreno.

Valeu aos minhotos a alma e a liderança do capitão Ricardo Horta que, aos 37', assumiu a responsabilidade de converter uma grande penalidade — Tiknaz rematou e Koutsias cortou a bola com o braço — e restabeleceu a igualdade no marcador, devolvendo alguma esperança aos adeptos.

Contudo, quando se esperava que os bracarenses estabilizassem as linhas e partissem para a reviravolta antes do descanso, um novo erro defensivo — falta de Bernardo Fontes sobre Pedro Santos — comprometeu a estratégia caseira e resultou num castigo máximo favorável aos visitantes. Já nos descontos da etapa inicial, Koutsias não vacilou a partir da marca dos onze metros, bisou na partida e gelou a Pedreira.

No reatamento, Franclim Carvalho operou mexidas na tentativa de conferir maior solidez defensiva e refrescar o setor ofensivo, mas o SC Braga, apesar do domínio territorial que impôs, esbarrou consecutivamente na excelente organização e coesão do bloco famalicense. À medida que o relógio avançava, o fantasma da eliminação parecia consumado e os adeptos desesperavam face ao desacerto na definição das jogadas.

Foi já em cima do minuto 90 que o videoárbitro confirmou infração na área, após Cabral ter errado numa saída, atingindo Wind com os punhos, e, na cobrança de novo penálti, Ricardo Horta voltou a demonstrar nervos de aço para carimbar o 2-2 final, resgatando a equipa do abismo no último suspiro do tempo regulamentar.

A decisão foi, então, remetida para a lotaria dos penáltis, onde o estreante Gabriel Cabral foi rei, ao defender os remates de Horta, Wind e Dorgeles.

Do lado do Famalicão, Sorriso, Szucs e Paulo Moreira marcaram (Gil Dias viu Fontes defender e Peña acertou no travessão). Este desfecho premeia o pragmatismo e a audácia tática de um Famalicão rejuvenescido, agravando a crise de resultados e a instabilidade emocional do SC Braga.

A figura: Ricardo Horta

O capitão voltou a ser exemplo e foi dos seus pés que o SC Braga conseguiu levar o jogo para o desempate por penáltis, depois de também ter faturado no primeiro tempo. Vacilou no terceiro duelo com Gabriel Cabral, é verdade, mas os colegas (com exceção de Moutinho) não fizeram melhor na hora H. O número 21 atingiu a marca redonda dos 10 golos na Taça da Liga, igualando Josué, Jackson Martínez e Moussa Marega na quarta posição de melhores marcadores da história da competição.

Bernardo Fontes estaria à espera de ter mais trabalho no primeiro tempo, mas não deixou de estar em evidência… pelos piores motivos. Depois de sofrer o primeiro de Koutsias, num lance em que pouco ou nada podia fazer, o brasileiro abriu porta a nova vantagem famalicense, ao derrubar Pedro Santos na área. Perdeu novamente no duelo cara a cara com o goleador adversário. Fez um par de boas defesas no arranque da segunda parte e ainda travou o tiro de Gil Dias a abrir o derradeiro desempate, dando esperança aos guerreiros do Minho.

Não foi uma noite feliz para o trio de centrais escalado por Franclim Carvalho. Sergio Barcia e Gustaf Lagerbielke foram amarelados e ficaram condicionados desde muito cedo e Arrey-Mbi teve responsabilidades diretas no primeiro do desafio, ao perder a bola em zona proibida.

Víctor Gómez foi dos mais inconformados dos homens da casa e conseguiu algumas incursões perigosas à direita, embora sem acerto no passe final; na asa oposta, uma exibição cinzenta de Gabri Martínez levou-o a sair aos 63’. Demir Tiknaz e João Moutinho equilibraram o miolo, com o turco a destacar-se também no último terço — somou dois passes decisivos e criou uma grande oportunidade.

Na frente, a dupla espanhola composta por Pau Víctor e Fran Navarro foi perdulária e levou os adeptos arsenalistas ao desespero. Do banco saltaram o irreverente (e estreante) Flinto Costa, que causou mossa no corredor esquerdo, e Jonas Wind, decisivo no 2-2 — ganhou a falta na área que permitiu a Horta assinar o tento do empate —, mas incapaz de converter com sucesso a grande penalidade no desempate.

As notas dos jogadores do SC Braga:
Bernardo Fontes (5); Gustaf Lagebielke (4), Segio Barcia (4), Arrey Mbi (4); Víctor Gómez (5), Demir Tiknaz (5), João Moutinho (5), Gabri Martínez (4); Ricardo Horta (7); Pau Víctor (5) e Fran Navarro (4). Adrian Barisic (5), Diogo Travassos (5), Flinto Costa (5), Jonas Wind (6) e Mario Dorgeles (5).

O melhor em campo: Gabriel Cabral

Em estreia absoluta na equipa principal do emblema de Vila Nova, onde chegou há dois anos para reforçar os sub-23, Gabriel Cabral demonstrou estar preparado para competir ao mais alto nível. Colecionou intervenções de elevada exigência ao longo do tempo regulamentar e vestiu a capa de herói no desempate por grandes penalidades, depois de ter borrado a pintura ao cair do pano. Foi gigante ao travar três das quatro tentativas bracarenses. Mostrou ser séria competição para Carevic e Zlobin e ficará na história como grande obreiro da primeira qualificação de sempre do clube para a final four da Taça da Liga.

A tremenda solidez e o espírito combativo da dupla de centrais constituída por Victor Rofino e Léo Realpe foram ingredientes fundamentais para o sucesso dos famalicenses no dérbi minhoto. Os dois formaram uma muralha que o SC Braga teve muitas dificuldades em quebrar. Pedro Bondo, à esquerda, e Rodrigo Pinheiro, no lado direito, também foram solidários e conferiram profundidade q.b.

Mathias de Amorim estava a ser importante no setor intermédio antes do infortúnio da lesão, a meio da primeira parte. Paulo Moreira, o eleito para render o internacional sub-21 luso, deu uma boa resposta e foi do seu pé que saiu o remate decisivo, carimbando o apuramento histórico. Atuou ao lado de Marcos Peña, que assinou uma assistência soberba para o tento inaugural e cujas pilhas duraram os 90 minutos. Pedro Santos demonstrou a habitual qualidade com bola e Aranda saiu exausto para dar lugar a Sorriso.

Contratado no último mercado de transferências aos suíços do Lugano, Georgios Koutsias tem justificado plenamente a aposta, não fosse o maior artilheiro dos famalicenses de forma destacada — leva sete golos na temporada em curso, mais cinco do que qualquer outro colega (Aranda e Sorriso somam dois cada). Adicionou dois tentos à conta pessoal na Pedreira, o primeiro dos quais de belo efeito, mas também ficou ligado ao primeiro dos bracarenses: cometeu penálti ao tocar na bola com o braço perto da linha de baliza. Foi rendido pouco depois da hora de jogo por Umar Abubakar, dianteiro nigeriano que permitiu esticar o jogo e refrescar as ideias na frente.

Franclim Carvalho (treinador do SC Braga)

Um jogo em que fomos melhores, criámos muitas oportunidades, mas não concretizámos. O prémio de homem do jogo foi para o guarda-redes adversário. Tivemos uma crença que quero para a minha equipa. Custa, era um objetivo nosso estar na 'final four', queremos conquistar títulos, estar nas decisões, falhámos esse objetivo. A equipa deu sinais que me agradaram, sinceramente. Tivemos muitas oportunidades, jogámos com mais rapidez, não fomos eficazes nos noventa e nos penáltis também não. Cometemos alguns erros defensivos, os homens do equilíbrio estavam a chegar tarde. Amanhã temos de chegar à academia chateados e abatidos, mas domingo há mais e temos de trabalhar.

Ricardo Silva (treinador do Famalicão)

«Uma primeira parte muito competente da nossa equipa, esclarecidos, a fazer o que tínhamos proposto fazer. Na segunda parte o SC Braga empurrou um pouco para trás e tivemos dificuldades em suster esse momento Braga. Acabámos a sofrer um pouco, o SC Braga chega à empate no final, mas os penáltis trouxeram justiça ao que os nossos jogadores mereciam. É um prémio merecido para o Famalicão. Não só para os jogadores, mas para as suas gentes. Futuro? O que tenho dito, de forma genuína, o tempo vai trazer respostas. O que tiver de ser será. Se me perguntassem se alguma vez imaginaria estar nesta posição, nunca imaginei, foi a vida que assim quis.

Atualizado às 22h13.

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