Jota Lopes podia ter dado o salto dentro de Portugal, mas sente que não há a aposta devida nos jovens

Saiu do Campeonato de Portugal para ser estrela e salvar um campeão da Bulgária

Jota Lopes conta, em entrevista A BOLA, por que razão tomou a feliz decisão de trocar o sossego do seu país pela incerteza do leste europeu. Não foi nada difícil, confessa: «Em Portugal, as equipas preferem apostar em estrangeiros do que em jovens portugueses»

Destino Aventura é a rubrica em que A BOLA dá a conhecer os jogadores espalhados pelos cantos mais remotos do mundo.

— Quem é o aventureiro Jota Lopes?

— Dentro e fora do futebol, sou tranquilo, alegre, trabalhador e sonho em grande. 

— Como começou o seu percurso no futebol?

— Comecei a jogar com cinco anos no Gil Vicente e fiquei até aos nove. Seguiram-se três anos nas escolas do Benfica, em Braga, até ir para o SC Braga, onde fiz a maior parte da minha formação e joguei contra jogadores que hoje jogam na elite do futebol mundial, como o Vitinha, Gonçalo Ramos, Alexandre Penetra, que depois acabou por jogar comigo no Famalicão... 

— No Famalicão fez a transição para sénior, jogou na Liga Revelação e depois foi para o Maria da Fonte. Como foi o percurso, a partir daí?

— No último ano de contrato com o Famalicão, depois de ter feito duas pré-épocas com a equipa principal, deixei de fazer parte do projeto do clube e procurei novas oportunidades. O Maria da Fonte confiou em mim e era o que precisava. Consegui fazer uma boa meia época e surgiu a oportunidade do Fontinhas na Liga 3, em fevereiro de 2023, no final do mercado. Depois de quatro jogos, tive o momento mais difícil da carreira: estava muito bem, cheguei e fiz logo com uma assistência, no segundo jogo marquei golo, ganhei a titularidade, até que, antes de uma partida em que ia ser titular novamente, rompi o menisco e os ligamentos, no último lance do treino. Foi duro, pensei em desistir do futebol. Estive parado nove meses. Psicologicamente, fui abaixo, mas ainda tinha o sonho de fazer algo mais e consegui superar.

— Depois no Salgueiros recuperou a forma…

— Sim, faço duas épocas boas no Salgueiros e, no início de 2025/26, surgiu o Vila Meã, numa história engraçada, em que antes tinha tido várias propostas do Campeonato de Portugal e até algumas abordagens da Liga 3… No entanto, tinha ido para uma experiência na Roménia. Ia ingressar no futebol romeno, mas as coisas não correram bem e voltei...

Jota Lopes teve uma curta, mas marcante passagem pelo Vila Meã

— Para que clube ia, na Roménia?

— Fiz um teste para vários clubes e havia interessados da segunda e primeira divisões. Porém, como nada estava definido, decidi voltar a Portugal. Podia ainda surgir qualquer coisa lá, mas decidi não aguardar e fui para o Vila Meã. Há uma pessoa que me marca muito nesta fase, que é o mister Pedro Campos. Ligou-me durante três semanas seguidas, senti muita vontade de me ter no clube e arrisquei. Foi a melhor decisão que podia ter tomado.

— Como surge, então, a oportunidade de ir para a Bulgária?

— No Vila Meã, correu muito bem, consegui ter o destaque que precisava. Fizemos uma boa campanha na Taça de Portugal, estávamos em terceiro lugar, com uma equipa que tinha acabado de ser repescada das distritais da AF Porto. O meu empresário já tinha um jogador na Bulgária, o Berna Couto… Também estava no Spartak Varna, mas transferiu-se em janeiro para o CSKA 1948. O clube estava à procura de novos jogadores, o empresário referenciou-me, eles gostaram e contrataram-me. No dia 31 de dezembro, quase na passagem de ano, recebi a chamada e decidi fazer as malas para a Bulgária. Cheguei no dia 5 de janeiro, na pior altura, do frio [risos].

— Hesitou em ir?

— Não. Eu sabia que, provavelmente, com a época que estava a fazer no Vila Meã, poderia dar o salto dentro de Portugal. No entanto, sinto que se dão poucas oportunidades aos jovens portugueses. Deviam jogar mais, por exemplo, na Liga 2, que tem poucos jovens portugueses e muitos estrangeiros. Acho que temos bastante qualidade, já provámos isso. Já estava mentalizado que era melhor procurar uma oportunidade fora, por ser mais vantajoso nesta fase da minha carreira. Além disso, jogar numa primeira liga é sempre diferente do que jogar na Liga 3. 

— Vai para o Spartak Varna, uma equipa que já foi campeã na Bulgária [1932]. Como foi recebido?

— Foi melhor do que estava à espera, o clube recebeu-me super bem. Havia três brasileiros e é muito mais fácil quando tens pessoas da tua língua a ajudar-te. Mas mesmo as pessoas do clube acarinharam-me bastante. Até tenho uma história engraçada, em que o roupeiro, quando cheguei, simpatizou comigo e entregou-me a camisola 10, dizendo-me que eu tinha de ser o número 10. 

— Foi o roupeiro que escolheu a sua camisola 10?

— Eu ia escolher o número e ele disse que a camisola 10 estava livre e que tinha de ser eu.

— Já tinha falado com ele ou foi simpatia à primeira vista?

— Não, nunca tinha falado com ele. Foi do nada.

— Saltando uns meses, teve visitas especiais num jogo de máxima importância…

— Sim, dois amigos vieram ver o jogo em que garantimos a manutenção e dizem que é uma experiência que nunca mais vão esquecer na vida.

O histórico Spartak Varna logrou a manutenção no último jogo da liga. Jota Lopes viveu um momento para nunca mais esquecer - Foto: D.R.

— Como foi esse jogo? Conseguiram a manutenção já depois do apito final, a depender de outros jogos…

— Antes do jogo, sentia-se aquela tensão... Achava que, pelo menos, ao play-off íamos chegar, porque acreditava que uma das outras equipas ia perder pontos. Porém, nunca pensei que as duas fossem perdê-los. O jogo começou, marcámos um golo cedo, mas os adeptos não paravam de festejar e percebemos que estavam a celebrar golos de outros jogos. Foi uma sensação inexplicável, porque não sabia o que se passa ao certo. O Septemvri conseguiu manter-se no play-off, mas ao intervalo estava a ganhar ao Dobrudja por 1-0 e mantinha-se na primeira liga e nós íamos ao play-off porque o Beroe estava a perder com o Botev Vratsa. Nisto, o Septemvri Sofia sofreu o 1-1 e depois houve um penálti a acabar e o jogador, na recarga, falhou de baliza aberta.

— E vocês estavam a ver isso? 

— Esse momento não, ainda foi durante o nosso jogo, mas percebemos qualquer coisa pela reação dos adeptos. Conseguimos ver os últimos cinco minutos, em que achei que o meu coração ia parar... Os adeptos juntaram-se ao relvado e estávamos todos a ver o outro jogo no telemóvel.

Jota Lopes destacou-se na Bulgária e ganhou o carinho dos adeptos - Foto: Spartak Varna

— Desde que chegou, fez 18 jogos, 17 deles a titular. Que importância teve nesse objetivo da manutenção?

— Fui importante para a equipa. Adaptei-me facilmente e consegui ser logo titular. Não esperava, mas a pré-época de inverno correu bem e tive essa oportunidade. Consegui fazer um primeiro jogo bastante bom. Foi uma experiência incrível, jogámos para cinco ou seis mil adeptos contra o nosso maior rival na cidade, o Cherno More. Vivi logo essa experiência intensa no primeiro jogo. No segundo, marquei o meu primeiro golo. No terceiro, voltei a marcar e a dar pontos importantes. Mas não foi só pela parte dos golos, acho que consegui ajudar a equipa, no geral.

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