Sabe porque os argentinos atiram papelitos para o relvado?

Mais de 40 toneladas foram lançadas antes do início do River-Boca deste domingo

O Monumental de Núñez foi ontem palco de um daqueles rituais que transcendem o simples apito inicial de um Superclásico. Durante dez minutos ininterruptos, uma neve branca e densa cobriu o relvado e as bancadas, fruto do lançamento de mais de 40 toneladas de papel. que atrasaram o início do duelo entre o River Plate e o Boca Juniors.

O espetáculo visual, embora muitas vezes alvo de sanções por parte de organismos como a CONMEBOL devido a normas de segurança e visibilidade (como as estabelecidas no seu Regulamento de Segurança de 2019), é, na verdade, a manifestação viva de uma história de resistência e identidade cultural que o jornalista de A BOLA Luís Mateus detalha minuciosamente na sua obra «O Campeonato do Mundo» (Kathartika, 2022).

Segundo o autor, o costume de inundar os campos com os chamados papelitos remonta aos anos 60, num jogo entre o Banfield e o Quilmes, quando os adeptos deste último decidiram levar etiquetas velhas da cerveja Quilmes para o estádio adversário. O sucesso do gesto foi tão retumbante que a própria empresa ofereceu 90 milhões de etiquetas à hinchada para serem espalhadas por todos os recintos, enraizando um hábito que também bebia da tradição urbana do centro financeiro de Buenos Aires, onde, no último dia útil do ano, os trabalhadores se despediam da burocracia atirando agendas e rolos de calculadoras pelas janelas dos escritórios.

Contudo, o que vimos ontem no Monumental — onde o Boca Juniors acabou por vencer por 1-0 com um golo de Leandro Paredes — carrega um peso político que Luís Mateus resgata do Mundial de 1978. Naquela época, sob o jugo de uma ditadura militar, os generais tentaram proibir o lançamento de papéis para projetar uma imagem de «rigor e asseio» ao mundo. O regime contou com o apoio do influente locutor José María Muñoz, que utilizava os microfones da rádio para alertar, de forma quase alarmista, para o perigo de lesões nos jogadores. Em resposta, como documenta o arquivo histórico do portal argentino papelitos.com.ar, surgiu uma das maiores campanhas de desobediência civil da história do desporto: o cartoonista Caloi utilizou a sua personagem mais famosa, o Clemente, para incitar o povo com a frase «Atirem papelitos, rapazes!».

O braço de ferro entre a cultura popular e o autoritarismo só foi vencido quando o então presidente da FIFA, João Havelange, desautorizou os militares ao classificar a prática como «pitoresca e inofensiva» para o jogo. Assim, ao assistirmos à imensa nuvem branca que ontem parou o futebol argentino por dez minutos, não estamos apenas perante um atraso logístico ou um excesso de entusiasmo, mas sim perante a celebração de uma vitória histórica do povo sobre a censura, provando que, no Monumental, o papel continua a ser a arma mais festiva da liberdade.