Rui Rodrigues: «O mais fácil era ir embora, mas houve coragem»
Em entrevista a A BOLA, Rui Rodrigues, candidato às eleições do Vitória de Guimarães e vice-presidente demissionário para a área financeira, recusou ser um candidato de continuidade e detalhou o que pode fazer de diferente.
- Quando decidiu avançar com a candidatura e porquê?
- A partir do momento em que o presidente António Miguel Cardoso pediu a demissão e assumiu que não se recandidatava, começaram a surgir algumas forças que me levaram à candidatura e achei que deveria avançar, assumindo as minhas responsabilidades.
- Antes da entrevista, dizia que era preciso coragem. Porquê?
- Coragem porque faço parte da direção em funções, sobre a qual tem havido uma pressão muito grande, sobretudo sobre aquilo que é a parte financeira pela qual sou responsável. O mais fácil era eu no dia 13 ir embora, mas acho que esta coragem de querer assumir quer dizer muita coisa.
O futuro constrói-se com pessoas
- Qual é a sua grande proposta?
- A minha grande proposta parte muito daquilo que é o futuro. E Conquistar o Futuro [o mote da sua campanha] não significa apenas crescer desportiva ou financeiramente. Significa garantir que o Vitória continua a ser um clube com identidade, valores e pessoas ligadas entre si. Num tempo em que vivemos cada vez mais com a distância, divisão e desumanização, acredito que o Vitória deve continuar a ser um espaço de união, pertença e muita proximidade humana. O futuro constrói-se com pessoas e a capacidade de todos remarmos para o mesmo lado.
- Que ideias do seu programa destaca?
- Temos a questão financeira, onde tem de haver uma reestruturação da dívida, que já está em curso. Já andamos há um ano/dois anos nessa construção e já há duas propostas que estamos a analisar. Queremos criar disciplina financeira nos próprios departamentos. Há a criação de um roteiro financeiro para o dia a dia do Vitória. Depois também tem a sequência daquilo que é a parte desportiva, em que temos muita vontade de incutir a nossa mística, a nossa cultura e tornar a nossa academia numa academia de excelência, nacional e internacionalmente.
- Que duas propostas são essas a que se referia?
- São dois fundos, não posso dizer o nome, mas existem duas que até já foram apresentadas até aos outros candidatos. O Vitória não tem uma vida fácil, como já não a tinha no ano passado, há dois, três e quatro anos, mas, aos poucos, fomos criando mais valor àquilo que é o Vitória hoje, para, depois, termos condições mais apropriadas para que se consiga ganhar a confiança do mercado e olhem para nós como um clube capaz de fazer face às suas responsabilidades.
Neste momento, existe um Vitória de futuro
- O Rui é o atual vice-presidente da parte financeira. Qual é o estado real do clube?
- Começámos, em 2022, com um passivo de 61 milhões de euros. Fomos conseguindo resistir durante estes quatro anos. Fomos investindo naquilo que eram as condições e a preparação da academia, fomos investindo em várias áreas, no estádio, no pavilhão, nas modalidades.... Mas, sobretudo, a estratégia passava por reforçar a nossa academia, com todas as condições que pudessem potenciar os ativos e que nos ajudassem a alavancar a dificuldade que encontrámos em 2022, tendo em conta que até financeiramente o clube já tinha sido hipotecado. Dentro disso, acho que conseguimos chegar à data de hoje na qual temos uma previsão de que o resultado andará na volta dos 75 ou 76 milhões de euros - isso se não tivermos mais nenhuma venda até dia 30 de junho. Neste momento, temos muitos contactos e várias ofertas sobre muitos jogadores e estamos otimistas que as coisas possam mudar até dia 30 de junho e tendo também em conta que o mercado só termina em agosto. Isto para dizer que as coisas podem acontecer de um dia para o outro e esta questão económica e financeira pode alterar de uma forma significativa.
- O atual estado financeiro bate certo com as previsões que fez quando entrou no clube?
- Evidentemente que nós temos sempre uma expectativa de que o clube esteja sempre melhor, porque acreditamos muito naquilo que é o nosso potencial, naquilo que podemos acrescentar ao projeto. Depois da instalação de uma direção num clube de futebol como o Vitória, as coisas demoram o seu tempo e isso dificulta um pouco aquilo que é a nossa estratégia. Além disso, a visão que temos de fora, por vezes, é completamente diferente da realidade interna da gestão dos clubes. Aí, houve uma adaptabilidade. De uma forma geral, penso que conseguimos obter os objetivos a que nos propusemos desportivamente e financeiramente, tendo em conta que o Vitória neste momento é um Vitória de futuro.
Vou ser o pêndulo entre a parte financeira e a desportiva
- O passivo tem vindo a aumentar. Qual é a explicação para isso?
- Para nós é fácil de explicar no sentido de que há investimentos que têm de ser efetuados. Não são gastos, são efetivamente investimentos naquilo que é a criação de valor do futuro, quer seja em atletas, quer seja em recursos humanos que ajudam a potenciar esses mesmos ativos. Portanto, o passivo aumenta, mas também temos de ter em conta que existem ativos. E nós estamos a potenciar jogadores da formação, dou o exemplo do Alberto Costa que estava no nosso balanço como zero e depois conseguimos vendê-lo por 12,5 milhões de euros. No ano passado, fechámos um exercício com 69 milhões de euros, mas o passivo exigível, que é o que precisamos para fechar as contas, só aumentou três milhões de euros relativamente a 2022. Tivemos de fazer um conjunto de investimentos - como o primeiro ginásio para a formação - que aumentaram um bocado o exigível, mas isso faz parte da nossa atividade. Acho que, independentemente de ter aumentado o passivo, o nosso ativo está muito mais reforçado e temos um potencial muito maior de gerar receita do que tínhamos há quatro anos.
- Acredito que tenha agora algumas estratégias para melhorar essa parte do passivo…
- Nós temos cinco pilares para a parte financeira: a reestruturação da dívida e sustentabilidade financeira; a disciplina financeira e profissionalização de gestão; o modelo desportivo sustentável com a valorização dos ativos; uma relação estratégica equilibrada com a V Sports; e a modernização das infraestruturas e crescimento comercial. Portanto, há aqui algumas estratégias definidas relativamente ao potenciar mais receita, quer seja através dos atletas, ou através do comercial com a modernização do nosso estádio. E depois existe um controlo orçamental, por isso é que eu digo que o presidente vai ser o pêndulo - o equilíbrio entre a parte financeira e a parte desportiva. Acho que é fundamental haver alguém, neste caso o presidente, que faça o equilíbrio entre o que são as necessidades desportivas e aquilo que a parte financeira tenha para disponibilizar. A parte financeira não pode comprimir aquilo que possa ser o crescimento desportivo, porque, assim, o clube não cresce. No entanto, às vezes, também temos de conter algum otimismo a mais naquilo que seja o desenvolvimento da parte desportiva, para não pôr em causa as finanças.
Os atletas vendem-se ao preço que o mercado está disposto a pagar
- A venda de atletas deve ser um objetivo para fazer dinheiro ou o foco deve ser formar para reter os jogadores?
- O foco será sempre ter condições para criar uma equipa consistente ao longo não da época, mas ao longo dos anos ou ao longo de um projeto, com uma estratégia definida, com um princípio e um fim. Evidentemente que, enquanto nós não conseguirmos equilibrar esta parte económico-financeira, somos obrigados, todos os anos, a ter uma necessidade muito grande daquilo que é a receita extraordinária - ou seja, a venda de jogadores. Portanto, enquanto nós não conseguirmos isso, a parte desportiva está sempre comprometida. Acho que, numa fase inicial, é fundamental termos o equilíbrio económico-financeiro, para depois criar uma consistência e um equilíbrio para aquilo que é a parte desportiva do curto-médio prazo.»
- Considera que algumas vendas, neste mandato, poderiam ter sido mais lucrativas - ao contrário do que se fez agora com o Diogo Sousa em que se esperou uns meses e se alcançou uma venda maior?
- Os momentos são sempre diferentes. As necessidades de ontem não são as mesmas de hoje, independentemente da dificuldade ser a mesma. Ninguém fica mais frustrado do que quem está a gerir o clube que precisa de dinheiro, ninguém mais do que nós quer vender o atleta ao maior preço. Mas o atleta não se vende ao preço que nós queremos, vende-se ao preço que o mercado está disponível a pagar. Não nos podemos esquecer que parte da estratégia adotada para que hoje estejamos nesta situação económico-financeira foi provocada porque andámos três mercados sem vender. O que significa que, provavelmente, na gestão anterior, pensavam que os atletas se vendiam por um determinado montante e nunca chegaram propostas desse valor. Isso criou aqui constrangimentos e comprometeu a estabilidade económico-financeira e até na própria continuidade do Vitória. Nós acreditávamos que os jogadores podiam valer mais, mas foram as propostas que nos propuseram. Não foi o valor que nós queríamos, mas aquilo que o mercado pagou.