Rui Casaca numa disputa de bola com Paulo Futre, na final da Taça de Portugal de 1992/93, que terminou com vitória por 5-2 para as águias

Rui Casaca 'chora' «morte» do Boavista e visa Liga, FPF, Câmara e antigos dirigentes

«Quando um clube morre, morre também uma parte daqueles que lhe dedicaram a vida», escreve o ex-capitão boavisteiro

O Boavista vai encerrar a atividade até ao fim de julho, após falhar o depósito na conta da massa insolvente dos credores do clube da verba para suportar as despesas correntes em junho, numa decisão que afeta em quase 1.500 atletas, de 31 modalidades.

«Como explico ao meu neto, que se inscreveu no Boavista por minha causa, que hoje me pergunta por que razão o Boavista fechou? Como lhe explico que o clube que lhe apresentei como herança, orgulho e futuro foi deixado cair por quem tinha obrigação de o proteger? Como lhe digo que a paixão que lhe transmiti foi ferida desta maneira?», questiona Rui Casaca, num vasto texto publicado na sua página de Facebook, no qual exige que se apurem culpados.

O antigo capitão dos axadrezados (representou-os entre 1984 e 1994) aponta o dedo aos «dirigentes que conduziram o Boavista a esta situação, a quem tomou decisões ruinosas, a quem geriu sem rigor, a quem prometeu o que não podia cumprir, a quem adiou soluções e a quem colocou em risco a sobrevivência de uma instituição centenária», considerando que «devem ser chamados a responder perante os boavisteiros e, se houver fundamento legal, perante a justiça». 

«Não se pode destruir um clube desta grandeza e depois refugiar-se no silêncio, na desculpa fácil ou na tentativa de reescrever a história. Quem falhou deve ser confrontado com os factos. Quem falhou deve prestar contas. Quem falhou não pode sair ileso como se o estrago tivesse sido feito por ninguém», considera.

O antigo jogador (hoje com 66 anos), visa ainda a Câmara Municipal do Porto, que acusa de ter assistido «ao lento desmoronar de um dos maiores símbolos desportivos do Porto sem que se conhecesse uma estratégia séria, firme e consequente para preservar um património que pertence à cidade», ao «silêncio de muitos empresários que tanto gostam de falar do seu amor ao Porto, de se associar a causas nobres e de aparecer quando há brilho, mas que desapareceram quando o Boavista precisava verdadeiramente de apoio», e ainda à «Federação Portuguesa de Futebol», à «Liga Portugal» e as outras federações «que tantas vezes falam de proteção, de desenvolvimento, de ética, de sustentabilidade e de defesa do desporto».

«É fácil aparecer em discursos, em cerimónias e em comunicados. Difícil é agir quando um emblema centenário está a ser deixado cair à vista de todos. É fácil aparecer nas fotografias quando há vitórias. Difícil é estar presente quando a instituição luta pela sobrevivência. Difícil é assumir responsabilidades quando já não há aplausos», considera, acrescentando que «não se pode destruir um clube desta grandeza e depois refugiar-se no silêncio, na desculpa fácil ou na tentativa de reescrever a história» e que «quem falhou não pode sair ileso como se o estrago tivesse sido feito por ninguém».

«É profundamente ofensivo», escreve Rui Casaca

Quando um clube morre, morre também uma parte daqueles que lhe dedicaram a vida. É uma tragédia anunciada, evitável e profundamente vergonhosa. Hoje, sinto uma dor que dificilmente se consegue explicar. (...)  O Boavista não é apenas um clube. É história. É identidade. É património da cidade do Porto. É uma instituição que resistiu a crises, a mudanças de gerações e a inúmeros desafios, mas que acabou derrotada pela incompetência, pela falta de visão, pelo amadorismo e pela ausência de responsabilidade de quem tinha o dever de a proteger. Durante anos, disseram-nos que estava tudo controlado. Alimentaram-se esperanças, repetiram-se promessas e tentou-se esconder a verdadeira dimensão do problema. Hoje, perante este desfecho dramático, ninguém assume a culpa. Ninguém pede desculpa. Ninguém responde perante os sócios, os adeptos, os atletas das modalidades e a história do clube. (...) É inaceitável. É revoltante. E é profundamente ofensivo para todos os que deram a vida pelo Boavista. (...) Os dirigentes passam. O Boavista fica. E é precisamente por tudo isto que me recuso a aceitar que tudo termine sem consequências. A história não pode ser apagada, a memória não pode ser traída e os responsáveis não podem ficar escondidos atrás do silêncio. Enquanto tiver voz, não me vou calar. Pelo Boavista. Pela sua história. Pelas suas modalidades. Pela verdade. E pela responsabilização de quem deixou cair um gigante do futebol português e do desporto nacional numa tragédia que nunca deveria ter acontecido.

Ficando à espera dos próximos passos do Tribunal de Comércio de Vila Nova de Gaia, a direção do clube presidida por Rui Garrido Pereira vai tentar assegurar o regresso à competição dos atletas, sobretudo dos escalões jovens.

O dirigente rejeita abordar uma eventual refundação do Boavista, criado em 1903 e com nove troféus nacionais no futebol sénior masculino, apenas atrás de Benfica, FC Porto e Sporting.

Encerradas as atividades do Boavista no Estádio do Bessa e em espaços adjacentes, no qual se incluem todas as modalidades, as chaves das instalações, livres de pessoas e bens, têm de ser entregues até 31 de julho.

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