Ruge leão, ruge!

Arsenal, líder da Premier, pede esforço épico e compromisso do primeiro ao último minuto. É nestas noites que se constroem reputações e forjam transferências

SE fosse preciso motivar os jogadores do Sporting para o jogo de hoje com o líder da Premier inglesa era muito mau sinal. Sinal de que não percebiam a importância das competições europeias como montra privilegiada. Com todo o respeito pelas competições domésticas, que não existem para lá de Badajoz, é nos duelos europeus que os futebolistas das equipas portuguesas têm de mostrar ao grande futebol o que é que valem - também os treinadores, obviamente. Gonçalo Ramos, por exemplo. No verão passado era um ilustre desconhecido. Hoje, graças à Champions que está a fazer (sem esquecer o hat trick à Suíça no Mundial, claro), fotografias dele aparecem com regularidade nas páginas do L’Équipe, da Marca, do As, do Corriere dello Sport e da Kicker. Ontem, foram várias. O mesmo se diga do jovem António Silva, que está a ser seguido pelo menos por dois clubes de primeira linha.

Mas acredito que Rúben Amorim não tenha precisado de lembrar a ninguém em Alvalade que uma vitória sobre o Arsenal é garantia de bem mais que uma breve (a uma coluna) nos grandes jornais e nos noticiários desportivos da Europa. É realmente nestas noites que se constroem as reputações e forjam as grandes transferências.

É difícil? Claro que é. Este Arsenal tem, de facto, uma esplêndida equipa. Joga futebol de primeira água e chega com o moral nos píncaros. Quem viu a recente vitória arrancada a ferros sobre o Bournemouth (0-2 para 3-2 com o golo decisivo a surgir aos 90+7!) terá encontrado algumas semelhanças com a crença, persistência e estrelinha que caracterizou a campanha do título sportinguista há dois anos. O Arsenal corre muito, luta muito e nunca desiste. O leão terá de fazer o mesmo para não ser atropelado (o jogo pede esforço épico e compromisso total), mas não pode partir para a batalha com receios excessivos e injustificados. O Everton, que joga muito pior que o Sporting, venceu o Arsenal (1-0) há pouco mais de um mês (4 de fevereiro). Acresce o seguinte. O Sporting tem tudo a ganhar e pouco a perder nesta eliminatória - a não ser que apanhe uma goleada, claro. Se for eliminado, não é vergonha nenhuma: afinal, o Arsenal é bem capaz de vir a ser campeão inglês. Se passar, toda a gente reparará que o Sporting eliminou o líder da Premier inglesa depois de se ter superiorizado ao Tottenham (2-0; 1-1) na Liga dos Campeões. Em termos de impacto, isso pode fazer mais pela notoriedade dos futebolistas do Sporting e de Rúben Amorim do que dez vitórias seguidas na Liga portuguesa que, infelizmente, é um evento mais ou menos confidencial para lá de Badajoz.

Portanto, ruge leão, ruge! 

(e lembra-te de que a vitória mais retumbante do Sporting na Europa foi o 5-0 aplicado a uma grande equipa inglesa, o Manchester United de Bobby Charlton, George Best e Denis Law no Estádio José Alvalade (18 março 1964), em resposta à goleada de 1-4 sofrida em Old Trafford).

Benfica e o velho ‘tabu’: é desta?

Champions. Nos jogos de ontem, o Bayern tornou a ser muito superior ao PSG (que desilusão!) e venceu novamente (agora por 2-0) com toda a naturalidade - três-a-zero na eliminatória e não foram mais graças às defesas de Donnarrumma. Na realidade, o PSG não chegou a dar luta. Messi não se viu, tal como Mbappé (Neymar também não se viu, mas porque não foi a jogo). Nuno Mendes (o melhor dos franceses), Vitinha e Sérgio Ramos estiveram bem mais inspirados. Em 180 minutos, os pseudo galáticos do PSG não conseguiram fazer um golo ao colosso alemão, para mim o favorito n.º 1 ao título europeu (vão com oito vitórias em oito jogos). Em 11 anos (e quase 2 mil milhões em contratações) de Catar-PSG, vamos na 11.ª tentativa falhada de ganhar a Champions e a quinta vez que a equipa caiu nos oitavos! Messi não chega a uma final desde 2015 e volta a sair pela porta pequena - há um ano, o carrasco foi o Real Madrid. Mbappé não pesou, não marcou, não decidiu quando era preciso, como fazia Cristiano. A Champions tem saudades do rei!

Em Londres, um Milan competente aguentou o Tottenham (0-0) sem precisar de fazer uma grande exibição e está nos quartos de final pela primeira vez desde 2012. Foi justo. Como justa foi a qualificação do Chelsea a expensas do Dortmund, com grandes exibições de Kai Havertz, Marc Cucurella e Raheem Sterling. João Félix fez cara feia ao ser substituído aos 67 minutos (o filme de sempre: ele sabe dançar, o treinador é que está sempre torto). 

Quanto ao Benfica, esmagou o Club Brugge fazendo prova de uma superioridade cristalina como a água da nascente e deixou os adeptos com motivos para acreditarem num conto de fadas. A equipa tem feito uma Champions absolutamente notável (dez vitórias e dois empates em 12 jogos, contando com as pré-eliminatórias; 35-10 em golos!) e está pela segunda vez consecutiva nos quartos de final (sexta no total). Segue-se outro desafio, mais difícil: a passagem dos quartos, espécie de cabo das tormentas para a nau encarnada. Desde a estreia deste formato, há trinta anos (época de 1992-93), 31 equipas de 12 países (!) chegaram pelo menos à meia-final e o Benfica não faz parte desse grupo, o que soa a pecado tendo em conta o fabuloso currículo das águias no modelo anterior (dois títulos, sete finais e 8 meias-finais na Taça dos Campeões…). Chegou a hora de quebrar esse tabu? Pelo que se tem visto, é bem possível que sim - assim o sorteio ajude e não traga o Bayern. Esse é intragável.

Não há mal que dure sempre.