Rúben Amorim (IMAGO)

Rúben e José: a mesma luta

Meia-final possível para Sporting e Roma, mas não se pode desperdiçar como os leões em Turim e Lorenzo Pellegrini em Roterdão

RÚBEN AMORIM e José Mourinho lutam hoje por um lugar nas meias-finais da Liga Europa. Ambos estão obrigados a reverter desvantagens de 0-1. Amorim em Alvalade (lotado), perante a matreira e sabida Juventus de Massimiliano Allegri que, no relvado, é a 3.º classificada do campeonato italiano. Mourinho no Olimpico de Roma (lotado), perante o generoso mas algo lirico Feyenoord de Arne Slot, que caminha a passos largos para o primeiro título neerlandês em seis anos (tem oito pontos de vantagem sobre o Ajax). O Sporting jogou muito bem em Turim, mas foi desoladoramente perdulário e pagou um preço altissimo por isso: bastou-lhe cometer um erro (saída em falso de Adan) e foi imediatamente penalizado pelo atento escorpião juventino. É assim que o futebol italiano progride: ali ninguém perdoa distracções. Aquele lance nos instantes finais em que Pedro Gonçalves e Hector Bellerín desperdiçaram consecutivamente o golo do empate,  transformando o guarda-redes Perin no herói do jogo, é o espelho fiel daquilo que não pode acontecer mais logo em Alvalade.

A Roma podia ter silenciado o vibrante estádio De Kuip, em Roterdão, à beira do intervalo (0-0), mas o experiente (e habitualmente certeiro) Lorenzo Pellegrini queimou um penalty no poste. A factura veio logo no inicio da segunda parte, com o Feyenoord a marcar através de um pontapé monumental do médio Mats Wieffer. A Roma, algo desgastada e sem o seu farol (Dybala saiu lesionado logo aos 25m), ainda esperneou mas não teve artes para evitar a 13.ª derrota (!) da época. Mas, pelo que se viu na 1.ª mão, tanto Mourinho como Amorim têm motivos para acreditarem que é realmente possível passar às meias-finais. Será mais dificil no caso do Sporting, dada a qualidade e o estado de necessidade da Juventus (pode ter mesmo de ganhar a Liga Europa para se qualificar para a Champions, caso não lhe sejam anulados os 15 pontos de penalização), embora para os leões o desafio seja exactamente o mesmo - a única esperança realistica de marcar presença na próxima Champions passa pela vitória nesta competição. Dificil? Claro que sim. Impossível? Impossível era eliminar o Arsenal em Londres. Para Rúben Amorim, que completa hoje o 24.º jogo europeu, o duelo de logo é o mais importante da época. Pode valer milhões. A expectativa dos adeptos é grande (caso contrário não teriam esgotado a lotação do estádio) e não é dificil de perceber porquê. O Sporting foi bravo em Turim, como já havia sido bravo com o Arsenal, com o Tottenham e com um Frankfurt campeão da Liga Europa.

 Para o treinador da Roma o 223.º jogo europeu é só mais um dia no escritório: ele tem 11 meias-finais europeias no curriculo (em 22 épocas) e o mais natural é conseguir mais uma com uma daquelas vitórias «à Mourinho» (sofridas, trabalhadas, árduamente defendidas…) que transformaram o nosso bom e velho Special no ídolo futebolistico dos adeptos giallorossi.

Giro, giro, que me perdoem Bruno Fernandes e Diogo Dalot, ainda em prova com o Manchester United (veremos se sobrevivem ao feitiço de Sevilha…), era haver dois treinadores portugueses na final da Liga Europa, marcada para a Puskas Arena de Budapeste no dia 31 maio. Rúben de um lado, José do outro, 12 anos depois do inesquecível duelo entre André Villas Boas (FC Porto) e Domingos Paciência (SC Braga) em Dublin. Isso é que era muito giro!

PS - Por cá, o campeonato entrou na fase decisiva e isso costuma trazer ao de cima as piores facetas do futebol e do jornalismo paroquial. Agora sim, já parece uma feira. Mão na anca, gritaria, tentativas de condicionamento arbitral pelos prejudicados de hoje que são os beneficiados de ontem e vice-versa, e, em várias latitudes, tristes exemplos de «jornalismo» engajado, panfletário, daquele que faz tábua rasa de principios básicos como a isenção e a equidistância. Lamentável, mas… tudo muito dejá vu.
 

Rúben Amorim completa hoje o 24.º jogo europeu


BENFICA, AINDA NÃO FOI DESTA

O Benfica despediu-se da Champions com um empate in extremis com o  Inter (3-3), que mereceu sem discussão a passagem às meias-finais. A equipa italiana foi sempre mais «equipa» e teve a eliminatória controlada desde que se adiantou no jogo da Luz. Houve aí mérito de Simone Inzaghi que, no plano táctico, suplantou de largo Roger Schmidt. Num jogo marcado por actuações pobres de Gonçalo Ramos (não se viu), Otamendi e João Mário, o Benfica, sem nunca ter estado em posição de discutir a eliminatória, aproveitou bem o relaxamento final do Inter (estava a ganhar por 5-1…) e conseguiu evitar no último suspiro uma quarta derrota seguida graças a Petar Musa. Ainda não foi desta que o Benfica se juntou ao grupo de 31 equipas (de 9 países) que têm no currículo presenças em meias-finais da Champions. Fica para os adeptos encarnados a memória da melhor campanha do clube neste formato: dez vitórias, três empates e apenas uma derrota em 14 jogos!

Vinte anos depois, o Inter reencontra o arquirival AC Milan na meia-final da Champions, num duelo que vai lotar duas vezes San Siro. Certezas, só uma: Milão estará na final. Veremos o que o excitante Rafael Leão, novamente decisivo em Nápoles, tem a dizer sobre o assunto. Para o Benfica, uma fraca consolação: se o Inter não tivesse eliminado o FC Porto, os encarnados (dado o terrível histórico com o FCP) estariam agora, muito provavelmente, a chorar uma eliminação mais dolorosa.


O OUTRO «REI» ARTUR

GRANDE campeonato está a fazer o Braga de Artur Jorge! Tem o 3.º lugar cada vez mais seguro e vamos ver se não lutará por mais qualquer coisa. Neste momento, dos quatro «grandes», parece-me que Braga é o que se apresenta mais fresco, mais solto e menos pressionado. Tem bons jogadores e muitas soluções no banco, o que ajuda a explicar muita coisa. Artur Jorge, que completou com o Gil Vicente (1-0), 50 jogos à frente dos Guerreiros é já o treinador com maior percentagem de vitórias (68%; 34 em 50) na história do clube. Se nos lembrarmos que há três anos, depois da saída de Rúben Amorim, foi ele quem conduziu o Braga na recta final do campeonato (últimas cinco jornadas) e ainda conseguiu ultrapassar os leões de Amorim mesmo em cima da  meta (Braga: 3.º, Sporting, 4.º, ambos com 60 pontos), é caso para dizer que a história é bem capaz de se repetir.