Rodrigo Magalhães: «Esta é uma oportunidade de ouro para o António Silva»
— Gostaria de falar de um jogador dos CFT que até é da sua região — António Silva. Não foi convocado para a Seleção e estará a viver um momento difícil. Esperava que a progressão dele fosse diferente depois da época de ascensão e afirmação com Roger Schmidt?
— O António tem lugar no grupo da Seleção, deveria ter sido convocado. Tenho de respeitar a opção do selecionador e valorizar os jogadores que estão lá e apoiar a Seleção, para obtermos o sucesso no Mundial. Sinto que o António tem capacidade e, olhando para o grupo, deveria fazer parte dos eleitos. Quanto à situação no clube, não é fácil um adolescente emergir ao ponto de vencer uma Youth League, jogar nos sub-23, ter uma ou outra aparição na equipa B e, de repente, aparecer na equipa A. Tem ascensão meteórica e fabulosa. Posso partilhar aqui também uma história. Quando o Benfica jogou com o PSG [em outubro de 2022], no Estádio da Luz, o António fez uma exibição fantástica. O treinador do PSG era o Galtier, que está no Neom. Nas conversas informais, falámos do Renato Sanches, que treinou no PSG e considerava o médio do futebol moderno, pela capacidade de passe, transporte e recuperação. Mas a seguir começou a falar do António, dizendo que o Benfica tem um jogador fora do comum. Considerou diferenciador a personalidade e o carácter do António, a capacidade de assumir o jogo e não tremer perante os melhores avançados do mundo. Há um reconhecimento, não só a nível nacional, mas também a nível internacional, das qualidades e das características do António. Perdeu espaço, esta época foi muito entre ele e o Tomás Araújo, que esteve em jogos mais mediáticos. O António também tem qualidade técnica, na formação jogou algumas vezes como médio-interior, o próprio Roger Schmidt valorizava a possibilidade de o António ser médio. Temos ali o carácter e a personalidade. Posteriormente entrou num estado de intermitência. Tem todas as condições para ser um central de referência nacional e internacional. Não ir ao Mundial é uma oportunidade de ouro. Para haver transformação, tem de acontecer algo na vida do jogador que lhe consiga ferir o mais profundo dos sentimentos. E isso está a acontecer neste momento. Podemos assistir ao António como jogador revoltado, que não foi ao Mundial, uma injustiça, blá, blá, blá. Ou podemos assistir ao António, e até acho que há uma ou outra publicação nas redes sociais, que diz: ‘Não, não, este é o momento onde têm de ver quem é o António.’ Têm de ver que está cá aquele rapaz que emergiu e que tocou o céu, que vai voltar, está com fome, que vai reativar índices de transcendência superiores para poder demonstrar capacidade a ele próprio, aos colegas de equipa, ao Benfica, a Portugal e ao mundo. Este é o momento que todos ansiamos para perceber qual é o tipo de resposta que o António vai dar. Espero que seja a resposta do resiliente, do sofredor, do António que procura a capacidade de transcendência, que volta a pôr em prática aquele killer instinct. Espero que encontre essa chama dentro dele, porque capacidade e potencial ele tem. Desejo-lhe a melhor sorte e que tenha a coragem e a capacidade de lutar.
— Foi substituído por Joaquim Milheiro, o que é que pensa dele? O Benfica continua no caminho certo na formação?
— Honestamente, já falei sobre isso. Reconheço competência ao Joaquim. Em relação ao futuro… A época da formação não foi a desejada pelos benfiquistas. Agora, pela qualidade dos jogadores do Benfica, está aqui um fenómeno e urge a necessidade de outro tipo de afirmação na equipa A, porque uma coisa é a quantidade de jogadores que estreamos outra é considerar um jogador uma aposta quando faz no mínimo 10 jogos pela equipa A, quando tem um volume competitivo significativo na equipa A.
— Desde 2021 que não havia tão poucos minutos de jogadores da formação na equipa A.
— Não tinha essa relação, tenho acompanhado à distância, até porque troco mensagens com os miúdos. Fico contente pelas estreias, mas da estreia à afirmação…Tem de haver uma diferença dos jogadores que se estreiam e têm as primeiras aparições e o volume de jogo acumulado para serem, então, estas referências na equipa A. Falta afinar aqui esse mecanismo de afirmação na equipa A.
— Como explica que o Benfica tenha conquistado todos os títulos da formação na época passada e que tenha sido agora o FC Porto a fazê-lo?
— Não estou lá, não me posso pronunciar, seria deselegante, porque muitos dos treinadores e jogadores que estão lá já mostraram essa capacidade. Muitas vezes há aqui uma transição de paradigma e a diferença entre a vitória e a derrota é uma linha muito ténue. Houve anos nos quais também não tivemos grandes conquistas, mas conseguimos lançar jogadores na equipa, vender jogadores e, portanto, esse deverá ser o principal trabalho da formação. As coisas a nível de resultados não correram tão bem. Mas as condições estão reunidas — estão lá os jogadores, os recursos humanos, o trabalho do passado que permite apresentar fornadas com muita qualidade. O maior perigo reside em pensar que está tudo bem quando se ganha. Há uma altura que faço uma apresentação no Benfica, muito criticada, mas que muita gente ainda se lembra hoje. Estávamos no topo, com saúde financeira incrível, vendemos o Félix por 120 e tal milhões de euros. Fiz uma apresentação sobre a ascensão e queda de grandes impérios. Analisei as quedas da Blockbuster, da Nokia, da Kodak, entre outras empresas de referência a nível mundial. A linha entre mantermo-nos no topo para a queda abrupta é muito ténue. Camuflado pelo sucesso, há um perigo ainda maior, que é não conseguirmos analisar os problemas.
A linha entre mantermo-nos no topo para a queda abrupta é muito ténue. Camuflado pelo sucesso, há um perigo ainda maior, que é não conseguirmos analisar os problemas.
— Pensa voltar a Portugal, para Benfica, Sporting, FC Porto ou outro projeto?
— Honestamente, não.
— Porquê?
— Tenho mais dois anos de contrato. Não sei o que é que irá acontecer nas próximas duas épocas ou até num futuro próximo, porque o contexto geopolítico acaba por condicionar um bocadinho a evolução dos projetos. Se conciliar a experiência adquirida com a vitalidade que ainda tenho, consigo ter 10/15 anos no máximo num projeto aliciante, com a energia que é necessária.