A famosa Mão de Deus (Foto: AFA)
A famosa Mão de Deus (Foto: AFA)

Rivalidade renovada: da Mão de Deus e das Malvinas, ao vilão Beckham

Argentina e Inglaterra encontram-se na meia-final do Mundial 2026

Messi não tem muito mais (ou nada) a alcançar no futebol, mas na meia-final do Mundial 2026 vai enfrentar pela primeira vez a seleção de Inglaterra – trata-se de uma das muitas camadas que contam esta rivalidade que transcende o desporto, sendo profundamente marcada por tensões políticas, nomeadamente a Guerra das Malvinas, em 1982.

O conflito é ainda hoje evocado em cânticos por jogadores e adeptos argentinos. Os confrontos entre as duas nações em Mundiais (já foram cinco) são pautados por golos memoráveis, controvérsia e cartões vermelhos.

Seis décadas de conflito

O primeiro encontro ocorreu em 1962, com uma vitória inglesa tranquila por 3-1. A tensão começou a escalar há 60 anos, no único Mundial que Inglaterra ganhou. Nos quartos de final, a equipa da casa ganhou por 1-0 com um golo de Geoff Hurst, que, para os argentinos, estava em fora de jogo.

Confusão no Inglaterra-Argentina em 1966 (IMAGO)

Antonio Rattin, capitão da Argentina, foi expulso e o jogo parou por 10 minutos quando o jogador recusou sair de campo. Já os ingleses queixaram-se de uma agressividade cínica dos argentinos, mas a rivalidade ganhou novas proporções em 1986. Antonio Rattin que morreu este sábado aos 89 anos.

Diego Armando Maradona

O conflito bélico nas ilhas da Malvinas durou pouco mais de dois meses de 1982. Inglaterra reclamava aquele território desde o século anterior, mas por ficar a menos de 500 km da costa argentina, o ditador Leopoldo Galtieri decidiu invadir o território a 2 de abril desse ano. No entanto, os Estados Unidos forneceram armas aos ingleses, que venceram a guerra de forma decisiva: morreram 649 militares argentinos e 255 militares britânicos.

Apenas quatro anos depois, os países defrontaram-se, de novo nos quartos de final do Mundial, no México. Perante mais de 100 mil espectadores no Estádio Azteca, para o povo argentino, Maradona vingou-se no espaço de três minutos: com a mão enganou Peter Shilton e o árbitro tunisino Ali Bin Nasser; e com os pés, fez o golo do século, deixando para trás qualquer inglês que tivesse a infeliz ideia de se colocar à sua frente.

O golo que Gary Lineker ainda marcou ficou praticamente esquecido. A Argentina seguia em frente, antes da coroação final do autor da Mão de Deus. Ainda hoje, adeptos ingleses ficam incrédulos com a adoração que é feita a um jogador por causa de um lance que ilegal; e que, em contrapartida, para muitos argentinos, é um símbolo de orgulho pelo seu Dios. Odiado por uns, venerado por outros, simplesmente Diego.

A vilania do ‘menino bonito’

Inglaterra teve a hipótese de se vingar nos oitavos de final de 1998. Batistuta e Alan Shearer trocaram golos de penálti, antes de Michael Owen marcar um golo memorável com a sua própria corrida maradoniana. Javier Zanetti empatou as contas, pouco antes do lance que marcou este jogo.

Ao ser carregado em falta por Diego Simeone, David Beckham desentendeu-se com o atual treinador do Atlético Madrid, e respondeu ao fazer-lhe uma rasteira ao de leve, quando o jogo estava parado, mesmo na cara do árbitro. Simeone esbugalhou os olhos, caiu no chão, e o juiz dinamarquês Kim Nielsen respondeu: vermelho direto para David Beckham, que assim se tornou no maior vilão do futebol inglês – não ajudou que a Argentina viesse a ganhar o duelo nos penáltis.

Simeone admitiu que a argentina teve sorte com essa decisão. «Digamos apenas que o árbitro caiu na armadilha. Pode dizer-se que a minha queda transformou um cartão amarelo num cartão vermelho. Mas, na verdade, a punição mais adequada era um cartão amarelo», disse um ano mais tarde.

Beckham redimiu-se quatro anos depois, fazendo de penálti o golo da vitória sobre a Argentina na fase de grupos. 24 anos depois, as duas equipas reencontram-se no dia 15 de julho às 15h00 de Portugal Continental, em Atlanta. E será curioso se Simeone e Beckham se encontrarão no estádio, eles que têm acompanhado as respetivas seleções.

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