Morreu Antonio Rattín, capitão entre os argentinos chamados de «Animais» em 1966
O futebol mundial está de luto com a notícia do falecimento de Antonio Ubaldo Rattín, aos 89 anos de idade. Considerado um dos maiores ídolos da história do Boca Juniors e figura emblemática do desporto sul-americano, não foi apenas um grande jogador, mas a personificação da liderança, da raça e do compromisso dentro das quatro linhas.
Ao longo da sua trajetória no emblema xeneize, que defendeu com fidelidade rara, o carismático médio construiu um legado monumental. Foram 382 partidas oficiais a vestir a camisola azul e dourada, com 28 golos marcados e quatro títulos inesquecíveis. A sua presença imponente no relvado da Bombonera ditava o ritmo e inspirava tanto os companheiros quanto as bancadas, o que consolidaria o seu nome como um dos pilares da identidade do clube de Buenos Aires.
Além do sucesso absoluto no seu clube de coração, Rattín escreveu páginas imortais com a camisola da Albiceleste. Defendeu-a nos Campeonatos do Mundo de 1962, no Chile, e de 1966, na Inglaterra. Foi precisamente em solo britânico e perante a seleção dos Três Leões que a sua figura ganhou contornos de lenda ao ostentar a braçadeira de capitão e ao protagonizar momentos de pura personalidade e altivez que ficaram para sempre gravados na memória do futebol.
A imagem de Rattín a recusar-se a abandonar o relvado, exigindo um tradutor ao árbitro alemão Rudolf Kreitlein — que o expulsara por «olhares e espetáculo», uma explicação que ficara perdida na tradução, numa barreira linguística que roçava o absurdo —, é uma das mais poderosas imagens da história do jogo. Naquele relvado, o capitão argentino não estava apenas a contestar uma decisão. Estava sim a desafiar o Império.
A caminhada lenta até aos balneários foi um tratado de dramaturgia futebolística. Ao sentar-se na passadeira vermelha destinada à Família Real e ao apertar, com desdém calculista, a bandeirola de canto britânica, Rattín não cometeu um ato de vandalismo vulgar. Assinou uma performance de pura soberania popular. Mostrou que o futebol de bairro, da carne e osso, não se subjugava facilmente aos formalismos de quem se julgava dono das regras.
Aí terá talvez nascido o futebol moderno. Foi a partir daquela noite de incompreensão linguística que a FIFA percebeu a urgência de criar cartões amarelos e vermelhos. Rattín obrigou o jogo a tornar-se burocrático.
A sua altivez e compromisso bateu de frente contra o pior lado do moralismo imperial britânico, que saltou das bancadas para as páginas dos jornais do dia seguinte com violência cega. Aquela recusa em vergar-se foi o rastilho para uma narrativa desumanizadora: o próprio selecionador inglês, Alf Ramsey, numa soberba que a história vincou, impediu os seus jogadores de trocarem de camisola com os adversários, sentenciando que os britânicos não se misturavam com «animais».
Nas bancas, os tablóides cerraram fileiras com a mesma cartilha, estampando a palavra «Animals» em letras garrafais para rotular os sul-americanos. Reduziu-se o futebol visceral, de choque e de resistência sul-americano a uma caricatura de selvajaria, numa tentativa hipócrita de branquear o facto de que o império precisara de um golo em fora de jogo de Geoff Hurst e de uma expulsão por «olhares» para, afinal, conseguir seguir em frente.
Com a sua despedida, o desporto perde um dos seus generais mais respeitados, um homem que jogava com o coração e liderava pelo exemplo. O adeus a Antonio Rattín representa o encerramento de um capítulo dourado, mas o seu legado de amor à camisola, coragem e liderança inabalável continuará vivo na memória de cada adepto apaixonado pelo futebol.