«Cristiano Ronaldo é uma pessoa espetacular»
Ricardo Costa, 22 vezes internacional A por Portugal, esteve em três Mundiais (2006, 2010 e 2014), num registo em que é apenas superado por Pepe (quatro participações) e Cristiano Ronaldo (cinco).
- As três fases finais em que esteve foram as três primeiras de CR7. Como é que viu a evolução dele ao longo desses três torneios?
- Na verdade, eu vou começar a falar de antes, porque fizemos três Mundiais seguidos, mas o Cristiano Ronaldo já estava na minha seleção nos sub-21 e já mostrava desde daí a sua capacidade e qualidade. Na altura, tínhamos uma seleção muito boa, em que ele já mostrava todos os seus índices. Ao longo dos anos, mostrou o que é ser um profissional de futebol e o que é ser um craque tanto dentro e fora de campo. Como pessoa é espetacular, é super amigável, amigo do amigo, com quem podes sempre contar. E depois como profissional é o jogador que toda a gente vê. É um super atleta, que busca sempre o sucesso. Onde ele está quer sempre o máximo e exige aos demais que também sejam assim. Por isso, o crescimento dele foi normal e para mim foi sempre um prazer ter o Cristiano como capitão de equipa, mas também como amigo fora do futebol. E é daquelas situações que só podemos dar-lhe os parabéns por todo o sucesso que teve. Acho que é meritório e ele pode gabar-se disso, porque tem conquistas atrás das conquistas, Bolas de Ouro atrás de Bolas de Ouro, tem Mundiais, Europeus, tudo por mérito próprio. E o sucesso dele vai também ser o sucesso dos demais e os demais se se juntarem a ele etentarem ser como ele, logicamente estão mais perto de vencer. E isso aconteceu no Mundial de 2006, quando conseguimos o 4.º lugar. Depois em 2010 com ele a liderar um processo de uma equipa diferente com outro selecionador [Carlos Queiroz]. É importante ver isso: em 2006 [Scolari] foi um selecionador, em 2010 foi outro e em 2014 [Paulo Bento] outro. O Cristiano fez parte de todas estas passagens e nós aportávamos sempre também um pouco mais com ele ao lado.
- O que falhou em 2010, no Mundial de 2010?
- Acho que o problema foi termos apanhado a Espanha naquele momento [oitavos de final]. Perdemos o 1-0, mas, se fosse hoje, o VAR anularia, porque o Villa [marcador] estava fora de jogo. Sabíamos que esse jogo ia ser crucial. Jogámos contra o Brasil antes, que tinha uma capacidade fora do normal e conseguimos empatar. Tínhamos uma grande equipa, excelentes jogadores, Deco, Simão, um Cristiano fora do normal. Entre nós, pensávamos que conseguiríamos chegar longe. Mas apanhámos a Espanha naquele momento, que na altura tinham dos melhores do mundo, tinham sido campeões europeus. A minha marca nesse jogo foi a simulação do Capdevilla e ter levado o cartão vermelho num lance em que eu estou longe do adversário. Todo um conjunto desses fatores negativos que aconteceram ditou o nosso afastamento de uma luta pelo Campeonato do Mundo.
- E em 2014?
- Acho que a preparação, a maneira como fomos para o Brasil... o grupo de trabalho era espetacular, o mister Paulo Bento ajudou muito. A maior parte das pessoas também não sabe, mas o Cristiano estava a jogar lesionado. E, quer queiramos quer não, a performance dele não estava no nível que ele próprio queria e gostaria de estar, porque sabíamos que era a nossa mais-valia. O Cristiano era um suporte muito importante para o nosso estilo de jogo, para a nossa capacidade de finalização. Depois apanhámos a Alemanha no primeiro jogo e as coisas não nos correram bem, o Pepe foi expulso e perdemos logo por 4-0. Lembro-me que as lesões também bloquearam um pouco a nossa capacidade de jogar e conseguirmos os resultados.
20 anos desde o primeiro Mundial de Ricardo Costa e... Cristiano Ronaldo
- Em termos de grupo, qual era o mais forte dos três mundiais: 2006, 2010 ou 2014?
- O de 2006. Tínhamos o Figo, o Pauleta, o Cristiano, o mister Scolari que valorizava muito o grupo de trabalho. Não é por acaso que conseguimos o 4.º lugar. Acho que a grande diferença é a união em momentos cruciais. Perdemos nas meias-finais com a França 1-0 e foi por um penálti manhoso, mas, se não tivesse acontecido, se calhar íamos a penáltis e ganhávamos e íamos à final e podíamos ter ganho a final. Depois perdemos o 3.º lugar para a Alemanha a jogar em casa. Mas o ambiente, quando partimos para a Alemanha estando naquele hotel maravilhoso que é de Marienfeld onde os adeptos portugueses estavam sempre a rodear-nos, em que o escudo português estava ali bem evidente. Conseguimos criar um ambiente fantástico. Lembro-me que toda a gente estava a desfrutar desse momento, quem jogava quem não jogava, toda a gente sabia o seu espaço e havia um grupo coeso, um grupo de irmãos, de amigos. Normalmente, é assim que os grupos têm sucesso.
- Foi há 20 anos. E Cristiano Ronaldo ainda lá está. E, em princípio, estará também no próximo Mundial. Quais são as expectativas?
- Espero que Portugal vá longe. Temos uma excelente seleção, com excelentes individualidades, jogadores com uma qualidade acima da média em todas as posições, o que é muito raro. Portugal tem um líder à frente, o Cristiano, que vai ser o exemplo, vai puxar pelos outros. Pelo espírito que existe com o selecionador Martinez, penso que Portugal poderá fazer uma boa figura e ganhar o Mundial.
Martínez tem de começar a fechar o grupo
- Portugal tem compromissos no fim de março. Acha que Roberto Martinez pode surpreender na convocatória?
- O mister Martinez já viu muitos jogadores. Penso que está a chegar a altura em que tem de começar a fechar um pouco o grupo e a própria observação de jogadores para começar a idealizar o que é grupo, o que é a família de seleção nacional, porque daqui a dois meses já estão em estágio e daqui a três é o primeiro jogo. Por isso, se tiver que surgir um jogador ou dois jogadores no máximo para avaliação, será agora nesta chamada, porque não me parece e também não é o mais lógico estar a chamar jogadores para avaliar num espaço curto, com o Mundial aí a bater à porta.