As 'duras' de Ricardo Costa a Mora são agora motivo de felicidade
Depois de brilhar dentro de campo, numa carreira de 20 anos ao mais alto nível, Ricardo Costa virou-se para o treino. Atualmente, o antigo central (e, às vezes, lateral) da seleção nacional comanda o Feirense da Liga 2.
- Como tem sido a experiência nos fogaceiros?
- Está a correr muito bem. Estou a desfrutar imenso de ter voltado a Portugal para assumir uma equipa como o Feirense, com um passado histórico no campeonato português, que está agora a tentar lutar com os seus meios pela manutenção da Liga 2. Estamos a conseguir o objetivo, vamos lutar e trabalhar diariamente para continuar a crescer, evoluir e conseguir a tal manutenção.
- Quando assumiu foi esse o projeto que lhe foi proposto?
- Sim, era para a manutenção e aposta em jogadores jovens. É importante contextualizar a situação do Feirense, de onde saíram muitos jogadores em relação à época passada. Foi difícil, foi uma luta constante para conseguir reforçar a equipa com jogadores de escalões inferiores, tanto nacionais, mas também do estrangeiro. Era preciso terem requisitos importantes, para serem uma mais-valia no futuro, em termos de valorização, crescimento e capacidade de ser competitivos. Mas estamos muito contentes com os jogadores que vieram, que se valorizaram. Também é importante refletir que, neste momento, já conseguimos um dos objetivos, que foi vender alguns ativos do clube, jovens, que fizeram um brilharete com a camisola do Feirense. Entraram outros jogadores jovens com ambição, com garra e determinação para ajudar a equipa a conseguir o principal objetivo.
- Assinou contrato por um ano, acaba em junho. O que é que está em cima da mesa?
- Quando abracei o projeto do Feirense, falei com a administração e com o próprio presidente e decidimos que iria muito depender da minha capacidade de conseguir os objetivos do clube, que era a valorização de ativos, construção de um plantel forte e que preparasse o futuro para ser sempre super competitivo e conseguisse ser um clube vendedor. Neste momento, estamos a conseguir o objetivo. No final da época, teremos uma reunião e fazemos a reflexão de final. Tanto seja para continuar, tanto seja para abandonar. Como é lógico, se fosse para subir de divisão a renovação era automática, mas, neste caso, com a manutenção, vamos sentar-nos para tomar uma decisão.
- É público que recusou o Farense recentemente. O que o fez rejeitar essa proposta?
- A realidade é que fiquei extremamente contente e agradeço a confiança depositada pelo Farense. Mas não era o momento ideal, não só pelos jogadores com quem continuo a trabalhar, mas também pela estrutura do Feirense que acreditou em mim para conseguir os objetivos e pela forma como as pessoas - tanto o presidente do clube, o diretor geral e o diretor desportivo - sempre me trataram. Foi por isso que não deu o passo de abandonar e aceitar o convite do Farense.
Os adeptos do Feirense exigem demasiado... e bem
- Esta época já houve alguns momentos contestação por parte dos adeptos. O que está a faltar para haver mais consistência?
- É a exigência de um clube de futebol que vive diariamente o dia a dia da equipa. Muitas vezes temos alguns adeptos que vão ver os treinos, que exigem demasiado e bem dos jogadores, do próprio treinador, para que cada jogo que seja uma vitória para a nossa equipa. Mas também sabemos que é muito complicado conseguirmos os três pontos em todos os jogos e custa-nos mais quando não conseguimos pontos em casa, porque queremos dar esta alegria aos adeptos. Mas sabemos que a Liga 2 é muito competitiva. Sabemos que duas vitórias conseguem pôr-te a lutar pelo meio da tabela ou até pelo pelo play-off de subida. Mas, se tens duas derrotas, já estás ali quase na linha de água. E estes sobressaltos semanais mexem um pouco na sensibilidade dos atletas e muito mais na sensibilidade dos adeptos, porque fazem parte de um povo exigente, que gosta muito de vencer, tem uma alma e uma vontade imensa de festejar e querem festejar connosco. Nós compreendemos, como é lógico. Não gostamos de ouvir em nossa casa certos apupos, mas temos de saber lidar com esse momento. Também já tivemos fases boas em que os adeptos nos felicitaram.
- A Liga 2 é muito imprevisível. Isso é bom ou não?
- É bom sinal. Falando da minha equipa, sinto que para um jovem ter tantas dificuldades semanalmente é muito bom para o crescimento. É uma aprendizagem a cada semana, a cada preparação para um jogo, a cada exercício que estamos a aplicar em treino para conseguirem interpretar melhor o que é pedido e o que é exigido da equipa adversária. Sabemos que, por exemplo, neste momento, o Marítimo está isolado e é uma equipa que tem uma capacidade tanto individual como também coletiva. Nota-se que, por exemplo, o Farense neste momento está um pouco mais baixo em termos de classificação, mas tem jogadores de primeiro nível. Estamos a ver o Torreense, a própria UD Leiria, que são equipas que têm outra capacidade em termos monetários. Em termos de orçamento, podemos dizer que somos a equipa mais baixa da II Liga, e estamos a competir contra equipas como o Académico de Viseu, que tem um dos melhores pontas de lança da liga, o Marítimo, com uma das melhores equipas, a UD Leiria e o Vizela, que têm uma capacidade individual fora do normal. Agora, nós somos uma equipa que gosta desta competitividade, sabemos que podemos ter muitas vezes dissabores, mas também podemos criá-los. E aquilo que nós queremos incutir sempre na nossa equipa é atitude, agressividade, busca constante de fazer golo e lutar constantemente para não sofrer, para conseguirmos sempre o nosso melhor resultado. A Liga 2 é muito competitiva e é por isso que toda a gente quer vir para cá jogar e treinar, porque sabem que cada semana é um desafio especial e diferente.
- Saíram alguns jogadores importantes, em janeiro, mas também entraram outros. Como é que isso mexeu com as dinâmicas da equipa?
- Foram três peças importantes que saíram. Saiu o Leandro, que era o nosso matador. Saiu o Nile John, para mim era dos jogadores com mais valor em termos de individuais na nossa equipa. Saiu o Gabi Costa, que era uma aposta do início em que vinha para se formar, para crescer numa posição nova, de 6, e que fez uma excelente pré-época e que nós vimos ali requisitos importantes para o sistema que estamos a aplicar no Feirense. Foi vendido também ao Lugo. E depois entrou o João, porque precisávamos de um ponta de lança versátil, com golo, com chegada à área, com capacidade de ter bola, com capacidade de fazer ligação. E fomos buscar o Novero, que é um jogador de corredor, que tem uma mentalidade, postura, agressividade, busca constante de remate e finalização acima da média. E estamos a incorporá-los na equipa.
Central transformado em 6: Ricardo Costa fala do filho
- Queria focar na saída do Gabi Costa para o Lugo. Foi mais importante para o jogador?
- Fez seis meses espetaculares, com a chamada à seleção sub-20, considerado pelos outros treinadores, e não pelo pai (risos), como um dos melhores médios e jovens da Liga 2. E o Gabi sentiu que era o momento de partir para uma liga muito competitiva, que ia ajudá-lo no crescimento tanto dele para jogar no meio-campo. Muitas vezes em Espanha jogam em 4-2-3-1 e jogam com um duplo médio em que ele vai ter um papel importante não só defender, mas também atacar, e isso ajuda muito no crescimento dele, porque era um jogador que antes jogava como defesa central e que foi readaptado pelas características de ser um jogador forte no jogo aéreo, no duelo, um excelente recuperador de bolas… E depois que joga e conecta simples para poder chegar e fornecer jogo aos restantes colegas de equipa. Mas eu penso que foi uma mais-valia para o Gabi, foi uma escolha do Gabi. Eu, como pai, fiquei triste porque perco o miúdo que tinha em casa e que eu encontrava depois no treino, mas estou extremamente feliz por ele. Está na sua aventura, tem mais dois anos e meio de contrato em Espanha e que seja feliz.
- Já descreveu o Gabi como jogador. É melhor que o pai?
- É diferente do pai, cada um tem as suas características. As eras eram diferentes. A carreira do pai fala por si mesma, não preciso estar a expô-la, o que fiz e o que conquistei foi por mérito próprio. E agora espero que o Gabi consiga fazer uma excelente carreira, alcançar os objetivos que pretende, chegar às equipas que tanto quer e que seja feliz.
- Como era feita essa gestão de papel de pai, e depois treinador, e depois pai novamente?
- Para ele eu acho que foi mais difícil, porque é complicado um menino de 18 anos entrar numa equipa de nível sénior, saindo da formação e entrar numa equipa super competitiva e sabendo que entrava numa Liga 2, em que ia apanhar equipas e adversários muito complicados. Desde que entrava no portão do clube, o Gabi era como um jogador. A mim não me importava muito e não me importa o nome do jogador, não me importa minimamente. Se tiver que dar uma dura ou dar uma repreensão ou elogiar, tanto fazia ao Gabi como fazia ao Leandro, como fazia ao Nile ou ao Meixedo. Para mim é igual, porque eu penso simplesmente no coletivo. Não penso quem é o Gabi, o que é o Gabi fora do portão e o que é o Gabi dentro do portão. Consigo separar muito bem. Sou super competitivo, sou super exigente e a minha exigência levou-me a chegar onde cheguei e é aquilo que eu quero passar sempre aos meus jogadores. Com humildade, compromisso, lealdade no trabalho, consegue-se sempre o mais importante que todos buscamos: o êxito.
Uma luta para fazer Mora defender: «Ficava chateado»
- Sobre lidar com meninos o Ricardo está habituado. Treinou os escalões de formação do Porto onde encontrou o Rodrigo Mora. Como é que vê o crescimento dele?
- Nessa geração já tínhamos jogadores com referência e projeção de equipa A. O Rodrigo Mora era um deles. Tínhamos mais alguns, também tínhamos o Teixeira, o Gonçalo Sousa, jogadores com capacidade de chegada à equipa principal. O Mora já se sabia que era um superdotado e queríamos desenvolvê-lo o mais rápido possível para essa adaptação a exigências superiores. O Mora era um superdotado e continua a ser. Neste momento, está mais jogador, mais maduro, é um jogador que já interpreta bem todos os momentos de jogo. Na altura, com a idade, com a própria irreverência, por vezes, custava-lhe que eu o chamasse a atenção porque tinha que ajudar no processo defensivo. Ficava um pouco chateado, tínhamos que lutar constantemente para ele o fazer. Mas ele sempre teve um perfil exemplar de saber ouvir, saber crescer. Sabia que estávamos a aportar coisas importantes para o futuro dele e veio a realizar-se. Há outro jogador que também já está lá, que é o André Miranda. Tive o prazer e o privilégio de trabalhar com ele. É um jogador a quem, com carinho, lhe dava cabo da cabeça constantemente porque acreditava na qualidade dele. Era um jogador forte, que jogava muito bem de cabeça, tinha um remate muito potente e era um muito forte no um contra um, com uma potência fora do normal. E já víamos ali a qualidade nele, para poder ser jogador de equipa A como está a vir a acontecer neste momento. Fico extremamente contente. Mas também fico contente pelos outros jogadores que estão na equipa B que passaram pelas minhas mãos.
- Fala certamente dos campeões do mundo por Portugal sub-17. Que futuro lhes traça?
- Fiquei extremamente feliz por esses meninos, porque sabia que eles tanto ambicionavam ter sucesso na seleção nacional. Como é lógico, ter um central que é o Chelmik, a quem eu podia aportar conhecimento e experiência em termos de tomadas de decisão mais precisas e corretas do que ele estava a tomar. Depois vendo o Mide como o matador da nossa equipa. O Yoan, um jogador que podia jogar a extremo e a lateral. E depois ter o Lima, que era já um dos capitães, mas que teve o azar de ter uma lesão que no momento complicou o próprio lugar dele na equipa. São estes jogadores que me deixam muito feliz, porque, trabalhando com eles e depois vendo o sucesso, dando-lhes aquele carinho, aquele afeto, abraço acolhedor, é gratificante e fico extremamente contente. Espero que sejam o futuro da seleção e do FC Porto.
- Acha que já mereciam uma oportunidade na equipa A, como aconteceu com o André Miranda?
- Tudo tem o seu tempo. Não precisamos precipitar os momentos dos jogadores. Sabemos que são miúdos que estão a adquirir muito conhecimento e a fazer um excelente trabalho na equipa B. Sei que alguns já foram chamados à equipa A, mas faz parte do processo. A ansiedade para chegar a esse patamar, às vezes, não é benéfica. Penso que o mais importante é levar isto com naturalidade, patamar a patamar, para conseguirem chegar onde querem, mas com capacidade de se manterem na equipa A. É importante não chegarem lá só por chegar e depois terem uma deceção, não estarem preparados, começarem a quebrar em termos mentais, a duvidar das suas capacidades e caírem no abismo.