«Jorge Costa era a pessoa mais amável do mundo»
No FC Porto, Ricardo Costa só não ganhou mesmo a Supertaça Europeia. Foram sete anos em cheio. Foi feliz, campeão europeu, capitão, levou ensinamentos para a vida e ainda herdou a mítica camisola número 2 do seu ídolo Jorge Costa.
- Falar do FC Porto é inevitável. Foi lá onde ganhou praticamente tudo, desde a Liga dos Campeões às Taças de Portugal. Quais são as melhores recordações que guarda desses tempos?
- Todos os momentos que passei no FC Porto foram especiais. A conquista desses títulos todos deveu-se a termos grupos de trabalho fora do normal, fenomenais. Éramos amigos e havia uma união enorme entre todos e uma capacidade de saber encaixar cada um no seu lugar. Tínhamos sempre ao lado o próprio presidente [Pinto da Costa] e o falecido Reinaldo Teles. Era o vice-presidente, mas era uma pessoa muito chegada a nós e que respeitávamos muito. Com um simples cumprimentar do presidente antes de entrar para dentro do balneário já sabíamos o que nos esperava e a confiança que ele nos passava. Tive excelentes treinadores. Quem me lançou para o futebol profissional foi o Fernando Santos, numa chamada para o jogo do Estrela da Amadora. Num segundo momento, o Octávio Machado lançou-me no primeiro jogo oficial pelo FC Porto contra o Boavista, outra equipa especial para mim. E depois apanhar o José Mourinho foi o momento mais importante na minha carreira no FC Porto, porque aí consegui ganhar títulos. O que é ser Mourinho ajudou-me muito: o que é ser atleta, o que é ser profissional, o que é saber esperar e trabalhar em silêncio para conseguir o objetivo que às vezes queremos para amanhã, mas que tem de demorar um certo tempo para o conseguirmos alcançar e vencer. E o mister Mourinho passou-me muita sabedoria, para encarar o futuro. Encarávamos cada jogo como se fosse uma final e sabíamos que íamos ganhá-lo. O FC Porto deu-me todos os títulos, mas saio de lá com uma certeza: o Ricardo Costa, no início o 45 passou, depois o 5 e por fim a mítica camisola número 2 e capitão de equipa do FC Porto, saiu de lá com uma história linda.
- Herdou essa mítica 2, de Jorge Costa. Que peso é que isso teve na altura?
- Na altura foi dar continuidade à personalidade, à maneira de ver e ser jogador à FC Porto, a capacidade de liderança, a capacidade de saber lidar com os colegas e também exigir dos colegas e ter uma capacidade de frontalidade e honestidade.
- Qual era a ligação que tinha com o Jorge Costa?
- De pai para filho. O Bicho… o Jorge, como eu o tratava muitas vezes, era um ídolo que no início só via jogar. Ele e o Fernando Couto eram as minhas referências como defesa central. Via o que eles faziam e o tentava fazer. E depois trabalhar com ele era estar em silêncio e observar. Eu gosto de ser muito observador, gosto muito de ver o que é que eles fazem, as coisas com que o Jorge lidava e como lidava. Veio a público uma história em que o Bicho [no intervalo de um jogo em que perdiam ante o Belenenses] mandou o Mourinho esperar fora do balneário e tratou ele de tudo o que tinha a tratar. Eu estava lá e sei muito bem o que se passou e o que é que ele fez.
- O que foi?
- Não posso contar, são segredos de balneário (risos). Peço desculpa, mas são coisas segredo de balneário e isto é que é ser um pouco protetor dos momentos que vivemos, porque são momentos que só nós é que sabemos o que temos que fazer para superar e ter a capacidade de dar a volta a um jogo em que perdíamos por falta de capacidade nossa, mas também por falta de profissionalismo e de humildade que não estávamos a ter perante o adversário. Quando o mister Mourinho entrou já estávamos todos preparados, com as caneleiras postas, a meia para cima e preparados para entrar, porque já sabíamos o que tínhamos que fazer. São momentos em que o Jorge me ensinou que, muitas das vezes, quando estou sob pressão - e agora como treinador tento passar para os meus jogadores -, às vezes, não é importante dar um murro na mesa, mas sim dar confiança. E, outras vezes, sim, dar esse murro e não dar confiança, deixando-os desconfortáveis, porque há momentos em que o jogador é demasiado confortável, quando o jogo quer que seja muito mais profissional e humilde.
- Percebo que o Jorge Costa significava realmente muito no balneário.
- Muito. Era sempre a presença máxima do FC Porto. Primeiro o presidente, depois o senhor Reinaldo Teles e depois o Jorge Costa. E nessa altura quando eu, que era miúdo, chegava lá já sabia onde é que o Jorge Costa estava, sabia o que estava a fazer. Sabia que, se ele estivesse muito calado, estava chateado com alguma coisa. Se estivesse muito feliz, sentia que o grupo estava bem. Quando eu cometia um erro , no momento, não criticava, mas quando acabava o treino ia ter e batia comigo: 'O que é que se passa? Tudo bem? Precisas de ajuda? Tranquilo, isto pode acontecer, a nossa vida é feita de momentos maus, mas tens que ter capacidade e acreditar no teu valor, tens que acreditar no trabalho e as coisas vão voltar à normalidade'. Isto é ser um líder. E o Jorge Costa era assim. O Jorge era amigo do amigo e era a pessoa mais amável do mundo. No momento em que foi para o Charlton, fomos fazer um amigável com ele e toda a gente o adorava no Charlton. E depois quando ele voltou toda a gente ficou contente e radiante por ter o Bicho de volta. Para se ver a grandeza do nosso mítico número 2.
As «grandes trutas» que apanhou pela frente
- Já disse que o Jorge Costa e Fernando Couto eram os seus ídolos. Há mais algum que queira destacar?
- Eu gostava muito do Nesta. Esses três jogadores foram sempre uma referência para mim e sempre tentei ser parecido com eles, tentando juntar um pouco as características dos três nas minhas e tentar limar deficiências que tinha. Por exemplo, o Nesta tinha uma capacidade de ligação fora do normal. O Jorge tinha uma capacidade de liderança, de pujança, duelo muito forte. O Fernando Couto era a impulsão, o jogo de cabeça, desarme e leitura de jogo. Então era pegar nestas componentes todas tentar e fazer o Ricardo. E consegui ser feliz, consegui jogar em muitos países. Fui feliz na Alemanha também, onde fui campeão. E consegui a minha proeza máxima que foi ir para Valência e ter desfrutado da melhor liga do mundo para jogar e ver.
- Quem foram os jogadores mais duros de enfrentar? Desconfio que tenha sido nessa fase do Valência…
- Epá, eu apanhei grandes trutas pela frente. Primeiro de tudo o nosso capitão, o Cristiano Ronaldo. Colega, mas depois quando jogava contra mim no Real Madrid era muito complicado. Às vezes, quando o apanhava nos treinos da seleção, já era uma dor de cabeça dos diabos (risos), em que muitas vezes tinha que de ir para o corredor. Às vezes, também o apanhava como ponta de lança e não era fácil. Mas apanhei o Ronaldo Fenómeno, o Zidane, o Ronaldinho Gaúcho, o Munitis, o Negredo, Iniesta, Xavi, o próprio Roberto Carlos, que eu sou um apaixonado por ele. Apanhei inúmeros jogadores com uma capacidade fora do normal. E na liga espanhola estavam lá os melhores.