Raios-X à arbitragem
ANALISANDO o contexto das competições internas de futebol em Portugal, a ideia com que fico é que se não fossem os árbitros estaria tudo bem com a maior parte dos clubes. É demasiado fácil justificar perdas de pontos, erros próprios, decisões desajustadas ou épocas mal preparadas com os erros das equipas de arbitragem ou do VAR.
CRÍTICAS E CARACTERÍSTICAS
Osetor da arbitragem e todos que o envolvem, devem ter a noção da dificuldade da sua função e do contexto onde estão inseridos. Esta perceção é fundamental para se poderem posicionar de uma forma correta. O futebol evoluiu muito nos últimos anos e a arbitragem não fugiu à regra, com a introdução do quarto árbitro, posteriormente com a possibilidade de todos interagirem entre si em tempo real ou, mais recentemente, a introdução do VAR. Por muito que a tecnologia avance e permita o acesso a melhores ferramentas, existem duas características que os árbitros deveriam ter e que me parece que escasseiam em Portugal. A minha opinião está fundamentada não só no que vou analisando semana após semana, mas também na experiência que tive enquanto jogador. Ao olhar para muitos dos especialistas nesta área sinto que, na maior parte deles, estas duas características que vou enunciar nunca estiveram presentes, sendo este um mal da arbitragem. São aqueles que já lá estiveram, e que passaram pelas mesmas dificuldades, os primeiros a criticar tudo e todos. Agora do lado de fora são, muitas vezes, demasiado agressivos nas críticas efetuadas. A primeira característica que um árbitro precisa para desempenhar bem a sua função é ter personalidade. Dentro do relvado vive-se uma ‘vida à parte’. Personalidade é ter a noção do jogo, dos protagonistas, do ambiente e ter a capacidade de manter a autoridade sem exageros, ser coerente nas decisões independentemente de quem se tem pela frente. A segunda é ter sensibilidade. Claro que devem dominar as 17 leis do jogo, mas não de uma forma robotizada. O futebol é um jogo de emoções, dentro e fora do relvado. Por norma, gosto de suportar as minhas opiniões em bons exemplos. No jogo Ajax-Sparta para a liga neerlandesa, Kudus (jogador do Ajax) faz o 4-0, levanta a camisola e homenageia Atsu (ex-jogador de FC Porto e Rio Ave). Pelas leis do jogo, deveria ter sido admoestado com um cartão amarelo, mas não foi. O árbitro Paulus Boekel chamou Kudus, bateu com a mão no coração e explicou que não o ia admoestar. Uma atitude que demonstra a personalidade e sensibilidade do árbitro em questão, que não cumpriu as leis do jogo, porque há muito para além do futebol.
«Arbitragem portuguesa receia falar abertamente dos seus erros»
A LEI DO FAROESTE
SERÁ que os nossos árbitros ou VAR são muito piores que os de outras ligas? Tenho tido a oportunidade de ver muitos jogos de outros campeonatos, nomeadamente de Inglaterra ou Alemanha, e a conclusão a que chego sempre é de que a qualidade da arbitragem nestes países não é diferente da nossa. A diferença está num contexto muito mais benéfico, a todos os níveis, para as equipas de arbitragem. Estou a referir-me a dois pontos de análise muito simples e percetíveis: primeiro, os intervenientes têm muito mais respeito por aqueles que têm como missão gerir as regras do jogo. Não sei se esse respeito é natural ou imposto, mas a realidade é que os protagonistas não colocam em causa a autoridade dos árbitros dentro do relvado e mesmo fora dele. Volto a dar um exemplo recente. O treinador do Bayern, Julian Nagelsmann, criticou de uma forma dura a equipa de arbitragem num jogo. Como consequência, teve de pedir desculpas publicamente e foi penalizado com uma multa de 50 mil euros. Esta penalização foi sentida pelo próprio e, em simultâneo, serve de exemplo para todos aqueles que vierem a ter um comportamento incorreto. Por cá, as multas são irrisórias. Os prevaricadores colocam em causa os castigos e escolhem os timings em que os podem ou não cumprir. O segundo ponto de diferenciação entre a liga portuguesa e as outras ligas é a forma como todos os que estão envolvidos no fenómeno do futebol tratam as ameaças que são feitas às equipas de arbitragem. Em muitos casos, em Portugal, promovemos este tipo de conduta através de políticas de comunicação muito agressivas por parte dos clubes, e de interpostas pessoas, que dizem defender as suas cores. No estrangeiro demove-se este tipo de comportamentos. A realidade é que quem gere as competições em Portugal não tem tido a capacidade de dar um passo em frente, de criar regras que sejam respeitadas por todos e que possibilitem um foco maior no jogo jogado, retirando pressão àqueles que são sempre os bodes expiatórios das derrotas ou épocas mal conseguidas.
POR CÁ E LÁ POR FORA
Oque não deixa de ser interessante e até caricato é que os mesmos clubes que criticam ferozmente a arbitragem em Portugal, chegam às competições europeias e são muito mais comedidos. Porquê? Por vários motivos. O primeiro, porque todos os clubes portugueses precisam das competições europeias para valorizar ativos e potenciar uma fonte de receita. O segundo, porque a dimensão do nosso país é reduzida e, independentemente de termos clubes com uma grande história europeia, não temos força nas grandes decisões. O terceiro, mais uma vez, é porque existem regras duras que se baseiam em coimas e castigos pesados. A grande conclusão é que os nossos clubes sabem ter comportamentos corretos, desde que existam regras bem definidas.
COMPETÊNCIA E EXIGÊNCIA
TENHO a perfeita noção que o trabalho dos árbitros ou VAR em Portugal é extremamente difícil. Mas esta não pode nem deve ser uma desculpa. Os critérios de avaliação e exigência deverão continuar a sobrepor-se a tudo o resto. Se um jogador falha muitas vezes é substituído por outro. Na arbitragem tal também deve acontecer, de uma forma célere e transparente. Volto a analisar exemplos de outras ligas. Em Inglaterra, o Arsenal perdeu dois pontos por erro óbvio por parte do VAR. Como resultado, o árbitro que estava no VAR foi imediatamente excluído dos jogos que iria apitar e foi efetuado um pedido de desculpas ao clube penalizado. De uma forma rápida, penalizou-se quem errou e sem receio assumiu-se o erro perante o clube penalizado. Nos dias de hoje, saber comunicar é fundamental. Visto de fora, parece-me que o sector da arbitragem ‘joga’ demasiado à defesa, tem receio de falar abertamente dos seus erros e da forma como os pode evitar. Pode ser um reflexo da pressão que é constantemente exercida sobre si, mas quanto mais se isolar maior pressão terá.
A VALORIZAR
Seleção feminina. O futebol feminino está a evoluir a passos largos. O apuramento para o Mundial é um passo de gigante e premeia o esforço de um conjunto de pessoas que, com a sua dedicação, tem tido uma enorme importância no crescimento e desenvolvimento do futebol feminino em Portugal.
Pedro Gonçalves. Quando joga em posições mais avançadas no terreno demonstra toda a sua irreverência, capacidade de definição e de desequilíbrio. Numa semana fez 4 golos em dois jogos.
A DESVALORIZAR
Liverpool. O Liverpool é uma sombra do que foi num passado recente. Depois de estar a vencer por 2-0 o Real Madrid, acabou por perder por 2-5. O plantel tem qualidade, mas o coletivo não funciona.