Reinaldo Teixeira, presidente da Liga Portugal - Foto: André Carvalho
Reinaldo Teixeira, presidente da Liga Portugal - Foto: André Carvalho

Quando o impossível acontece

'Liga para Todos' é o espaço de opinião de André Mosqueira do Amaral, diretor Executivo da Liga Portugal

Há momentos no futebol português que podem passar despercebidos ao grande público, mas que têm um impacto profundo no futuro do nosso jogo. A aprovação da chave de distribuição das receitas audiovisuais do Futebol Profissional português é um desses momentos. Aquilo que durante anos muitos consideraram impossível aconteceu. E aconteceu com uma maioria superior a 80% dos votos.

Num setor onde coexistem realidades muito diferentes, interesses legítimos e visões muitas vezes opostas, alcançar este nível de consenso parecia, para muitos, uma missão impossível.

Nos últimos meses tive o privilégio e a responsabilidade de liderar este processo em nome da Liga Portugal. Foram centenas de horas de trabalho, dezenas de reuniões individuais e coletivas, inúmeras simulações, análises, propostas e contrapropostas. Acima de tudo, foi um exercício permanente de escuta.

Desde o primeiro dia, a equipa procurou compreender as preocupações, ambições e receios de cada Sociedade Desportiva. Não para concordar sempre com todas as posições, mas para garantir que todas eram ouvidas e consideradas. Muitas das sugestões que foram surgindo ao longo do caminho refletiam visões diferentes — e por vezes contraditórias — do que deveria ser o futuro modelo distributivo. O desafio foi precisamente encontrar um ponto de equilíbrio que, mesmo não sendo perfeito para ninguém, pudesse ser justo e sustentável para todos.

Mas este resultado não pertence a uma equipa: o mérito do seu sucesso pertence às Sociedades Desportivas que compõem o Futebol Profissional português. Foram os seus presidentes e dirigentes que demonstraram maturidade, responsabilidade e visão estratégica para olhar além dos interesses imediatos de cada instituição e colocar o futuro coletivo do futebol português em primeiro lugar.

É isso que mais me impressiona quando olho para trás; mais do que a aprovação da chave, fica a satisfação de ter testemunhado um ambiente de diálogo, serenidade e respeito que muitas vezes não é visível para quem acompanha o futebol apenas do exterior. Houve divergências, debates intensos e posições firmes. Mas houve também uma vontade genuína de construir.

E talvez essa seja a maior conquista de todas.

As nossas Sociedades Desportivas provaram que, quando estão em causa decisões estruturais para o futuro do futebol português, conseguem unir-se. Conseguem encontrar pontos de convergência. Conseguem pensar a longo prazo.

Agora, com esta etapa ultrapassada, os nossos presidentes podem regressar às rivalidades, às críticas, às provocações e ao folclore que fazem parte da paixão do futebol. Porque demonstraram algo muito mais importante.

Demonstraram que, quando o futuro do futebol português está em causa, sabem ser unidos, maduros e responsáveis. Sabem colocar o coletivo à frente do individual.

E isso valeu todo o esforço. No dia 8 de junho de 2026 não venceu nenhum clube. Venceu o futebol português.

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