«Prefiro ser maricas do que ser como os que me insultam»
Borja Iglesias, avançado espanhol do Celta de Vigo, é uma figura singular no futebol. Com as suas unhas pintadas, o seu ativismo contra a homofobia tem deixado uma marca indelével em Espanha.
Em meados de janeiro, centenas de adeptos do Celta de Vigo, tanto homens como mulheres, foram ao estádio com as unhas pintadas em solidariedade com o jogador. Este gesto de apoio surgiu dias após o espanhol ter sido alvo, mais uma vez, de uma onda de insultos homofóbicos nas redes sociais depois de um jogo contra o Sevilha.
Após passagens por vários clubes da Liga espanhola e pelo Bayer Leverkusen, o avançado regressou ao clube da sua região há um ano e meio. Juntamente com os seus amigos e ex-colegas do Bétis, Héctor Bellerín e Aitor Ruibal, Iglesias tornou-se uma das principais vozes do futebol espanhol na luta contra a homofobia.
O seu ativismo, no entanto, não se fica por aqui. O jogador, conhecido como Panda, tem-se manifestado a favor da Palestina, contra a masculinidade tóxica e em defesa do futebol feminino. Em agosto de 2023, anunciou mesmo a sua retirada da seleção espanhola em protesto contra a não demissão de Luis Rubiales, então presidente da Federação, após este ter beijado à força a jogadora Jennifer Hermoso. Com a posterior saída de Rubiales, Iglesias foi novamente convocado e poderá vir a disputar o Mundial.
O avançado explicou que começou a pintar as unhas durante o confinamento, mas que inicialmente receava a reação do público. O ponto de viragem foi o movimento Black Lives Matter. «Marocou-me muito. Pintei então as unhas de preto para dar alguma visibilidade a essa causa e combater o pensamento racista em Espanha», afirmou, ao L'Équipe, acrescentando que vê o gesto como uma forma de expressão, semelhante a um corte de cabelo ou uma tatuagem.
Sobre os insultos homofóbicos que recebe regularmente, Iglesias admite que no início o afetavam pessoalmente. Contudo, a sua perspetiva mudou.
«Ser chamado de maricas não o considero um insulto. Quando alguém diz isso, penso que seria muito mais feliz a ser maricas do que a ser como ele, cheio de ódio», declarou. «O que me incomoda é que uma pessoa homossexual tenha medo de o assumir por causa deste tipo de reações. É inaceitável não poder ser quem se é e amar quem se quer.»
O avançado do Celta de Vigo recorda ainda o papel de outros futebolistas que desafiaram as normas. «Jogadores como David Beckham ou Guti propuseram visuais e um modelo de masculinidade diferentes. Eles mudaram a imagem do futebol e ajudaram-nos a ser mais livres», disse.
«Sinto a pressão de ter de ser uma espécie de justiceiro»
A impossibilidade de os futebolistas gays assumirem a sua orientação sexual é um tema que entristece o jogador, que recorda o caso do australiano Josh Cavallo, que desde que o fez em 2021 se queixa da homofobia que sofre. «Eles devem sentir, e eu compreendo muito bem, que se falassem, perderiam tudo o que conquistaram», lamenta, expressando a esperança de que se crie um «ambiente suficientemente saudável para que cada um possa fazer o que lhe apetece sem que ninguém julgue o seu trabalho por isso». Apesar de sentir que se está «mais perto do que nunca desse momento», a realidade é que «infelizmente ainda se está longe».
O jogador sente que os colegas que defendem posições que considera problemáticas o fazem «por medo de perder o que têm». Recorda uma entrevista em que afirmou que Aitana Bonmatí e Alexia Putellas geravam mais receitas do que ele, o que causou controvérsia no balneário. «Disseram-me: "Mas não podes dizer isso! Não é verdade!"». Após um debate, os colegas acabaram por concordar: «Elas são as duas últimas vencedoras da Bola de Ouro, obviamente que têm um impacto maior do que eu».
Esta postura ativa traz consigo uma nova responsabilidade: «Hoje, sinto a pressão de ter de ser uma espécie de justiceiro.»
O jogador também se pronunciou sobre a questão salarial no futebol feminino, esclarecendo que o objetivo não é retirar dinheiro aos homens. «Dei-me conta de que os meus colegas de equipa tinham medo de ser menos bem pagos se as futebolistas o fossem mais. Mas não se tratava disso! O futebol feminino precisa de obter mais dinheiro para desenvolver a sua formação e infraestruturas», defende, argumentando que um maior investimento aumentará a atratividade da modalidade.