Portugal de Pessoa é muito maior do que o dos venturas
Há mais de cinco séculos, as caravelas portuguesas percorreram mares nunca antes navegados, acrescentando mundos ao Mundo. Sempre sonhei que Portugal se completasse cinco séculos depois como o centro do Mundo onde todos vêm dar. Uma viagem em sentido inverso. Portugal como o país europeu mais a sul; país africano mais a norte; país americano mais a nascente e país asiático mais a ocidente. Que reunisse a excelência do Mundo e a paixão de quem quer partilhar connosco caminho, com respeito absoluto por quem somos, mas sem terem de abdicar da identidade que trazem e que podem acrescentar à nossa. Um Portugal que fala várias línguas, canta vários estilos musicais, prova vários sabores, reza vários credos sem que tenhamos de abrir mão do português, fado, bacalhau ou missa.
Gerson Baldé nasceu em Albufeira e tem raízes guineenses; Agate de Sousa nasceu em São Tomé e Príncipe; Isaac Nader nasceu em Faro, filho de pai marroquino. São apenas os três mais recentes galardoados por feitos no atletismo ao serviço de Portugal. Uma história comum a tantos desportistas de eleição que competem e competiram por Portugal. O país que é meu e que é deles. De direito, de nascença ou de coração. País universal, diverso e tolerante. Assim não tenhamos a desventura de estragar tudo. E saibamos integrar, com controlo e de forma faseada, não um faz de conta de portas sem escrutínio.
Porque hoje é o Dia do Livro Português, porque não (re)ler A Mensagem de Fernando Pessoa? Que nos fala da ideia de que Portugal não é apenas um país, uma realidade geográfica confinada num pequeno retângulo. Portugal é uma missão espiritual e universal. Uma identidade que se realiza no encontro com o outro, com o mar, na viagem e no desconhecido. Deixando e colhendo impressões digitais. Tornando-se muito maior do que o tamanho geográfico. O meu País tem o tamanho do Mundo, não o façam pequeno ao querer que seja monocromático…
Desporto não tem de pedir desculpa
Recebi um simpático email de um fiel leitor, que muito aprecio, a questionar a febre presidencial a que António José Seguro já se terá rendido de receber e condecorar atletas por feitos desportivos. Como se não houvesse mais portugueses, com atividades mais relevantes, segundo o próprio, para condecorar.
Vejamos: não contando com Seguro, que está a começar, Marcelo Rebelo de Sousa condecorou quase 2300 pessoas. Dessas, cerca de 400 eram desportistas, um pouco abaixo de 20 por cento. Nomes como a notável investigadora Elvira Fortunato; o professor Manuel Heitor; os diplomatas Aristides Gonçalves e Vitor Sereno; o banqueiro António Horta-Osório; a pianista Maria João Pires ou a artista plástica Joana Vasconcelos; e muitos agentes económicos e culturais, em Portugal e pelo Mundo, foram galardoados no passado recente.
O desporto não tem de pedir desculpa por receber mais atenção do que outras atividades. É uma atividade importante. Económica e social. Para a projeção e auto-estima de um país. O mal nunca esteve no destaque que se dá ao desporto. O mal está na falta de interesse e divulgação em quase todas as demais áreas