Inglaterra em pausa para hidratação no Mundial 2026
Inglaterra em pausa para hidratação no Mundial 2026 - Foto: IMAGO

Pausas para hidratação vieram para ficar e revolucionam negócio televisivo

As receitas da FIFA provenientes dos direitos aumentaram 36% durante este Mundial 2026

Apresentadas pela FIFA como uma medida de proteção médica para os futebolistas, as pausas para hidratação tornaram-se a grande revolução do Mundial 2026 e uma mina de ouro para o negócio televisivo. Estas paragens de três minutos, que ocorrem por volta dos minutos 22 e 67, abriram uma janela publicitária até agora inexistente no futebol, gerando indignação entre os adeptos mais puristas, mas prometendo mudar para sempre a forma como o desporto é comercializado.

A justificação oficial para a medida é climática. Com o torneio a ser disputado no verão em países de clima tórrido como o México e os Estados Unidos, a FIFA decidiu padronizar uma pausa que antes era aplicada apenas pontualmente em jogos com calor extremo. No entanto, o efeito colateral financeiro tem sido muito mais comentado do que a própria medida médica.

Didier Deschamps, selecionador francês, foi um dos treinadores bastante críticas com a situação e resumiu a situação de forma contundente após um particular, criticando o impacto no ritmo de jogo. «Os três minutos de pausa cortam tudo, mas a indústria está contente, há mais anúncios. Agora vamos jogar quatro quartos», afirmou.

Esta análise é partilhada por especialistas do setor, que veem nas pausas para hidratação a oportunidade ideal para vender espaço comercial a meio do jogo, algo que desportos como a NBA fazem há décadas. O futebol, com o seu relógio corrido e poucas paragens naturais, era até agora um produto menos compatível com este modelo publicitário.

Os resultados do Mundial 2026

Os números confirmam o impacto financeiro da medida. Segundo dados da iSpot citados pela Forbes, o atual Mundial já representa 13% do alcance publicitário televisivo em direto nos Estados Unidos, um salto significativo em comparação com os 2,77% do Mundial do Qatar 2022. Graças ao maior número de jogos (104 contra 64) e, em grande parte, às pausas para hidratação, as impressões publicitárias televisivas quase triplicaram no mercado norte-americano em relação a 2022.

Em França, um anúncio de 20 segundos durante uma destas pausas chegou a ser vendido por 425 mil euros, um valor apenas superado pelos espaços durante o prolongamento ou o desempate por penáltis. Não é por acaso que patrocinadores oficiais da FIFA, como a Coca-Cola e a petrolífera saudita Aramco, têm prioridade na compra destes espaços.

A Fox, nos Estados Unidos, encontrou um verdadeiro filão. De acordo com o The Hollywood Reporter, os anúncios de 30 segundos durante os jogos custam entre 175 mil e 650 mil euros. Isto significa que os 624 minutos totais de pausas para hidratação nos 104 jogos do Mundial 2026 podem gerar mais de 450 milhões de euros em receitas, um valor superior aos 425 milhões pagos pela estação pelos direitos de transmissão.

As projeções para os direitos dos Mundiais de 2030 (Portugal, Espanha e Marrocos) e 2034 (Arábia Saudita) apontam para o dobro do preço. A Forbes estima que as propostas para o mercado norte-americano possam começar nos 1.000 milhões de euros e atingir os 1.500 a 2.000 milhões. Pela primeira vez, gigantes do streaming como ESPN, Netflix, Disney, YouTube, Apple e Amazon mostram interesse real, atraídos pelo aumento do espaço publicitário.

Estratégias diferentes entre canais

A abordagem a esta nova oportunidade não tem sido uniforme. Nos Estados Unidos, a Fox optou por interromper a transmissão para publicidade em cada pausa, enquanto a sua concorrente em espanhol, a Telemundo, preferiu manter o sinal do jogo, o que lhe rendeu melhores audiências e gerou tensão entre as duas emissoras. Para evitar futuros conflitos, a FIFA decidiu agrupar os direitos de transmissão em inglês e espanhol nos próximos concursos.

Na Europa, o padrão repete-se de forma desigual. Canais como DAZN, TVE, M6 e beIN aproveitaram a oportunidade comercial. Em contrapartida, a ITV no Reino Unido, a Globo no Brasil e as emissoras públicas alemãs ARD e ZDF resistiram, seja por limites regulamentares ou por uma cultura televisiva menos recetiva a interrupções durante o jogo.

O modelo de negócio implementado no Mundial está a gerar interesse em Espanha, onde canais de televisão que antes não consideravam a aquisição dos direitos de transmissão devido aos custos elevados, já manifestaram interesse futuro caso o formato se mantenha. A RTVE, por exemplo, investiu 57 milhões de euros por um pacote reduzido de jogos, enquanto a DAZN adquiriu os direitos para os 104 jogos através de um acordo global, sem divulgar os valores envolvidos.

Fontes da plataforma de streaming garantem que, «economicamente, as premissas do nosso plano de negócios foram cumpridas», sugerindo o sucesso financeiro da operação. A expectativa é que os montantes envolvidos possam atingir valores astronómicos para o Mundial 2030, que será organizado em casa (Espanha). Apesar do sucesso, a UEFA já comunicou que, para já, não pretende aplicar uma fórmula semelhante na UEFA Champions League ou no Campeonato da Europa. No entanto, a porta não está totalmente fechada a mudanças no futebol global.

Prova disso é a decisão da CONMEBOL, que anunciou a introdução de pausas para hidratação de 90 segundos na Taça Libertadores e na Taça Sul-Americana a partir de 2026. Esta medida, inicialmente pensada para proteger a saúde dos jogadores, poderá consolidar-se como mais uma componente do negócio do futebol, refletindo a crescente influência de novas práticas no desporto-rei.

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